VERSÕES LYRICAS IV

Amor fugido

( Traduzido de Mescho)

Venus chamava o filho em altas vozes.
Se alguem viu pelo campo (a mãe dizia)
Andar vagando Amor, esse é meu filho,
Meu filho, que fugiu. Quem souber d'elle,
Quem noticias me der do meu Capido,
Premiado será; tem certo um beijo
Nos proprios labios da amorosa Venus:
Porém se m'o trouxer, terá mais gloria,
Cousas mais doces do que um simples beijo.
Entre meninos mil este menino
Por diff'rentes signaes se reconhece.
Não tem candida a tez, mas côr de fogo;
São seus olhos espertos, scintillantes,
Meigo o fallar, o coração maligno,
Nunca sente o que diz: tem mel nas vozes,
Mas torna-se feroz, traidor, insano
Apenas se enfurece. E' mentiroso,
E' sagaz, é cruel até brincando;
Trança espessa e formosa ao ar lhe ondêa,
Em dourados anneis lhe desce ao cólo:
Nas faces lhe transluz o ardor, a audacia;
Tem pequenina mão, porém tão forte
Que arroja muito longe as fataes armas:
A' margem do Acheronte ás vezes voam,
E' colhem descuidado o rei do inferno:
Seu corpo é nu, sua alma impenetravel;
Com azas como um passaro voltêa
Do sexo vigoroso ao debil sexo;
Pousa nos corações, e alli se aninha;
N'um arco delgadinho aprompta as frechas,
As frechas, que assim mesmo, tenues, curtas,
Se entranham pelos céos, alcançam Jove;
Pejam farpas subtis a aljava d'ouro,
Que ao lado traz suspensa, e de seus tiros
Até eu, sua mãe, sou alvo ás vezes;
Tudo o que lhe pertence inclue estragos,
Mas nada do que é seu produz mais damno
Que um curto, antigo, inextinguivel facho:
O sol, o proprio sol com elle abraza.
Mortaes, se o encontrares, eia, atae-o,
Atae-o, e muito bem, porque não fuja.
Se elle chorar, seu pranto vos não mova,
Antes desconfiae, seu pranto engana.
Se elle rir, apertae-lhe os nós do laço;
Se quizer abraçar-vos, longe, longe;
Fugi, não vos fieis; abraços, beijos
Nada, nada: — seus labios tem peçonha,
Seus beijos enfeitiçam. Se elle acaso
Vos disser: «Aqui tendes estas armas,
Tomae, eu vol-as dou» não pegueis n'ellas:
Mimos de Amor são perfidos, e ardentes.

Submited by

Domingo, Noviembre 1, 2009 - 18:24

Poesia Consagrada :

Sin votos aún

Bocage

Imagen de Bocage
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 15 años 14 semanas
Integró: 10/12/2008
Posts:
Points: 1162

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of Bocage

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia Consagrada/Soneto Soneto ao Árcade Lereno 0 3.266 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/Soneto Soneto ao Leitão 0 2.191 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/Soneto Soneto Arcádico 0 2.429 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/Soneto Soneto da Amada Gabada 0 3.767 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/Erótico A Ulina 0 4.513 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/Meditación Auto-retrato 0 4.161 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General À morte de Leandro e Hero 0 2.112 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Cantata à morte de Inês de Castro 0 2.425 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Cartas de Olinda e Alzira 0 2.663 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia/Erótico Arreitada donzela em fofo leito 3 2.593 02/28/2010 - 12:18 Portuguese
Poesia/Erótico Lá quando em mim perder a humanidade 1 2.369 02/28/2010 - 12:15 Portuguese