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Qualquer coisa sem propósito

 

A rua desce estreita até ao fundo do meu cansaço.
Vai-se estreitando para o fim, como qualquer coisa sem propósito
Que estranhamente, de todas as vezes que passei por ela
Nunca o consegui explicar.

Nunca houve outra rua mais verdadeira e minha
Do que aquela que me sentiu os passos todos os dias
E da mesma maneira, nunca houve desses dias, somente um
Em que ela soubesse quem eu era e me conhecesse por andar nela.

É a rua onde cresci e me vi passar por mim
Ao perto e ao longe
E me deixou marcas na pele e na alma
Por cair nela muitas vezes. 

É a rua onde andei como desalmado com camisa bem passada
Como inconsciente com sapatos novos a pisar em tudo
Onde andei dentro de mim, como pessoa inteligente sem futuro
E hoje, é a rua que se inclina para falar de tempo e de espaço
Sem falar do que sou, sem marca nem memória que de mim lembre.

Corrida até ao jardim sem respirar
Ir e voltar a deixar marcas pelo passeio e entrar em casa.
Universos percorridos até à extinção da vontade de ir
Ficar exausto, deitar-me na cama e saber que vivi

Se conhecesse, não tinha ido
Se recordasse, não tinha voltado
Por isso fui e voltei muitas vezes, não para conhecer nem para recordar
[mas para me cansar e viver.

Chegar ao fim da rua sem saber a cor das paredes das casas
Por nunca ter morado nelas
E aceitar isto como desleixo de passar desinteressado por tudo e por todos
Enquanto a rua desce e estreita
Enquanto se inclina até já não conseguir andar por ela.

Chegar com propósito ao fim por viver muito
Como se chega sem pressa ao fundo da rua
Lugar de espaço e de tempo, onde se alarga o meu cansaço.

 

Nuno Marques

Submited by

terça-feira, março 13, 2012 - 20:56

Poesia :

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nunomarques

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Comentários

imagem de Mefistus

Reencontrar as tuas palavras no caminhar de uma vida

Chegar com propósito ao fim por viver muito
Como se chega sem pressa ao fundo da rua
Lugar de espaço e de tempo, onde se alarga o meu cansaço.

Com grande alegria e não menos admiração constato que a tua poesia não se diluiu com o tempo, não se esfumou. Mantens viva aquela centelha de boa poesia sempre presente nos teus escritos.

Muito bom voltar a te ler!

imagem de GIL60

Belíssimo poema amigo Nuno!

Belíssimo poema amigo Nuno!

Gostei desta viagem ao interior de ti...

Parabéns!

Abraço

imagem de SuzeteBrainer

Meu querido amigo, Com

Meu querido amigo,

Com lágrimas a escorrer ao ler esse teu gigante poema,me admiro que talento imerso tu tens...E reencontro a minha emoção,de ler tantas vezes o Pessoa e encontrar a mesma essência das palavras,a mesma fonte brilhante da poesia que tem a força de transmitir sentimentos...

Obrigada por esse momento!!

Bjsmiley

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