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A Abóbada - Capítulo III: O Auto

Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de curiosos bestiaes e lavores: era este o logar onde elrei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao pe do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da parede um devoto presepio<1>, mui erguido do chao, e representando serranias agrestes, ao sope das quaes estava armada uma especie de choca, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. Jose, acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso de muitas taboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto.

Tanto que elrei saiu da porta do cruzeiro que da para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Fr. Lourenco, que com todos os modos de homem cortezao offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia sairam logo as primeiras figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos mencao.

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo ao auto. Tres que vinham adiante representavam a Fe, a Esperança, e a Caridade: apos ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba; todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que enlevava os olhos da grande multidao dos espectadores era o Diabo, vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo tablado, e seu forcado na mao, mui vistoso e bem posto. Feitas as venias a elrei, a Idolatria comecou seu arrazoado contra a Fe, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que a Fe acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella Fe não era culpada de ter chegado tao asinha esse dia. Entao o Diabo vinha lamentando-se de que a Esperança comecasse de entrar nos coracoes dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar toda a gente; que se dava ao demo por ver as perrarias que a Esperança lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos, que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel. Ainda que o Diabo fizesse de truao da festa, nem por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura do que a tao honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando os grandes desvairos que pelo mundo iam, e como os homens se arremessavam desacordadamente no inferno, a mandara para lhes apontar o direito caminho do ceu; e por aqui seguia com razoes mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas as razoes da Esperança, travou della mui rijo, e com voz torvada e rosto acceso, comecou de bradar, que esta dona era sandia, porque entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros, e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de boa razao, que a gente vil houvesse igual quinhao no ceu com os senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fora da geral opiniao e direito, indo por aqui discursando com remoques mui orgulhosos, como a Suberba que era. não soffreu, porem, o animo da Caridade tao descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lh'o atalhou com tomar a mao naquelle ponto, e notar que os filhos de Adao eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Suberba inventara as vans distinccoes entre os homens, e que a vida eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados, do que os potentes, o que provou claramente a sua contraria com bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui corrida, por não ter contra tao grande auctoridade resposta cabal. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para dar sua sentenca, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria, o Diabo e a Suberba, e annunciar as tres virtudes que as ia elevar ao ceu, onde reinariam em gloria perduravel. Entao o Diabo, fazendo horribilissimos biocos, pegou pelas maos as duas companheiras, e fugiu pela igreja fora com grandes apupos e doestos dos espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degraus das ondas de papelao para a terra de soalho) em vez de subir ao ceu, como annunciara, desceu pelas pranchas, que davam para o pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu a sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tao victoriadas pelos espectadores, como apupado fora o Diabo e as suas infernaes companheiras.

Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma porta do cruzeiro, sairam os tres reis magos, ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina tela, mantos reaes, e coroas na cabeca. Adiante vinha Balthasar, homem já velho, mas bem disposto de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas, posto que brancas, bem povoadas: logo apos elle vinha o rei Belchior, e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como uma estrella os guiara ate Jerusalem, e como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Bethlem, e com grande folganca encontravam ahi o presepe, para fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa d'ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David, Divinal Salvador da triste raca Humanal, Que descestes la do assento Celestial; Vos da gloria imperador Eternal, Acceitae este offertorio não real, Pobre si. E quanto posso: não hei al. O que fora compridoiro De auto tal Bem o sei. Andei mas vias, Por meu mal; Que dez dias prantei tendas De arrayal Nas soidoes fundas d'Arabia, Mui fatal. Meus camellos ha tisnado Sol mortal; E um, de vento do deserto, Vendaval. O presente, que ahi vedes, Pouco vai; E somente algum incenso Oriental; Que o thesouro que eu trazia, Mui cabal, Soterrou-mo a tempestade No areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua oração em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo a urna que trazia nas maos ante o presepe, disse:

