Nunca estamos em nós, estamos sempre além (Michel de Montaigne)

Os que acusam os homens de ir sempre perseguindo boquiabertos as coisas futuras, e ensinam a nos apossarmos dos bens atuais e a sossegarmos neles por não termos nenhum domínio sobre o que está para vir, até bem menos do que o temos sobre o que passou, referem-se ao mais comum dos erros humanos – se é que ousam chamar de erro algo que a própria natureza nos encaminha para servirmos à continuação da sua obra, imprimindo-nos, como muitas outras, essa fantasia enganadora, mais ciosa da nossa ação que do nosso saber.

Nunca estamos em nós, estamos sempre além.

O temor, o desejo, a esperança lançam-nos para o futuro e roubam-nos a percepção e o exame do que é, para entreter-nos com o que será, até mesmo quando não existirmos mais.  Infeliz é o espírito que se preocupa com o futuro (Séneca).

Este grande preceito é frequentemente citado em Platão: Faz o teu feito e conhece-te a ti mesmo.
Cada um desses dois membros engloba em geral todo o nosso dever, e igualmente engloba o seu companheiro.

Quem tivesse de fazer o seu feito veria que a sua primeira lição é conhecer o que é e o que lhe é próprio. E quem se conhece já não toma como seu o feito alheio: ama-se e cultiva-se acima de qualquer outra coisa; rejeita as ocupações supérfluas e os pensamentos e projetos inúteis.

Assim como a loucura não ficará contente quando lhe concederem o que deseja, assim a sabedoria se contenta com o que está presente, e nunca se desagrada de si (Cícero). Epicuro dispensa o seu sábio da previsão e da preocupação quanto ao futuro.
 

Michel de Montaigne (1533-1592), ensaísta/escritor francês, in 'Ensaios'.
 

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Sábado, Julio 30, 2011 - 16:42

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