Rousseau e o Romantismo - Parte VI - O rompimento com os Enciclopedistas

Após o sucesso da ópera “Le Devin du Village” Rousseau ressentiu-se do afastamento de seus amigos literatos, que não compartilhavam de seu interesse pela música. Nesse assunto, aliás, ele chegou a ser desacatado pelo Barão d´Holbach, fato que motivou o longo rompimento entre ambos. Pouco depois, ele também se afastou dos seguidores do barão, chamando-os de “partido holbáquico”.
Nesse ínterim, 1752 e 1753, lançou a peça teatral “Narcisse” em formato de livro e obteve um êxito razoável. Também executou um novo trabalho para a Academia de Dijon sobre a origem da desigualdade entre os homens. Para escrever esse Tratado, acostumou-se a empreender longos passeios pelo Bosque de Saint Germain, onde, em contato com a natureza, recriou mentalmente a imagem do homem primitivo, desenvolvendo o argumento de que era a civilização a causadora dos males que afligem os indivíduos, já que na natureza, em “estado natural”, os homens eram iguais, bons e felizes; pois as divisões, as discriminações e as injustiças só tiveram inicio quando o “isolamento selvagem” foi substituído pela aglutinação em sociedades.
O seu trabalho, “Discurso sobre a desigualdade entre os homens”, não foi premiado, mas o seu valor foi ampla e generosamente reconhecido, consolidando a sua fama de escritor primoroso.
Em 1754, um amigo convidou-o a acompanhá-lo à Genebra e ele aproveitou para mostrar à esposa Thérèse a sua terra natal. Antes, porém, passou por Chambéri e prestou uma providencial ajuda à Louise, que se encontrava muito necessitada.
Em Genebra foi recebido como uma celebridade e tantas foram as demonstrações de apreço que ele considerou a hipótese de voltar para casa em definitivo. Chegou a submeter-se a uma cerimônia de reconversão ao Protestantismo, que lhe assegurava o direito de cidadania, e a iniciar as providências para a mudança. Após quatro meses voltou a Paris para os preparativos finais, mas soube, então, que a sua obra “Discurso sobre a desigualdade entre os homens” estava sendo pessimamente recebida em Genebra e o seu entusiasmo pela mudança começou a declinar. Aos poucos a intenção de mudar-se foi sendo esvaziada e por fim foi totalmente descartada quando uma admiradora francesa, Mme. Louise Florence Petronille Tardieu dÉsclavelles d`Épinay, ofereceu-lhe uma maravilhosa residência sua propriedade, chamada de Ermitage, para que ele não abandonasse a França. E além dessa oferta, também pesou em sua decisão de não retornar, o fato de Voltaire – um de seus desafetos do “partido holbáquico” – ter-se mudado para uma localidade próxima a Genebra, onde faria uma revolução no Pensamento da população.
Essa soma de argumentos contrários levou-o a se desligar definitivamente de sua pátria de origem e, em 1756, ele mudou-se para a Ermitage, onde pretendia dedicar-se a estudos profundos, especialmente sobre os assuntos dos Tratados que planejava escrever: “Institutions Politiques”, sobre as questões de Estado; e “Materialisme du Sage”, com o qual pretendia inspirar um objetivo mais espiritual no método de educação materialista. Desse último, resultou o célebre “Emilio”.
Nessa ocasião ele também escreveu uma longa missiva a Voltaire aconselhando-o a não ter uma visão tão negativa sobre o mundo. É claro que a reação do francês não foi amistosa e Rousseau morreu acreditando que seu desafeto escrevera o famoso “Cândido ou o Otimismo” apenas para refutar a sua ponderação (1).
Enquanto isso, a sua intenção de trabalhar com temas filosóficos puros esvaiu-se e já em 1757 ele se voltou para a redação de um romance chamado primeiramente de “Julie”, cujo eixo se baseava na troca de correspondência entre dois amantes. Uma trama ardente entre a personagem central e seus amores.
Nessa ocasião, conheceu a cunhada de sua benfeitora, a Condessa d´Houdedot, por quem se apaixonou, associando-a à personagem de seu romance. Ela, porém, repeliu suas investidas e o pretendido relacionamento não chegou a acontecer. Contudo, aquela paixão serviu para revolucionar o enredo de “Julie” – posteriormente chamada de “La Nouvelle Héloisee” – acrescentando-lhe maior número de elementos morais, filosóficos, religiosos e até econômicos.
