Vivo de sombras
Entra.
Senta-te.
Pode ser naquela cadeira onde nunca te sentaste, perto de mim.
Ainda tenho tempo para te falar, tomar um café, fumar um cigarro e para te ouvir.
Os teus olhos... nunca os vi assim tão transparentes e brilhantes.
Talvez por que das outras vezes que vieste não perdeste tempo comigo, vinhas por outras razões, vinhas por gente que amei.
Hoje, vens por mim, e eu vesti a minha melhor roupa. Deitei-me, imóvel, à tua espera, como se antes a Górgona Medusa tivesse passado por aqui, antes ainda de Perseu a matar, antes ainda de Pégasus nascer do seu sangue derramado.
Sabes, o dia acabou, sempre igual, e a noite chegou. Como sempre, sem nada para fazer.
Cansado de estar aqui a rabiscar em papéis, a sonhar.
Por isso tenho tempo para conversar e te conhecer melhor.
Entra.
Senta-te.
Diz-me como vai ser o futuro, já que vens das terras sem tempo.
Antes de ir a qualquer lado contigo, quero saber.
Há música de onde vens? Sol? Chuva? Sentimos o vento na nossa face?
Entra.
Senta-te.
Não me beijas? Tão séria e branca. Tão distante.
Vamos então, faz-se tarde, o dia nasce.
Não tenho malas a fazer.
Tudo o que tenho transporto nos meus braços e mãos.
E as sombras não têm peso.
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Comentarios
Um ótimo texto. Jhyn.
Um ótimo texto.
Jhyn.
Re: Vivo de sombras
Entra,senta-te. Deixa-me dizer-te que te menti. Muitas vezes te disse que tinhas escrito o melhor poema de sempre. Estava equivocada. É este, sem dúvida. De cada palavra emana uma força tal que desencadeia um mar de emoções, uma angústia imensa...
"E não se quer pensar!... E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Q'rer apagar o Céu - Ó sonho atroz! -
O brilho duma estrela, como o vento!..."
Florbela Espanca "Angustia" in Livro de Mágoas
Entra. Senta-te. E não partas nunca.
Beijo
Quimeras
Re: Vivo de sombras
Uma bela viagem, um belo texto. Abraços