Vindo sou Ia do Cataio A adorar-vos alto infante, Redemptor: não me poz na alma desmaio Ser de lerra tao distante Rei, senhor! E bem torva a minha lace: Minhas maos tingidas sao De negrura; Mas na terra onde o sol nace Mais se cobre o coração De tristura; Porque o torpe Mafamede Sua crenca mui sandia Mandou la; E não ha quem della arrede Essa gente, que aperfia Em ser ma. Real tronco de Jesse Mui fermoso, se eu podera Vos levara; E comvosco a vossa fe Os increus eu convertera, E os salvara. Ora quero ver se peito Sao Jose, que e vosso padre ....

Um sussurro, que comecara no momento em que o rei preto ajoelhou, e que mal deixara ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, não pode, continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a coroa de louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio delle saiam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos: todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multidao, sem touca na cabeca, cabellos desgrenhados, boca torcida e cuberto de escuma, olhos esgazeados, saltou para dentro da tea, que fazia um claro em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou immovel, com os bracos estendidos para o tecto, as palmas das maos voltadas para cima, e a cabeca encolhida entre os bombros, como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas e macissas arcarias.

"Mestre Ouguet!—exclamou elrei espantado.

"Mestre Ouguet!—gritou Fr. Lourenco, com todos os signaes de assombro.

"Mestre Ouguet!—repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem dizerem alguma cousa.

"Quem fala aqui no meu nome?—rosnou David Ouguet, com uma voz comprimida e sepulchral.—Malvados! Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse montao de pedras, como se eu fora um cao judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha alma!"—E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar folego:— "Nao vos chegueis ahi!—bradou elle.—Nao vedes essas fendas profundas como o caminho do inferno? Sao escuras: mas atravez dellas la enxergo eu o luar! Vos não, porque vossos olhos estao cegos ... porque o vosso bom nome não se escoa por la!... Cegos? não vos!... mas elle!... Elle e que se ri e folga em sua orgulhosa suberba! Vede como escancara aquella boca hedionda; como revolve, debaixo das palpebras cubertas de vermelhidao, aquelles olhos embaciados!... Maldicto velho, foge diante de mim!... Maldicto, maldicto!... Curvada já no centro ... sentia-a escalicar e ranger... Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!... Anda, que eu bem ouco as tuas gargalhadas!... não ha um raio que te confunda?.. não!"

Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as maos, e ficou outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o architecto que assim interrompera a solemnidade do auto. Um silencio profundo succedera ao ruido, que a apparicao daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saida das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cerebro passou este pensamento: em mais de uma cabeca os cabellos se ericaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? So uma supposicao havia, que não era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso, em consequencia de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse escondido na ultima confissao, que fizera na vespera de Natal. Isto era possivel, e ate natural; que não vivia elle a mais justificada vida. Suppor que endoudecera parecia grande desproposito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecera os gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje ridiculos, mas segundo as ideas daquella epocha hem fundados e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que tinha vindo assistir ao auto, e estava em pe atraz do estrado, e perto de Fr. Lourenco Lamprea. Revolvendo taes pensamentos, no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pode ter-se que, pe ante pe, se não chegasse ao prior, e lh'os communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

"Nao vou fora disso:"—respondeu o prior, que, emquanto o outro frade lhe falara, estivera dando a cabeca em signal de approvação.—"O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se chantou naquelle miseravel corpo, como vos aventaes. Se assim e, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim e, eu vo-lo darei bem castigado."

Dizendo isto, Fr. Lourenco chegou-se a el-rei, e disse-lhe o que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e fez signal com a mao aos fidalgos e cavalleiros para que tambem se assentassem.

Fr. Lourenco, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Fr. Lourenco voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou a tea, abriu-a, e encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e fazendo um aceno de aucloridade, disse:

"Ajoelhae, christaos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmao, tomado do espirito immundo."

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das oracoes.

So mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre as maos.

