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O Alcaide de Santarém - Capítulo I

Guadamelato é uma Ribeira que, descendo das solidões mais agras da Serra Morena, vem, através de um território montanhoso e selvático, desaguar no Guadalquivir, pela margem direita, pouco acima de Córdova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma densa população: foi nas eras do domínio sarraceno em Espanha. Desde o governo do amir Abul-Khatar o distrito de Córdova fora distribuído às tribos árabes do Iemem e da Síria, as mais nobres e mais numerosas entre todas as raças da África e da Ásia que tinham vindo residir na Península por ocasião da conquista ou depois dela. Às famílias que se estabeleceram naquelas encostas meridionais das longas serranias chamadas pelos antigos Montes Marianos conservaram por mais tempo os hábitos erradios dos povos pastores. Assim, no meado do décimo século, posto que esse distrito fosse assaz povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao de um deserto; porque nem se descortinavam por aqueles cabeços e vales vestígios alguns de cultura, nem alvejava uni único edifício no meio das colinas rasgadas irregularmente pelos algares das torrentes ou cobertas de selvas bravias e escuras. Apenas, um ou outro dia, se enxergava na extrema de algum almargem virente a tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte não se encontraria ali, se, porventura, se buscasse.

Havia, contudo, povoações fixas naqueles ermos; havia habitações humanas, porém não de vivos. Os árabes colocavam os cemitérios nos lugares mais saudosos dessas solidões, nos pendores meridionais dos outeiros, onde o sol, ao pôr-se, estirasse de soslaio os seus últimos raios pelas lájeas lisas das campas, por entre os raminhos floridos das sarças açoitadas do vento. Era ali que, depois do vaguear incessante de muitos anos, eles vinham deitar-se mansamente uns ao pé dos outros, para dormirem o longo sono sacudido sobre as suas pálpebras das asas do anjo Asrael.

A raça árabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra família humana, gostava de espalhar na terra aqueles padrões, mais ou menos sumptuosos, do cativeiro e da imobilidade da morte, talvez para avivar mais o sentimento da sua independência ilimitada durante a vida.

No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que subia das margens do Guadamelato para o Nordeste, estava assentado um desses cemitérios pertencentes à tribo Iemenita dos Benu-Homair. Subindo pelo rio viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas, como vasto estendal, e três únicas palmeiras, plantadas na coroa do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemitério Al-tamarah. Transpondo o cabeço para o lado oriental, encontrava-se um desses brincos da natureza, que nem sempre a ciência sabe explicar; era um cubo de granito de desconforme dimensão, que parecia ter sido posto ali pelos esforços de centenares de homens, porque nada o prendia ao solo. Do cimo desta espécie de atalaia natural descortinavam-se para todos os lados vastos horizontes.

Era um dia à tarde: o sol descia rapidamente, e já as sombras principiavam do lado do Leste a empastar a paisagem ao longe em negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular, um árabe dos Benu-Homair, armado da sua comprida lança, volvia olhos atentos, ora para o lado do Norte, ora para o de Oeste: depois, sacudia a cabeça com um sinal negativo, inclinando-se para o lado oposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam ali, também, assentados em diversas posturas e em silêncio, o qual só era interrompido por algumas palavras rápidas, dirigidas ao da lança, a que ele respondia sempre do mesmo modo com o seu menear de cabeça.

"Al-barr, — disse, por fim, um dos sarracenos, cujo trajo e gesto indicavam uma grande superioridade sobre os outros — parece que o caide de Chantaryn <1> esqueceu a sua injúria, como o wali de Zarkosta<2> a sua ambição de independência. Até os partidários de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por meu pai, não podem acreditar que Abdallah realize as promessas que me induziste a fazer-lhes."

"Amir Al-melek<3> — replicou Al-barr — ainda não é tarde: os mensageiros podem ter sido retidos por algum sucesso imprevisto. Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente no coração humano. Dize, Al-athar, não te juraram eles pela santa Kaaba<4> que os enviados com a notícia da sua rebelião e da entrada dos cristãos chegariam hoje a este lugar aprazado, antes de anoitecer?

"Juraram — respondeu Al-athar — mas que fé merecem homens que não duvidam de quebrar as promessas solenes feitas ao califa e, além disso, de abrir o caminho aos infiéis para derramar o sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem as esperanças que pões nos teus ocultos aliados. Oxalá não tivesse de tingir o sangue as ruas de Kórthoba<5>, e não houvera de ser o supedâneo do trono que ambicionas o túmulo de teu irmão!"

Al-athar cobriu a cara com as mãos, como se quisesse esconder a sua amargura. Abdallah parecia comovido por duas paixões opostas. Depois de se conservar algum tempo em silêncio, exclamou:

"Se os mensageiros dos levantados não chegarem até o anoitecer, não falemos mais nisso. Meu irmão Al-hakem acaba de ser reconhecido sucessor do califado: eu próprio o aceitei por futuro senhor poucas horas antes de vir ter convosco. Se o destino assim o quer, faça-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh<6> e que não soubeste acabar, como aquela que debalde tentaste repetir na presença dos embaixadores do Frandjat<7>, e que foi causa de caíres no desagrado de meu pai e de Al-hakem e de conceberes esse ódio que alimentas contra eles, o mais terrível ódio deste mundo, o do amor-próprio ofendido."

Ahmed Al-athar e o outro árabe sorriram ao ouvirem estas palavras de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-barr faiscaram de cólera.

