Dois Reis de Gente 26-01-09

Final de Primavera, no ar já cheirava a Verão, eu, caminhava descontraidamente numa artéria na zona mais velha da grande cidade de Lisboa. Onde outrora os grandes armazéns animavam os dias de quem passava pelas bandas do velhinho Chiado.
As lojas deliciavam os seus visitantes que passavam de um lado para o outro com os seus diversificados produtos expostos em saldo.Com a chegada da nova estação, era então altura de escoarem os restantes produtos de stock existentes da anterior estação.
Despreocupado e sem pressa de chegar a lado algum, passeava nesse final de Primavera, no ar, já pairava o cheiro a Verão. Caminhava enquanto ao mesmo tempo, deliciava-me com a nova arquitectura do remodelado Chiado.
Aquela paisagem arquitectónica deliciava-me, os seus vários edifícios reconstruídos de raiz com mais rigor e personalidade, adequados aos dias de hoje. Ao longe visualizei alguém que seguia em minha direcção. Dois reis de gente entre a multidão.
Em passo acelerado, seguia a sua azáfama de pequenez, não tendo mais que metro e trinta de altura, seguia rua abaixo sem parar, sua marcha era interrompida pelo breve gesto de mão estendida. O jovem que estendia o seu franzino braço, dando e recebendo.
Calção acima dos joelhitos, suspensos por uns coloridos suspensórios que, serviam, nada mais, nada menos, para suportar o peso dos seus aglomerados remendos.
Remendos feitos ao jeito dos seus dois reis de gente…
Camisa embelezada pelos efeitos de alguns coloridos remendos, dando também um suave toque de classe na subtil antiguidade. A sua amarrotada pele de flanela que cobria o seu franzino corpo dos raios ultra violeta que, batia forte naquele pico de hora, na sua fraca figura de gente, os raios de Sol pareciam trespassa-lo de um lado ao outro.
Nele sobressaiam os restantes membros também os encrostados joelhitos, devido à sua extrema magreza e das enumeras quedas efectuadas ao longo do dia. Sapatos arqueados, mais pareciam a frente de duas caravelas, como aquelas que no tempo dos descobrimentos Vasco da Gama utilizara para percorrer os imensos mares deste mundo na senda orla dos descobrimentos.
A popa parecia querer atracar nas águas do Tejo junto ao Cais do Sodré, enquanto que a proa se desfigurava da restante embarcação. O número, bastante superior ao seu pé, como tinha sido oferecido por um benfeitor da alta sociedade, algum tempo a trás, sempre melhor que andar descalço, mesmo esfrangalhado e gastos pelo tempo devido ao uso e longevidade.
Lá vinha os dois reis de gente na sua azáfama vidinha, onde a pressa primava o seu destino. Assim ele, cada vez mais se aproximava de mim e eu dele também.
Aquela fraca figurinha de dois reis de gente que se figurava à minha frente, no meio de tanta gente. Sua voz de meninice elevada bem alto, até onde as cordas vocais lhe permitiam prenunciar o habitual pregão de ardina.
Pregão que ecoava pela rua abaixo, que chamava a atenção de todos quanto passavam.
Despertando ao mesmo tempo a curiosidade e admiração alheia. Porque, aquele dois reis de gente apregoava a manchete que vinha estampada na capa da revista.
Rua a baixo, rua a cima, alegre, bem disposto, escolhia sempre a hora de mais fluxo de gente, assim podia aumentar a venda tanto da revista como do seu dia que crescia a olhos vistos a cada passagem.
Enquanto que ao mesmo tempo fazia a troca, ecoava vezes sem conta o seu tradicional pregão, munindo-se sempre de um exemplar em cada mão.
Seu nome e idade, para todos se torna irrelevante, no entanto, o que mais a mim fascinara, fora a sua doçura de olhar e tremenda delicadeza com que abordava as pessoas na rua e tal satisfação por mais uma revista conseguir vender.
Seu olhar iluminava-se em mil cores, mais uma que vendera, das muitas que trazia na sacola sem nunca abrandar o seu passo. Sacola abarrotava de exemplares, assim continuava enquanto mais e mais uma vendia, também agradecia.
“Muito obrigado senhor, que Deus o ajude também”, uma vez mais se fazia ouvir sua voz, chavão de marca. Voz de meninice aquele dois reis de gente.
“Faça favor de comprar, é apenas um Euro, se o senhor ajudar, a revista vai levar…”

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Jueves, Diciembre 10, 2009 - 23:08

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Angelo

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Re: Dois Reis de Gente 26-01-09

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Feliz Natal e um Próspero Ano 2010
Melo

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Este é mais um poema de excelencia, espero que gostem e comentem.

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