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O fantasma da velha escola - 4

Ao acordar, Alfredinho se surpreendeu por ver que dormira. Levantou-se e foi tomar o café da manhã. A mãe estranhou seu rosto:
-Meu filho, está tudo bem?
-Sim, mãe.
-Você não acordava. Pensei que podia estar doente e toquei seu rosto para ver se estava com febre.
-Por que não me acordou?
-Não vai haver aula hoje, meu filho.
-Não?! - esforçou-se para dar à voz um tom de surpresa - Por que não?
-Ligaram para mim, dizendo que um colega seu está desaparecido. Alfredinho, você está pálido!
-Acho que estou doente.
-Quer que eu não vá trabalhar hoje para ficar com você?
-Não mãe, obrigado.
-Está bem, eu vou trabalhar, mas telefone se se sentir mal, certo?
-Certo.
A mãe o beijou e foi tirar o carro da garagem. Alfredinho não sabia o que faria. O telefone tocou. Atendeu, a mão trêmula. Era Marcão, quase chorando.
-O Zé Afonso está desaparecido, Alfredinho! Meu Deus, ele morreu! Ele só pode ter morrido! 
-Calma, Marcão.
-Como posso ter calma quando meu melhor amigo está morto? Os pais dele ligaram para casa perguntando se eu sabia de alguma coisa!
-Mas você disse que não, não é?
-Sim, disse, mas quase contei a verdade! Alfredinho, eu estou morrendo de vergonha e de remorso por não ter sido capaz de fazer nada por meu amigo!
-Marcão, se nós confessarmos, isto mudará o que houve? Não! O dano já está feito, Marcão! Nada do que fizermos agora vai trazer o Zé Afonso de volta!
Soluçando, Marcão desligou o telefone e Alfredinho ligou a televisão e sentou sem realmente assistir a nada. Gostaria de se livrar daquela horrível sensação de culpa que se enraizara nele. Como fora capaz de concordar com algo tão estúpido? Ir lá, com ou sem fantasma, era uma tremenda estupidez. 
-Como fui concordar em sair de casa à noite, escondido de todo mundo, para me aventurar numa escola abandonada? Eu, que sempre me gabei de ser tão inteligente, fiz uma burrice inacreditável! E na hora do aperto, só pensei em mim, fui incapaz de ajudar quem precisava!
Pouco depois, Alfredinho escutou o interfone.
-Quem é?
-É a Lilith, Alfredinho.
-Lilith, o que veio fazer aqui?
-Eu acho que você sabe perfeitamente por que estou aqui. Melhor me deixar entrar.
O tom não era ameaçador nem severo. Mesmo assim, Alfredinho sentiu medo.
-Lilith, você...
-Eu só quero conversar. Depois, você tira suas conclusões. 
Alfredinho foi abrir o portão. Lilith não estava de preto, além de não usar maquiagem e ter prendido os cabelos num rabo-de-cavalo. Era estranho vê-la sem pintura e roupas pretas. Parecia nua.
-Entre, Lilith.
Entraram e sentaram no sofá. Alfredinho ficou muito tempo olhando para as próprias mãos e Lilith começou:
-Recebi o telefonema dizendo que não haveria aula.
-Horrível que o Zé Afonso tenha desaparecido, não acha?
-Alfredinho, você sabe tanto quanto eu que o Zé Afonso morreu. E que vim falar sobre isso.
Um suor frio começou a pingar na testa de Alfredinho, que riu, falando com displicência:
-Lilith, você está maluca?
Lilith olhou para Alfredinho com pena e incredulidade e perguntou:
-Por que você não ficou surpreso quando eu falei que ele morreu?
-O-ora, Lilith, o Zé Afonso está apenas sumido.
-Você sabe que foi ela que o matou. Eu avisei para você não ir lá, mas você foi.
Alfredinho ficou mudo olhando para Lilith, que continuou:
-Eu fui lhe avisar sabendo do risco de você me chamar de maluca e não acreditar em mim. Quem acredita numa gótica com cara de esquizofrênica, não é?
-Lilith, o que você sabe? Fale.
-Foi ela que matou o Zé Afonso.
-Ela? Então...
-Realmente, há um fantasma ali. Ela caiu da escada e quebrou o pescoço. O corpo foi enterrado, mas o espírito dela está ali, querendo vingança.
-Vingança?! 
-Eu não falei que os mortos às vezes têm raiva até de quem não tem culpa pela morte deles? Muitas pessoas que são infelizes têm ódio dos felizes, ainda que os felizes não tenham culpa dos seus problemas. Ela tem ódio porque sente que foi abandonada por todos e porque não fará nada do que sonhava.
-Isso não faz sentido, Lilith!
-Não faz, mas é real!
-Lilith, eu...
-Você, o José Afonso e o Marcão fizeram a burrice de ir lá! Agora, ele está morto e com muita raiva!
-Raiva?!
-Marcão e você o deixaram lá, não foi? Ele está com raiva de você, mas com mais raiva ainda do Marcão!
Por um momento, Alfredinho escondeu o rosto nas mãos, querendo chorar. Foi necessário um grande esforço para se controlar, encarar Lilith e perguntar:
-Como você sabe dessas coisas, Lilith?