No terreno prático, a frustrada aventura amorosa custou-lhe mais caro, pois sobreveio uma grande onda de chacotas que o amarguraram e uma séria briga com Mme. Épinay, que se ressentiu do ultraje feito a seu irmão e lhe ordenou que deixasse a residência. Além disso, ele rompeu em definitivo com o amante da mesma, o importante crítico literário alemão Barão de Grimm que antes fora seu amigo e protetor. Ademais, sua amizade com Diderot sofreu um forte abalo, após tê-lo acusado de trair as suas confidencias sobre o caso.
Saindo de Ermitage, Rousseau foi residir em Montlouis, perto de Montmorecy, numa casa pertencente ao Duque de Luxemburgo, um de seus amigos mais poderosos e devotados. Ali, desvencilhou-se de sua sogra e passou a conviver apenas com Thérèse e com seu cão. Nessa vivenda completou o romance “La Nouvelle Héloise” que viria a ser publicado em 1761. Antes, porém, envolveu-se em novo incidente, no ano de 1758, que resultou no rompimento total com Diderot e com os outros Enciclopedistas.
O incidente aconteceu quando o filósofo d´Alembert, instigado por Voltaire, fez algumas afirmações (2) sobre o clero protestante de Genebra e sobre a conveniência de se instalar um teatro na cidade (em seu artigo “Geneve” na Enciclopédia), que lhe desagradaram. Ele replicou com outro artigo, “Lettré a d´Alembert sur Spectacles”, publicado em 1758, onde afirmava que o teatro francês, de Moliére a Voltaire, havia sido um eterno prisioneiro da concepção aristocrática da vida social e cultural; e que as ideias contidas no mesmo não haviam extinguido as paixões maléficas, devendo, por isso, serem repelidas pelos genebrinos se eles quisessem preservar a própria liberdade.
Já no prefácio de sua “Carta a d´Alembert”, lançou ataques pesados contra a vida social e mundana, descrevendo-a como a principal culpada pela maldade humana. Diderot ofendeu-se com essa postura totalmente contrária às afirmativas de sua tendência filosófica, permeada de loas ao desenvolvimento da racionalidade civilizatória, e passou a considerá-lo um traidor, justamente quando deveria estar defendendo os princípios da “Enciclopédia”.
E para completar o quadro de dificuldades, que prosseguiu no ano de 1759, a sua saúde voltou a decair sem que a moléstia exata fosse determinada. Com isso, os médicos concluíram que ele “viveria muito, mas sofreria muito”.
Nesse ínterim, 1752 e 1753, lançou a peça teatral “Narcisse” em formato de livro e obteve um êxito razoável. Também executou um novo trabalho para a Academia de Dijon sobre a origem da desigualdade entre os homens. Para escrever esse Tratado, acostumou-se a empreender longos passeios pelo Bosque de Saint Germain, onde, em contato com a natureza, recriou mentalmente a imagem do homem primitivo, desenvolvendo o argumento de que era a civilização a causadora dos males que afligem os indivíduos, já que na natureza, em “estado natural”, os homens eram iguais, bons e felizes; pois as divisões, as discriminações e as injustiças só tiveram inicio quando o “isolamento selvagem” foi substituído pela aglutinação em sociedades.
O seu trabalho, “Discurso sobre a desigualdade entre os homens”, não foi premiado, mas o seu valor foi ampla e generosamente reconhecido, consolidando a sua fama de escritor primoroso.
Em 1754, um amigo convidou-o a acompanhá-lo à Genebra e ele aproveitou para mostrar à esposa Thérèse a sua terra natal. Antes, porém, passou por Chambéri e prestou uma providencial ajuda à Louise, que se encontrava muito necessitada.
Em Genebra foi recebido como uma celebridade e tantas foram as demonstrações de apreço que ele considerou a hipótese de voltar para casa em definitivo. Chegou a submeter-se a uma cerimônia de reconversão ao Protestantismo, que lhe assegurava o direito de cidadania, e a iniciar as providências para a mudança. Após quatro meses voltou a Paris para os preparativos finais, mas soube, então, que a sua obra “Discurso sobre a desigualdade entre os homens” estava sendo pessimamente recebida em Genebra e o seu entusiasmo pela mudança começou a declinar. Aos poucos a intenção de mudar-se foi sendo esvaziada e por fim foi totalmente descartada quando uma admiradora francesa, Mme. Louise Florence Petronille Tardieu dÉsclavelles d`Épinay, ofereceu-lhe uma maravilhosa residência sua propriedade, chamada de Ermitage, para que ele não abandonasse a França. E além dessa oferta, também pesou em sua decisão de não retornar, o fato de Voltaire – um de seus desafetos do “partido holbáquico” – ter-se mudado para uma localidade próxima a Genebra, onde faria uma revolução no Pensamento da população.
