SER DESCER


Diáspora de chamas, ordinária.

Bafio das vozes desumanizadas
pelo umbigo da saudade nundinária
no alfabeto réptil dos meus suplícios.

Da letra, gravita a noite
na insónia do relento rectilíneo
do meu pensamento liquefeito no infinito.

Deslizo a mão enlameada de pedras
pela bruma do rosto liberto em retratos de fel.

Dessas pedras,
nuvens fúnebres são colos de olhos
que soam nos sinos das colinas o ser descer.

Consciências sem tímpanos
citam borrascas de pássaros sem voo.

Resta-me o silêncio
no vértice do verbo inerte,
falado de mim como quem verte solidões.

Orações de adeus purpúreo,
velado num poema poliédrico ratificado ao nada.

Do sol, os raios enlatam-me
numa pira de incensos naufragados
na paisagem da dor que me povoa em cinza.

Da lua, náuseas
me confessam sem ânimo
numa esquina triste de poeiras.

Cegueiras à beira de um céu em orgias de morte.

Do violino que me chama à cova,
desafino o vento que se arrasta pelos meus ossos.

Orquestra de cálcios extirpados
da sinfonia que se despe Vénus vagabunda
no rio de línguas dialogadas em espinho no meu corpo.

 

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Tuesday, May 31, 2011 - 20:32

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