Por que me abandonaste? Livro dos Salmos - 21 (Ernesto Cardenal)

Meu Deus meu Deus por que me abandonaste?

Sou uma caricatura de homem

o desprezo do povo

Riem de mim em todos os jornais

Rodeiam-me os tanques blindados

estou sendo apontado pelas metralhadoras

e encerrado em cercas de arame farpado

as cercas eletrificadas

Todo dia me fazem chamada

Tatuaram-me um número

Fotografaram-me dentro da cerca

e é possível contar meus ossos

como numa radiografia

Levaram-me todos os documentos de identidade

Conduziram-me nu ante a câmara de gás

e se compartiram minhas roupas e meus sapatos

Grito pedindo morfina e ninguém me ouve

grito sob a camisa de força

grito a noite inteira no asilo de doidos

na sala dos doentes incuráveis

no corredor dos enfermos contagiosos

no asilo de velhos

agonizo banhado de suor na clínica do psiquiatra

afogo-me na câmara de oxigênio

choro na delegacia

no pátio da prisão

no quarto de torturas

no orfanato

estou contaminado de radioatividade

e ninguém se aproxima para não se contagiar

 

Mas eu poderei falar de Ti aos meus irmãos

Eu Te elevarei na reunião de nosso povo

Ecoarão os meus hinos no meio de um grande povo

Os pobres terão um banquete

O nosso povo celebrará uma grande festa

O povo novo que vai nascer

 

Ernesto Cardenal, In: Salmos. Tradução: Thiago de Mello.

Submited by

Miércoles, Julio 6, 2011 - 01:26

Poesia :

Sin votos aún

AjAraujo

Imagen de AjAraujo
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 7 años 42 semanas
Integró: 10/29/2009
Posts:
Points: 15584

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of AjAraujo

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Intervención Orfeu Rebelde (Miguel Torga) 0 8.022 02/22/2012 - 11:57 Portuguese
Poesia/Meditación Os homens amam a guerra (Affonso Romano de Sant´Anna) 0 3.281 01/22/2012 - 11:13 Portuguese
Poesia/Dedicada Eppur si muove [Não se pode calar um homem] (Affonso Romano de Sant´Anna) 0 4.194 01/22/2012 - 10:59 Portuguese
Poesia/Intervención O Leitor e a Poesia (Affonso Romano de Sant´Anna) 0 11.375 01/22/2012 - 10:48 Portuguese
Poesia/Intervención Um despertar (Octavio Paz) 0 4.150 01/21/2012 - 23:14 Portuguese
Poesia/Aforismo Pedra Nativa (Octávio Paz) 0 6.961 01/21/2012 - 23:10 Portuguese
Poesia/Intervención Entre Partir e Ficar (Octávio Paz) 0 5.445 01/21/2012 - 23:05 Portuguese
Poesia/Aforismo Fica o não dito por dito (Ferreira Gullar) 0 4.078 12/30/2011 - 07:19 Portuguese
Poesia/Intervención A propósito do nada (Ferreira Gullar) 0 4.359 12/30/2011 - 07:16 Portuguese
Poesia/Intervención Dentro (Ferreira Gullar) 0 12.115 12/30/2011 - 07:12 Portuguese
Poesia/Pensamientos O que a vida quer da gente é Coragem (Guimarães Rosa) 2 5.255 12/26/2011 - 20:55 Portuguese
Poesia/Dedicada Adeus, ano velho (Affonso Romano de Sant'Anna) 0 4.816 12/26/2011 - 11:17 Portuguese
Poesia/Meditación Para que serve a vida? 0 5.261 12/11/2011 - 00:07 Portuguese
Poesia/Dedicada Natal às Avessas 0 4.346 12/11/2011 - 00:03 Portuguese
Poesia/Intervención A voz de dentro 0 6.598 11/18/2011 - 23:14 Portuguese
Poesia/Intervención As partes de mim... 0 4.854 11/18/2011 - 23:00 Portuguese
Poesia/Pensamientos Curta a Vida "curta" 0 4.974 11/13/2011 - 12:46 Portuguese
Poesia/Intervención Lobo solitário 0 7.880 11/13/2011 - 12:46 Portuguese
Poesia/Pensamientos A solidão na multidão 0 9.031 11/13/2011 - 12:43 Portuguese
Poesia/Pensamientos Não permita que ninguém decida por você... Seleção de Pensamentos I-XVI (Carlos Castañeda) 0 15.231 11/12/2011 - 11:55 Portuguese
Poesia/Pensamientos Não me prendo a nada... (Carlos Castañeda) 0 5.408 11/12/2011 - 11:37 Portuguese
Poesia/Pensamientos Um caminho é só... um caminho (Carlos Castañeda) 0 6.507 11/12/2011 - 11:35 Portuguese
Poesia/Meditación Procura da Poesia (Carlos Drummond de Andrade) 0 4.022 11/01/2011 - 12:04 Portuguese
Poesia/Intervención Idade Madura (Carlos Drummond de Andrade) 0 5.638 11/01/2011 - 12:02 Portuguese
Poesia/Meditación Nosso Tempo (Carlos Drummond de Andrade) 0 7.094 11/01/2011 - 12:00 Portuguese