Que Culpa Tenho Eu?

Quero ir por todos os cantos da terra em busca de paz. Daquela paz que eu mereço, como naquele tempo em que me via a percorrer todos os caminhos e nada fazia prever esta mágoa que carrego no peito. Se no meu imaginário, houvessem vidas ainda por chegar, seriam almas num movimento constante, abraçando o concreto e o absoluto, negando o abstracto e o irreal. Há movimentos em círculos fechados que se caracterizam pelas inconstantes movimentações das horas retidas na noite e se retraem num corpo só. Diz-me o que te apoquenta, conta-me tudo o que passou num outro tempo, em que nos retivemos nas margens do rio. Secaram todas na volta dos ventos, quando tu te viraste contra o sol. Não há culpados, não há usurpados, não há castigados nem vultos sombreados, mas tão somente, mentes que se gastam num mundo cortado em dois.

(Que culpa tenho eu se te apunhalaste a ti mesmo, e te mantiveste trancado tanto tempo, sem veres a luz do sol?)

Sabes que estes impulsos norteados e desgastados pela erosão do tempo, deixam marcas pelo chão, mas nunca o poderás saber, se as tuas marcas já vierem de muito longe, num tempo em que se gastaram os gestos e se demarcaram os sorrisos num único rosto prostrado no chão. Continuas a escrever as mesmas letras com figuras bélicas a riscar os papéis da memória, mas não sabes somar os tempos em que fomos um, e nos dizíamos de todos, na abertura dos momentos áureos, fechados há tanto tempo nas catacumbas dos sonhos. Lembrei-me de todos os anos que passaram em que escrevia para ninguém, e me limitava a reescrever, certos olhares que trajavam o teu corpo nu. Fechava os textos que te descreviam com pontos finais e avançava sempre na direcção de um ponto que me iluminasse o rosto, para te poder enxergar na luminosidade de um sorriso aberto. Sorria sempre que te via chegar. Mas indiferentes, são outros sorrisos que são portas semi-abertas em templos gastos e abafados pelos olhares perdidos e presos às lâminas que cortam o ar que respiro. Será ele sempre respirável e abomináveis os capítulos que se mostrem indiferentes à nossa história.

(E há histórias que merecem ser contadas e arrastadas pelos quatro cantos do mundo)

(“A Voz do Silêncio”

Submited by

Lunes, Febrero 22, 2010 - 12:17

Prosas :

Sin votos aún

ÔNIX

Imagen de ÔNIX
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 14 años 8 semanas
Integró: 03/26/2008
Posts:
Points: 3989

Comentarios

Imagen de robsondesouza

Re: Que Culpa Tenho Eu?

Querida Ônix,

Culpa é sinõnima de merecimento que é sinônimo de arrependimento pelo ter-se sem o merecer.

Não, não temos culpas... Temos gratidão pelo caos reunido, que chamamos alma.

Abraços, Robson!

Imagen de ÔNIX

Re: Que Culpa Tenho Eu?P/robson

Olá robson

Um prazer poder contar com a sua leitura

beijo

Imagen de vitor

Re: Que Culpa Tenho Eu?

É muito belo o seu texto. Gostei muito.

Quem sente na voz do silêncio, escreve tinta encarnada na marca da alma, no sangue marcado para sempre... a cor do sentimento - gravado eternamente.

Beijo.

Vitor.

Imagen de ÔNIX

Re: Que Culpa Tenho Eu?P/vitor

Olá Vitor

Um prazer poder contar com a sua apreciação

beijo

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of ÔNIX

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Fotos/Caras Véus 1 2.925 08/01/2010 - 02:34 Portuguese
Fotos/Caras Perfil 2 2.487 08/01/2010 - 02:33 Portuguese
Fotos/Cuerpos Rita 1 2.322 08/01/2010 - 02:27 Portuguese
Fotos/Cuerpos Rita 1 2.441 08/01/2010 - 02:27 Portuguese
Prosas/Otros Dimensões I - Amor 1 2.683 07/22/2010 - 22:21 Portuguese
Poesia/Meditación Até que me oiçam...sonho 5 1.685 07/22/2010 - 13:48 Portuguese
Poesia/Meditación Luminescência 8 2.317 07/22/2010 - 13:47 Portuguese
Prosas/Otros As palavras que sempre te direi... 4 3.675 07/19/2010 - 16:11 Portuguese
Prosas/Romance Também gostava de me ser assim...no ir 2 4.173 07/14/2010 - 11:23 Portuguese
Poesia/Meditación Nem Terra, Nem Céu e Nem Nada 3 1.837 07/10/2010 - 12:24 Portuguese
Poesia/Meditación Uivos famintos dos sem terra, sem pão 0 3.185 07/07/2010 - 15:40 Portuguese
Poesia/Meditación Testemunhos 3 2.317 07/04/2010 - 12:28 Portuguese
Poesia/Amor E eu, Amor, beijo-te 3 1.836 07/02/2010 - 14:19 Portuguese
Poesia/Meditación Nada, é Nada 2 1.433 06/18/2010 - 22:05 Portuguese
Poesia/Dedicada Morrer É Ponto Certeiro (ao José Saramago) 1 2.098 06/18/2010 - 18:50 Portuguese
Poesia/Meditación Só Mínguas de Sonhos 3 1.218 06/16/2010 - 16:36 Portuguese
Poesia/Amor E Nos Tomaremos Meio por Meio 2 2.097 06/09/2010 - 08:58 Portuguese
Poesia/Meditación Loucos, São Todos os Loucos 4 1.532 06/09/2010 - 08:54 Portuguese
Poesia/Meditación Estreitando Laços 2 1.641 06/08/2010 - 22:44 Portuguese
Poesia/Meditación É Urgente 3 1.928 06/08/2010 - 21:07 Portuguese
Prosas/Otros Dormi mal, tenho os olhos a doer, e como te disse, estou uma "merda" hoje 4 3.552 06/02/2010 - 16:28 Portuguese
Prosas/Cartas Gosto da sensação do toque e de saber que não estou só 5 3.102 06/02/2010 - 16:22 Portuguese
Prosas/Romance Momentos especiais saídos do fundo das memórias 0 2.490 06/02/2010 - 16:10 Portuguese
Prosas/Romance Becos Sem Saída 1 1.610 05/15/2010 - 04:25 Portuguese
Poesia/Meditación Imenso, Imensamente, Adequadamente 0 1.222 05/15/2010 - 02:39 Portuguese