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Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo III : Clubin leva uns objectos e não os traz

O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o e alguns passageiros, e, como de costume, saiu de Saint-Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã. Nesse mesmo dia, quando o navio já estava ao largo, o que permite ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou um saco de viagem que tinha, meteu alguma roupa no compartimento elástico, biscoitos, latas de conserva, algumas de cacau, um cronometro e um óculo no compartimento sólido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içá-lo se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no depósito dos cabos e viram-no subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.
Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou aí 36 horas.
Levou o saco e a corda, mas não voltou com eles.
Uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossível achá-lo hoje, a não ser no campo. É aí que ele existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-Hélier vale Dieppe; Saint-Pierre-Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admirável espírito de iniciativa daquele valente povo insular, transformou-se tudo em quarenta anos no arquipélago da Mancha. Onde havia sombra há luz. Dito isto, continuemos. Naqueles tempos que, pelo afastado, já são históricos, o contrabando ativava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minúcias o que se passava há quase meio século chegam a citar os nomes de muitos desses navios quase todos asturianos. O que é fora de dúvida é que não se passava semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na baía dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse comércio falava-se na Mancha uma espécie de língua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o espanhol como o levantino para o italiano.
Em muitos pontos do litoral inglês e francês o contrabando estava em boa harmonia com o negócio lícito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, às escondidas, e verdade; e dilatava-se subterrâneamente na circulação comercial e por todas as vias de indústria. Negociante em público, contrabandista às escondidas, eis a história de muitas fortunas. Seguindo, dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava, sem contestação, muito aparentado no comércio. Carteava-se com a germa da sociedade.
A caverna onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais era honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreensível para o lado da sociedade.
Daqui resultaram muitas conveniencias necessàriamente mascaradas.
Tais mistérios exigiam sombra impenetrável.
Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolável e rígida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não há contrabando.
Havia o segredo da fraude como há o segredo da confissão.
Esse segredo era imperturbavelmene guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguém inspirava mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e pos-lhe a questão para obrigá-lo a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dois cúmplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia, para cumprir a lei aos olhos de todos, ordenar a tortura, à qual o segundo resistia para cumprir o juramento.
Os dois mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquela época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocaios. Parentesco espanhol e católico que consiste em ter o mesmo patrão no paraíso, coisa não menos digna de consideração que ter o mesmo pai na terra.
Quem estava pouco mais ou menos ao fato do furtivo itinerário do contrabando e queria falar a esses homens, era isso a coisa mais fácil e mais difícil. Bastava não ter preconceitos noturnos, ir a Plainmont e afrontar o misterioso ponto de interrogação que ali se levanta.

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domingo, maio 24, 2009 - 16:37

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