Manhã Submersa

Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da estrada, espiando-nos do alto da sua quietude lôbrega pelos cem olhos das janelas. Até que, chegados à larga boca do portão, nos tragou a todos imediatamente, cerrando as mandíbulas logo atrás. Enrolado na multidão silenciosa, fui subindo a larga escadaria em cujo topo um padre quieto, de mãos escondidas nas mangas do viatório, ia separando as divisões para as respectivas camaratas. Mudos e quedos, ao pé dos muros, aparecerem-me ainda, ao longo do corredor, vários padres de sentinela. E na pura ameaça do seu olhar de sombra eu sentia, mais escura, a grandeza ilimitada de um pavor abstracto

Falo agora à memória destes últimos vinte anos e pergunto- me que destino atravessou a minha vida além desse pavor, que outra voz mensageira lhe chamou ao futuro além da voz de uma noite sem fim.

Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isto a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta e que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia.

Dói-me o que sofri e recordo, não o que sofri e evoco.

Porque o peso da dor nada tem a ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente.

… que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada.

   http://topeneda.blogspot.pt/                                                                                                                                                                                                 Vergílio Ferreira

Submited by

Jueves, Octubre 18, 2012 - 13:11

Poesia :

Sin votos aún

topeneda

Imagen de topeneda
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 1 semana 4 días
Integró: 08/12/2011
Posts:
Points: 4310

Comentarios

Imagen de Adolfo

Soberbo! Simplesmente,

Soberbo! Simplesmente, soberbo!

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of topeneda

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Pensamientos O Monstro 0 5.499 08/13/2011 - 14:38 Portuguese
Poesia/Pensamientos Moralidade do porco 0 4.094 08/13/2011 - 14:34 Portuguese
Poesia/Pensamientos Realidade ou ficção? 0 1.853 08/13/2011 - 14:32 Portuguese
Poesia/Pensamientos Quer saber a verdade? 0 3.984 08/13/2011 - 14:28 Portuguese
Poesia/Pensamientos Retrato de uma grande verdade 0 2.948 08/13/2011 - 14:26 Portuguese
Poesia/Pensamientos Despertar 0 4.327 08/13/2011 - 14:23 Portuguese
Poesia/Pensamientos A droga mais viciante 0 4.393 08/13/2011 - 14:20 Portuguese
Poesia/Pensamientos Homo vermes 0 6.425 08/13/2011 - 14:17 Portuguese
Poesia/Pensamientos Eterno Invencível 0 5.217 08/13/2011 - 14:14 Portuguese
Poesia/Pensamientos Poeira de Estrelas 0 4.164 08/13/2011 - 14:12 Portuguese
Poesia/Pensamientos Traidores f.d.p. 0 4.171 08/12/2011 - 20:56 Portuguese
Poesia/Pensamientos Traidores f.d.p. 0 4.332 08/12/2011 - 20:52 Portuguese
Poesia/Pensamientos Humildade: peixe fora de água 0 4.473 08/12/2011 - 20:46 Portuguese
Poesia/Pensamientos Vai em frente! 0 4.799 08/12/2011 - 20:32 Portuguese
Poesia/Pensamientos A mediocridade faz calos nos pés 0 7.871 08/12/2011 - 20:27 Portuguese
Poesia/Pensamientos Romances cor-de-rosa 0 3.939 08/12/2011 - 20:14 Portuguese
Poesia/Pensamientos Criancinhas cheias de dor 0 3.393 08/12/2011 - 20:09 Portuguese
Poesia/Pensamientos Escravos do trabalho 0 5.698 08/12/2011 - 20:04 Portuguese
Poesia/Pensamientos Imortalidade 0 4.290 08/12/2011 - 19:56 Portuguese
Poesia/Pensamientos Retórica dos decisores políticos 0 5.573 08/12/2011 - 19:51 Portuguese
Poesia/Pensamientos Vida é só uma(esta e mais nenhuma) 0 5.327 08/12/2011 - 19:40 Portuguese
Poesia/Poetrix O Desalinhado 0 5.872 08/12/2011 - 19:35 Portuguese
Poesia/Pensamientos Adolescente e Adulto 0 3.990 08/12/2011 - 19:32 Portuguese
Poesia/Pensamientos Bancos, calvário dos desgraçados 0 5.479 08/12/2011 - 19:25 Portuguese
Poesia/Pensamientos Pseudo-intelectuais 0 6.678 08/12/2011 - 19:20 Portuguese