GLOSAS XXX

30

Quem vê de Analia o semblante
Julga vêr a mãe de Amor.

Fica cego, e delirante,
Veneno em nectar destilla,
Abraza-se, e se anniquilla
«Quem vê de Analia o semblante:»
Ella surge triumphante
Sobre as plumas do louvor,
E d'esse mesmo fulgor
D'onde os corações conquista,
Quem de cá debaixo a avista
«Julga ver a mãe de Amor.»

A Primavera brilhante
Vem ver a origem da vida,
Vê toda a terra florída
«Quem vê de Analia o semblante:»
Mas inda não é bastante
Este applauso, este louvor;
Quem seu gésto encantador
Olha, de graças portento,
N'aquelle ethereo momento
«Julga ver a mãe de Amor.»

Duro nó, nó diamante,
Que horrivel jugo nos traz,
Impetuoso desfaz
«Quem vê de Analia o semblante:»
Embora a virtude cante
Por triumpho extincto ardor,
Que em attentando o amador
N'um rosto mais que as leis forte,
Esquece-se da consorte,
«Julga ver a mãe de Amor.»

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Lunes, Octubre 5, 2009 - 16:50

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