O prior lancou a estola a roda do pescoco do possesso, e queria atar os tres nos do ritual; mas o paciente deu um estremecao, e tirando as maos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:

"Frade abominavel, tambem tu es conluiado com o cego?"

"Nao ha duvida!—disse por entre os dentes o prior:—mestre Ouguet esta endemoninhado."

Tirando entao da manga um pergaminho, em que estavam escriptas varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabeca do mestre, fazendo sobre elle tres vezes o signal da cruz.

David Ouguet soltou entao uma destas risadas nervosas, que horrorisam, e que tao frequentes sao quando o padecimento moral sobrepuja as forcas da natureza.

"Cao tinhoso—bradou Fr. Lourenco—espirito das trevas, enganador, maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e refece demonio, emfim, castelhano<2>. Em nome do creador e senhor de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou saias deste miseravel corpo."

Mestre Ouguet ficou immovel e calado.

"Nao cedes?!"—proseguiu o prior—"Recorrerei ao septimo, ao mais terrivel exorcismo. Veremos se poderas a teu salvo escarnecer das creaturas feitas a imagem e semelhanca de Deus."

Depois de varias ceremonias e oracoes, Fr. Lourenco chegou-se ao pobre irlandez, e comecou a repetir o conjuro, fazendo-lhe uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que proferia lentamente:

"Hel—Heloym—Heloa—Sabaoth—Helyon—Esereheye—Adonay—Iehova— Ya—Thetagrammaton—Saday—Messias—Hagios—Ischiros—Otheos— Athanatos—Sother—Emanuel—Agla—......

"Jesus!"—bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.

"Diabo!"—gritou mestre Ouguet; e caiu no chao como morto.

E houve um momento de angustia e terror, em que todos os coracoes deixaram de bater, e em que todos os olhos, bracos e pernas ficaram fixos como se fossem de bronze.

Um ruido semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado dentro do mosteiro, e que soara da banda da sacristia, tinha arrancado aquelle grito de mil bocas, e tinha convertido em estatuas essa multidao de povo.

Ha situacoes tao violentas, que se durassem, a morte se lhes seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois destes abalos espantosos; e entao, melhor que nunca, elle sente em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua origem divina. A reaccao segue a accao; e quanto mais timido o individuo se mostrou, mais viva e a consciencia da propria forca, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.

Foi o que succedeu a D. João I, aos cavalleiros do seu sequito, e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia que Fr. Lourenco practicava; o ruido inesperado que rompera o exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam pedir confissao a uma grande manada de philosophos encyclopedistas, e que por isso, não e de admirar fizessem uma impressao vivissima em homens de um seculo, não so crente, mas tambem supersticioso. Todavia o animo indomavel do Mestre d'Aviz brevemente fez cobrar alento a todos os que ahi estavam.

"E, em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e ouvido—disse elle com voz firme, voltando-se para os que o rodeavam;—mas cumpre indagar d'onde procede o ruido que veiu interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e a cruz e nosso amparo: se natural, que havera no mundo capaz de por espanto em cavalleiros portuguezes?"

Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis magos (que ainda estavam em pe sobre o tablado) e uma grande parte do povo tomaram o mesmo caminho.

Elrei ia adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia. Cruzaram o arco gothico, que dava communicação para a sacristia: ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto dava uma luz frouxa e mortica, e a esta luz incerta e baca encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:

"Jesus!"

As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fora, entulhando-lhe quasi um terco da altura. Olhando para o interior daquella immensa quadra não se viam senao enormes fragmentos de cantos lavrados, de lacarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a lua, que passava tranquilla nos ceus, reflectia o seu clarao pallido sobre este montao de ruinas semelhantes aos monumentos irregulares de um cemiterio christao; e por cima daquelle temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam este lastimoso espectaculo. Dos olhos d'elrei e de Fr. Lourenco cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.

A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha desabado em terra!

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sábado, abril 11, 2009 - 22:41

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