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Há fantasmas por todo o lado

 

- Ssssshhhhhhhh

Tudo o que construo, as fundações, as paredes verticais
Este edifício de comunhão com a realidade
É fruto do suor do meu corpo, do trabalho dos meus braços
Só a mim pertence e ninguém tem o direito de o profanar.

Este nosso fado badalado.
Há um rato no telhado
E um gato no esgoto.
Deste lado, anda tudo enganado.

É aqui, com esta carta no peito, que vejo a merda dos outros.
Rasgo o jornal com a loucura dos lúcidos nas mãos
Depois de mais um domingo investido na diversão dos cegos
No lazer dos homens rasos. Somos os plebeus malditos
Os degraus sujos da sociedade.
Somos o suor que cai na massa do pão confiscado que o diabo diz que amassou
E vivemos no desamparo dos dias a favor da ganância do poder que pode
E não presta contas, não dá justificação, nem pede licença.
(Na ilha, os náufragos do tempo perdem a esperança
Esquecem a ilusão do resgate prometido e gritam alto S.O.S.)

- SILÊNCIO! … que se vai cantar…

Este nosso fado badalado.
Deste lado, anda tudo enganado.

Falam-nos as elites, sobre o talento que não temos
Sobre o poder que não podemos
Dizem-nos os eleitos, na sua ascensão predestinada 
Aos ombros dos amigos dos amigos dos favores
Que devemos, por dever, vergar as costas à sua imposição, à sua vontade
Que a causa, é causa maior nos bolsos de todos. 
Dizem-nos o que é melhor, fazem-nos crer que não temos capacidade
Que não sabemos o que fazer com os sonhos edificados no querer bem a quem nos quer
Esmorecemos e esquecemos o sentido que nos guia no deserto.
Dizem-nos que temos obrigação de aceitar a coacção, solidários e calados  
Caminhar, aceitar o rumo que é traçado e caminhar
Que o nosso destino é contribuir e sorrir de olhos fechados
Sem questionar estes deveres, impostos pela eleição dos tortos 
À luz da democracia dos tontos.

Há um rato no telhado
E um gato no esgoto.

Pensam do alto das cortes e dos cortes impregnados de indiferença
Porque é assim que deve ser, nos desvios orçamentais e tal e tais
E coiso e coisas e mais que não entendemos.
Acorrentados, já esquecemos o sabor da liberdade. 
(Quanto mais é subtraído ao homem do que é seu
Mais fácil é mantê-lo na dependência
Na sobrevivência subsidiada com o que de si é confiscado)

Este nosso fado badalado.
Há um rato no telhado
E um gato no esgoto.
Deste lado, anda tudo enganado.

Cantemos então este fado triste, de boca fechada.
É aqui, nesta terra, com uma carta rasgada do peito
Com a loucura dos lúcidos nas mãos e ladrões no olhar
Que vejo pela janela, parasitas no meu quintal.
O corpo é marioneta do dever e já não me pertence.
Mas que dever é este?
O que poderá, neste mote, estar errado?
Devo-me a mim e a mais ninguém.
Leio, há fantasmas por todo lado, rasgo o jornal.

 

Nuno Marques
 

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terça-feira, novembro 8, 2011 - 02:47

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nunomarques

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Comentários

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Caro Nuno, Um poema

Caro Nuno,

Um poema inquietante e provocador. Parece ser esse, de uma frieza emocionante, o traço da poesia que encontro em vários dos teus escritos.
Um poeta consciente e lucido que acende consciencias através da sua própria.

" Há um rato no telhado
E um gato no esgoto"

Ou o mundo está louco, ou a hipocrisia e a dessimulação tomaram conta disto... e já ninguem dá conta de nada!

É um prazer seguir -te, abraço!

Rui 

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