Essa soma de argumentos contrários levou-o a se desligar definitivamente de sua pátria de origem e, em 1756, ele mudou-se para a Ermitage, onde pretendia dedicar-se a estudos profundos, especialmente sobre os assuntos dos Tratados que planejava escrever: “Institutions Politiques”, sobre as questões de Estado; e “Materialisme du Sage”, com o qual pretendia inspirar um objetivo mais espiritual no método de educação materialista. Desse último, resultou o célebre “Emilio”.
Nessa ocasião ele também escreveu uma longa missiva a Voltaire aconselhando-o a não ter uma visão tão negativa sobre o mundo. É claro que a reação do francês não foi amistosa e Rousseau morreu acreditando que seu desafeto escrevera o famoso “Cândido ou o Otimismo” apenas para refutar a sua ponderação (1).
Enquanto isso, a sua intenção de trabalhar com temas filosóficos puros esvaiu-se e já em 1757 ele se voltou para a redação de um romance chamado primeiramente de “Julie”, cujo eixo se baseava na troca de correspondência entre dois amantes. Uma trama ardente entre a personagem central e seus amores.
Nessa ocasião, conheceu a cunhada de sua benfeitora, a Condessa d´Houdedot, por quem se apaixonou, associando-a à personagem de seu romance. Ela, porém, repeliu suas investidas e o pretendido relacionamento não chegou a acontecer. Contudo, aquela paixão serviu para revolucionar o enredo de “Julie” – posteriormente chamada de “La Nouvelle Héloisee” – acrescentando-lhe maior número de elementos morais, filosóficos, religiosos e até econômicos.
No terreno prático, a frustrada aventura amorosa custou-lhe mais caro, pois sobreveio uma grande onda de chacotas que o amarguraram e uma séria briga com Mme. Épinay, que se ressentiu do ultraje feito a seu irmão e lhe ordenou que deixasse a residência. Além disso, ele rompeu em definitivo com o amante da mesma, o importante crítico literário alemão Barão de Grimm que antes fora seu amigo e protetor. Ademais, sua amizade com Diderot sofreu um forte abalo, após tê-lo acusado de trair as suas confidencias sobre o caso.
Saindo de Ermitage, Rousseau foi residir em Montlouis, perto de Montmorecy, numa casa pertencente ao Duque de Luxemburgo, um de seus amigos mais poderosos e devotados. Ali, desvencilhou-se de sua sogra e passou a conviver apenas com Thérèse e com seu cão. Nessa vivenda completou o romance “La Nouvelle Héloise” que viria a ser publicado em 1761. Antes, porém, envolveu-se em novo incidente, no ano de 1758, que resultou no rompimento total com Diderot e com os outros Enciclopedistas.
O incidente aconteceu quando o filósofo d´Alembert, instigado por Voltaire, fez algumas afirmações (2) sobre o clero protestante de Genebra e sobre a conveniência de se instalar um teatro na cidade (em seu artigo “Geneve” na Enciclopédia), que lhe desagradaram. Ele replicou com outro artigo, “Lettré a d´Alembert sur Spectacles”, publicado em 1758, onde afirmava que o teatro francês, de Moliére a Voltaire, havia sido um eterno prisioneiro da concepção aristocrática da vida social e cultural; e que as ideias contidas no mesmo não haviam extinguido as paixões maléficas, devendo, por isso, serem repelidas pelos genebrinos se eles quisessem preservar a própria liberdade.
Já no prefácio de sua “Carta a d´Alembert”, lançou ataques pesados contra a vida social e mundana, descrevendo-a como a principal culpada pela maldade humana. Diderot ofendeu-se com essa postura totalmente contrária às afirmativas de sua tendência filosófica, permeada de loas ao desenvolvimento da racionalidade civilizatória, e passou a considerá-lo um traidor, justamente quando deveria estar defendendo os princípios da “Enciclopédia”.
E para completar o quadro de dificuldades, que prosseguiu no ano de 1759, a sua saúde voltou a decair sem que a moléstia exata fosse determinada. Com isso, os médicos concluíram que ele “viveria muito, mas sofreria muito”.
Nota do Autor1 – hoje é consensual que o alvo de Voltaire era a “Filosofia Otimista”, especialmente a de Leibniz.
Nota do Autor2 – d´Alembert afirmou que o clero protestante de Geneve, Genebra, era “sociniano”, numa referência aos antitrinitários seguidores de dois italianos do século XVI chamados Laelius e seu sobrinho Faustus Socinus. Além disso, propunha que o teatro fosse instalado naquela cidade para servir como centro de propaganda de ideias filosóficas.
Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Comunicação com o Público. Rio de Janeiro, Primavera de 2014.
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Miércoles, Octubre 22, 2014 - 13:29
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