Oratória
Oratória
A cidade da Bahia foi o berço dos grandes homens que usaram a palavra para mostrar seus sentimentos, questionar a sociedade e obter lucros e manipular pessoas no século XVII, a fim de dominar territórios na América Portuguesa. Foram destas tentativas discursivas que nasce a oratória brasileira.
Os sermões luso-brasileiros demonstram a riqueza estilística dos padres jesuítas em cartas direcionadas aos reis para resolver os problemas das colônias e até para manipulá-los criando situações que os favorecessem no domínio dos fiéis. Um dos grandes sermonistas do século XVII, foi o padre Antônio Vieira, que através dos seus discursos criticava não só os fiéis como também os seus superiores. A grande celebração em torno da figura de Padre Veira, merecidamente ofusca os outros sermonistas da época, o que o próprio sacerdote reconhecia, pois criticava outros oradores que segundo ele não dominava o discurso e queria se passar por sermonista.
Segundo Maria de Lurdes Belchior(2004), há uma carência de estudo sobre a oratória sacra portuguesa dos séculos XVI e XVII, de modo especial, ao dedicado ao tema da morte: “pouco sabemos sobre o sermonário fúnebre, constituído por panegírico do defunto, feitos de encomenda; ignoramos como era aprensentada a morte e a sua problemática ao auditório; não temos notícias sobre se o pregador encarreirava a pregação para a meditação dos novíssimos ou distraía os ouvintes com astúcias e erudição.”
A oratória também pode ser observada nos batismos religiosos, o que era um acontecimento importante para a época, pois ele significava o registro do nascimento espiritual do indivíduo. Sendo assim, a certidão de batismo funcionava na prática, como um documento de identidade , com informações sobre a filiação, a data do nascimento ou pelo menos o ano, a cor da pele e os padrinhos. Este último dado era muito relevante naquela sociedade , uma vez que as relações de compadrio tinham extrema importância no mundo colonial.
De acordo com a visão de Schwartz, pagão era um dos piores epíteto que um cativo podia aplicar a outro, e o africano recém-chegado logo descobria que, de fato, ele ou ela era considerado um bruto sem nome e inferior pelo senhor e os demais cativos enquanto se recusasse a aderir, ao menos nominalmente, a fé católica.
Outro assunto presente na oratória do século XVII, era o concubinato dos padres, que tinham filhos, não obedecendo o sistema monogâmico da Igreja Católica, levando praticamente a mesma vida pervertida dos colonos que possuíam as escravas. Tal fato pode ser constatado na carta de padre Manuel da Nóbrega que critica a perversão: “somente um amancebado que veio nesta armada, o qual como logo chegou tomou uma índia gentia pedindo-a a seu pai, fazendo-a cristã, porque é este o costume do povo desta terra e cuidam nisso obsequium se prestare Deo, porque dizem não ser pecado tão grande, não olhando a grande irreverência que se faz ao sacramento batismo. E este amancebado, não dando por muitas admoestações que lhe tinha feito, se pôs a permanecer com ela, o qual eu admoestei no púlpito.”
A oratória usada pelos padres não poupava nem os bispos, que sofriam constantemente constrangimentos em sua ação de pastor do rebanho católico na América Portuguesa, que disputavam as terras com o pretexto de fazer obras sociais, o que despertava a revolta de outros religiosos que usavam a oratória, ou seja, o dom da palavra para convencer os reis a dar mais donativos para o seu rebanho.
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