Chuva Oblíqua (Fernando Pessoa)

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente das velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem de porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa. Entre 1895 e 1905, viveu na África do Sul. Escreveu quer sob os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, quer sob o semi-heterónimo Bernardo Soares e Pessoa ortónimo. É considerado um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Poeta e prosador. Apesar de muito conhecido, Pessoa continua ainda por conhecer. É, decerto, o mais complexo e diversificado dos escritores portugueses.

 

Submited by

Martes, Julio 12, 2011 - 15:05

Poesia :

Sin votos aún

AjAraujo

Imagen de AjAraujo
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 7 años 49 semanas
Integró: 10/29/2009
Posts:
Points: 15584

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of AjAraujo

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Meditación Ramo em Flor (Hermann Hesse) 0 2.033 07/31/2011 - 18:37 Portuguese
Poesia/Amor Querer (Pablo Neruda) 0 2.765 07/31/2011 - 18:35 Portuguese
Poesia/Intervención Retrato (Cecília Meirelles) 0 5.101 07/31/2011 - 18:33 Portuguese
Poesia/Intervención Resíduos: de tudo fica um pouco. (Drummond de Andrade) 0 3.988 07/31/2011 - 18:31 Portuguese
Poesia/Meditación Portas Abertas 0 1.074 07/31/2011 - 15:05 Portuguese
Poesia/Intervención Qual é a Dialética? 0 5.056 07/31/2011 - 15:03 Portuguese
Poesia/Intervención Praia Vermelha 0 4.619 07/31/2011 - 15:01 Portuguese
Poesia/Meditación Primavera 0 1.564 07/31/2011 - 14:59 Portuguese
Poesia/Dedicada Prematura partida 0 3.824 07/31/2011 - 14:58 Portuguese
Poesia/Pensamientos Nunca estamos em nós, estamos sempre além (Michel de Montaigne) 0 1.809 07/30/2011 - 17:42 Portuguese
Poesia/Aforismo Falta de Memória * 0 1.981 07/30/2011 - 17:23 Portuguese
Poesia/Intervención Metapoema * 0 5.402 07/30/2011 - 17:19 Portuguese
Poesia/Aforismo Família Unida * 0 2.252 07/30/2011 - 17:13 Portuguese
Poesia/Intervención Lágrimas ocultas (Florbela Espanca) 0 1.331 07/30/2011 - 17:09 Portuguese
Poesia/Meditación Igual-Desigual (Drummond de Andrade) 0 4.693 07/30/2011 - 17:05 Portuguese
Poesia/Intervención Humildade (Cora Coralina) 0 6.360 07/30/2011 - 17:03 Portuguese
Poesia/Amor Gosto quando te calas (Pablo Neruda) 0 9.874 07/30/2011 - 17:00 Portuguese
Videos/Musica This Masquerade (Dionne Warwick & George Benson) 0 7.394 07/30/2011 - 15:00 Inglés
Videos/Musica Killing Me Softly (Dionne Warwick with Roberta Flack) 0 9.331 07/30/2011 - 14:50 Inglés
Videos/Musica I Say a Little Prayer for You (Dionne Warwick & Lucy Lawless) 0 16.480 07/30/2011 - 14:47 Inglés
Videos/Musica I'll never love this way again (Dionne Warwick) 0 8.781 07/30/2011 - 14:38 Inglés
Videos/Musica The Diary, NY Live 2010 (Neil Sedaka) 0 11.483 07/30/2011 - 14:21 Inglés
Videos/Musica Smile (Neil Sedaka) 0 4.307 07/30/2011 - 14:13 Inglés
Videos/Musica All the way (Neil Sedaka) 0 12.868 07/30/2011 - 14:08 Inglés
Videos/Musica Breaking Up Is Hard To Do (Neil Sedaka) 0 5.962 07/30/2011 - 14:04 Inglés