"Pagas mal, Abdallah — disse ele com a voz presa na garganta — os riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais belo e poderoso Império do Islão. Pagas com alusões afrontosas aos que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma coroa. És filho de teu pai!... Não importa. Só te direi que é já tarde para o arrependimento. Pensas, acaso, que uma conspiração sabida de tantos ficará oculta? No ponto a que chegaste, retrocedendo é que hás-de encontrar o abismo!

No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza. Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se advertia o príncipe da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Al-hakem. Um grito, porém, do atalaia o interrompeu. Ligeiro como relâmpago, um vulto saíra do cemitério, galgara o cabeço e se aproximara sem ser sentido: vinha envolto num albornoz escuro, cujo capuz quase lhe encobria as feições, vendo-se-lhe apenas a barba negra e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo e arrancaram as espadas.

Ao ver aquele movimento, o que chegara não fez mais do que estender para eles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz: então as espadas baixaram-se, como se corrente elétrica tivesse adormecido os braços dos quatro sarracenos. Al-barr exclamara: -"Al-muulin<8> o profeta ! Al-muulin o santo!..."

"Al-muulin o pecador — interrompeu o novo personagem — Al-muulin, o pobre fakih<9> penitente e quase cego de chorar as próprias culpas e as culpas dos homens, mas a quem Deus, por isso, ilumina, às vezes, os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição! Sereis satisfeitos! O Senhor pesou na balança dos destinos a ti, Abdallah, e a teu irmão Al-hakem. Ele foi achado mais leve. A ti o trono; a ele o sepulcro. Está escrito. Vai; não pares na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kórthoba. Entra no teu palácio Merwan; é o palácio dos califas da tua dinastia. Não foi sem mistério que teu pai to deu por morada. Sobe ao sótão<10> da torre. Ali acharás cartas do caide de Chantaryn e delas verás que nem ele, nem o wali de Zarkosta nem os Benu-Hafsun faltam ao que te juraram!"

"Santo fakih — replicou Abdallah, crédulo, como todos os muçulmanos daqueles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado — creio o que dizes, porque nada para ti é oculto. O passado, o presente, o futuro domina-los com a tua inteligência sublime. Asseguras-me o triunfo; mas o perdão do crime podes tu assegurá-lo?"

"Verme, que te crês livre! — atalhou com voz solene o fakih. — Verme, cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frágeis instrumentos nas mãos do destino, e que te crês autor de um crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o guerreiro, pede ela, acaso, a Deus perdão do seu pecado? Átomo varrido pela cólera de cima contra outro átomo, que vais aniquilar, pergunta, antes, se nos tesouros do Misericordioso há perdão para o orgulho insensato!"

Fez então uma pausa. A noite descia rápida. Ao lusco-fusco ainda se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que apontava para as bandas de Córdova. Nesta postura, a figura do fakih fascinava. Coando pelos lábios as sílabas, ele repetiu três vezes:

"Para Merwan!"

Abdallah abaixou a cabeça e partiu vagarosamente, sem olhar para trás. Os outros sarracenos seguiram-no. Al-muulin ficou só.

Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Córdova; se vivêsseis, porém, naquela época e o perguntásseis nessa cidade de mais de um milhão de habitantes, ninguém vo-lo saberia dizer. Era um mistério a sua pátria, a sua raça, donde viera. Passava a vida pelos cemitérios ou nas mesquitas. Para ele o ardor da canícula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se não existissem. Raras vezes se via que não fosse lavado em lágrimas. Fugia das mulheres, como de um objeto de horror. O que, porém, o tornava geralmente respeitado ou, antes, temido, era o dom de profecia, o qual ninguém lhe disputava. Mas era um profeta terrível, porque as suas predições recaíam unicamente sobre futuros males. No mesmo dia em que nas fronteiras do império os cristãos faziam alguma correria ou destruíam alguma povoação, ele anunciava publicamente o sucesso nas praças de Córdova. Qualquer membro da família numerosa dos Benu-Umeyyas caía debaixo do punhal de um assassino desconhecido, na mais remota província do império, ainda das do Moghreb ou Mauritânia, na mesma hora, no mesmo instante, às vezes, ele o pranteava, redobrando os seus choros habituais. O terror que inspirava era tal, que, no meio de um tumulto popular, a sua presença bastava para fazer cair tudo em mortal silêncio. A imaginação exaltada do povo tinha feito dele um santo, santo como o islamismo os concebia; isto é, como um homem cujas palavras e cujo aspecto gelavam de terror.

Ao passar por ele, Al-barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em voz quase imperceptível:

"Salvaste-me!"

O fakih deixou-o afastar e, fazendo um gesto de profundo desprezo, murmurou:

"Eu?! Eu, teu cúmplice, miserável?!"

Depois, alevantando ambas as mãos abertas para o ar, começou a agitar os dedos rapidamente e, rindo com um rir sem vontade, exclamou:

"Pobres títeres!"

Quando se fartou de representar com os dedos a idéia de escárnio que lhe sorria lá dentro, dirigiu-se, ao longo do cemitério, também para as bandas de Córdova, mas por diverso atalho.

Notas

1. ↑ Santarém.
2. ↑ Governador do distrito de Saragoça.
3. ↑ Príncipe Real.
4. ↑ O famoso templo de Meca.
5. ↑ Córdova.
6. ↑ Poema de trinta versos, muito usado entre os árabes, e que correspondia de certo modo as nossas odes.
7. ↑ Os reinos cristãos dos Pireneus.
8. ↑ Muulin significa o triste.
9. ↑ Fakih ou faquir, espécie de frade mendicante entre os muçulmanos.
10. ↑ Sotuho — O andar mais alto. Os nossos escritores tomavam esta palavra num sentido evidentemente errado, servindo-se dela para indicar o aposento inferior ou térreo.

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sábado, abril 11, 2009 - 21:02

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