Acidente no cruzamento I
Acidente no cruzamento
(É nos cruzamentos deste caminho, que acidentes acontecem. Feliz ou infeliz coincidencia…)
Estrada entupida. Caía chuva fina e caíam carros. A chuva entope. Congestiona a visão afiada, pois é filha das nuvens baixas e foscas dessa manhã de Fevereiro.
Os carros trepam-se e atrasam-se uns aos outros. Aflitivos atropelos. São filhos da civilização tal como a chuva que cai é filha das nuvens. A civilização, a custo, tenta ordenar-se. Cria novas vaidades, porque em busca de novos engenhos, cria novas necessidades…
As pessoas, essas, seguem encaixadas e engarrafadas. Podem olhar-se, mas, no fundo não se vêem. Será da chuva?
Vão continuando lentamente o seu caminho. O sono transforma a condução humana, na condição humana.
Uns,… vão em modo de piloto automático, em torpor e raciocínio nublado como essa manhã aguada.
Ainda existem outros. Vão em total vigília e, ao absorver a vibração excessiva que o trânsito emite, praticam um ritual de dança nervosa. Mexem-se em excitada e irritada gesticulação, apitam as buzinas e berram como animais predadores que já não sabem ser. Podiam até ser homens-das-cavernas, se os gritos não fossem tão ridiculamente vãos.
(Estúpida sinfonia da civilização. Entrar na engrenagem da máquina. Queda na inutilidade do sistema.)
Ouve-se o chiar dos pneus a derrapar pelo húmido asfalto. Estrondo. Chapa amassada. Leve cheiro a borracha queimada, misturada com o alcatrão e terra molhada. Depois do susto inicial e do rebater apressado do coração, os dois carros abrem a porta quase em sincronia absoluta. Continua a chover. Chuva fina de nevoeiro espesso. Do carro da frente, sai ela, desesperada. Tinha a prova do vestido de noiva à espera. Ele, sai resignado e abatido. Tinha o corpo do pai para velar, e, pela tarde, enterrar.
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Comentarios
Ricardo, excelente descrição
Ricardo, excelente descrição à la minute, de momentos que decerto já todos vivemos, neste mundo de carros e chuva atirados ao desvelo da condição humana amassada no bolo da nossa própria desdita. Somos todos, creio eu, um acidente à espera de acontecer, ainda bem que os há também felizes, como este texto teu em que tropecei por acidente.
COMENTÁRIO
Para ler em dias confusos,
... é bom para pôr as nossas prioridades no lugar.
Abraços a todos!
Ricardo Rodeia
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Registo de Propriedade Intelectual – Ministério da Cultura /IGAC: “Coisas Ingénuas” (Fotografia, poesia e prosa), Procº Nº 5329/2009; Regº Nº 5721/2009.