Dois gumes e uma garrafa para aliviar a dor
Definitivamente o amor não é algo agradável. É um jogo sujo, injusto. Falar sobre amor é repugnante... bem, talvez não repugnante mas é estranho, é algo que custa a sair. É falar do que não sabemos. Palavras engasgadas que mais tarde ou mais cedo hão-de vir à tona, causar os seus estragos. Escrever sobre amor é uma faca que se crava no peito, que lentamente abre um buraco para aliviar o peso. É com as mãos em sangue que escrevo.
Amo-te.
Custa-me amar-te. Custa-me ter algo nas mãos e num momento já não o ter mais. E custa-me que este momento se repita, e a impotência... a impotência mata-me... Um amor assim é uma criança que não chega ás suas bolachas. A criança estica os braços, a vontade é muita, mas a mãe só permite uma bolacha por dia. Uma apenas. O resto do dia as bolachas estão lá, a criança vê-as mas não lhes pode tocar. Isto dói ainda mais quando deixamos de ser crianças.
Não é algo agradável, amar digo. Apresenta-se-nos numa bandeja, traje de gala, enfeita-se bem. É desta que vai correr tudo bem, diz-nos ao ouvido. Mostra-nos maravilhas, conta-nos histórias que nos fazem sorrir. Impõe-se. Crava-se fundo. O que posso agora fazer sem ti? E depois não se permite agarrar. Põe-nos as correntes nas mãos e faz-nos correr atrás dele, presos ao seu próprio peso. Acabamos por nos encontrar numa sala desarrumada, com a visão turva. O coração aberto, as manchas de sangue que se espalham pela alcatifa, uma faca de dois gumes na mão e uma garrafa de alcool para aliviar a dor. Arde sim, é insuportável quase. Mas mantém a mente afastada de outras dores.
Amo-te.
Sofro por cada segundo sem ti, por cada metro que nos separa. São breves os momentos que me sustentam. Movo-me apenas pela esperança de mais alguns. Uma prova de que vale a pena. E vale. Tudo vale a pena por ti. Pois tão desagradável, desconfortável, sujo e injusto este amor é, que simplesmente não estou preparado para viver sem ele.
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