-Ele me contou. O Zé Afonso está xingando o Marcão e você de covardes e dizendo que quer ser enterrado!
-Lilith, como ele lhe contou?
-Ele apareceu para mim, no meu quarto, dizendo tudo. Disse que, quando caiu da escada, viu você e o Marcão fugindo e ficou a chamá-los,pedindo que o ajudassem. Mas vocês correram e ele ficou sozinho com a menina. Falou que ela não parava de rir, divertindo-se com a confusão dele. Foi então que ele viu o corpo dele morto e caiu em desespero.
-Não!
-Alfredinho, ele quer ser enterrado. Disse que vocês não podem deixar o corpo dele apodrecendo ali.
-Lilith, se o Marcão e eu confessarmos, o que será de nós?
-Tivessem pensado nisso antes de fazer a burrice que fizeram! Agora, vocês têm que dizer às autoridades onde está o corpo dele.
-Não podemos!
-O Zé Afonso está muito magoado, principalmente com o Marcão!
O medo de Alfredinho era imenso, mas ele se dominou e perguntou:
-O fantasma da menina apareceu para você?
-Várias vezes. Ela tem ódio demais.
-E aquela história da mãe do dono da padaria?
-Ela veio me dizer que começou a passar mal, mas que ele se fechou no quarto dele em vez de socorrê-la.
-Você disse isso a ele no velório?
O rosto de Lilith dava sinais de abatimento.
-Ela me mandou dizê-lo ou não me deixaria em paz. Apareceu para mim falando do filho ingrato que a deixara morrer.
-O Zé Afonso...
-Alfredinho, ele tem me atormentado!
-Você não pode dizer a ele que o Marcão e ele sentimos muito?
-Penso que nada do que for dito vai diminuir a raiva dele. Não agora. Ele sentiu que vocês o abandonaram. Disse-me que podia esperar isso de você, mas não do Marcão.
-Meu Deus, que devo fazer?
Lilith ficou pensativa por uns minutos, depois falou:
-Fale com o Marcão sobre o que você e eu conversamos. Vocês têm que consertar o erro que cometeram. O que vocês não podem é ficar parados sem fazer nada enquanto o corpo do Zé Afonso apodrece ali e a família dele se desespera.
-Por que você não vai à polícia e conta tudo?
O rosto de Lilith , já  muito branco, ficou mais lívido de raiva e os olhos escureceram, adquirindo um tom próximo do negro.
-Que ideia mais idiota! Que quer que eu diga? Que o Zé Afonso me apareceu contando tudo? Será que está com medo de encarar as consequências por ter algo a perder? Vou embora! Isso é nojento de sua parte!
-Mas, Lilith, é que...
-Eu não tenho nada a ver com essa história, mas acabei me envolvendo por causa da burrice de vocês três!
-Se você contar à polícia...
-Vão querer saber como eu sei, idiota! E como vou dizer que sei?
-Você pode dizer que o Zé Afonso disse a você que queria investigar a velha escola.
-Como vão acreditar que ele diria isso a mim e não ao Marcão, o melhor amigo dele? Você quer se safar mesmo, não é? É melhor você procurar o Marcão e vocês resolverem isso!
-Lilith, eu...
-Você está com medo!
-Você não tem medo desses espíritos que lhe aparecem?
-No começo, tinha medo de todos eles. Eu me escondia debaixo da cama com a lanterna acesa e de olhos fechados pedindo para eles irem embora.
-E hoje?
-Hoje, muitos deles ainda me dão motivo para ficar apavorada.
-Os seus pais adotivos sabem?
-Não. Quando eu era bem pequena e comecei a ver e ouvir os espíritos, meus pais me pegaram várias vezes dormindo embaixo da cama e pensaram que fosse medo do escuro. Às vezes, eu acordava no meio da noite e via um espírito de pé, ao lado da cama. Eu gritava e meus pais vinham me perguntar o que era e, se eu dizia o que tinha visto, falavam qeu tinha sido pesadelo. Quando eu soube o que era, decidi que nunca dividiria com ninguém.
-Puxa, você sofreu horrores, não?
-Acha que deixei de sofrer? Sabe o que é não ter escolha, Alfredinho?
Alfredinho baixou a cabeça e Lilith pediu:
-Fale com Marcão para irem à polícia. Agora, eu vou embora. 
Alfredinho a acompanhou até o portão e, depois que Lilith foi embora, sentou no sofá da sala, pensando no que faria. Teria coragem de ir à polícia contar tudo?
-Vou ligar para o Marcão.
Discou os números e uma voz enjoada atendeu:
-Alô?
-Alô, eu queria falar com o Marcão.
-Pai ou filho? O pai saiu para trabalhar.
-Não senhora, eu quero falar com o filho.
-Certo, espere um minuto.
Logo depois, ouviu a voz de Marcão:
-Alô?
-Marcão, sou eu, Alfredinho.
-Meu Deus, que aconteceu?
-Temos que conversar sobre o que houve.
-O que foi que aconteceu, Alfredinho?
-Marcão, a Lilith esteve aqui há pouco tempo.
-Como é? E o que a Lilith iria fazer aí na sua casa?
-Ela sabe o que aconteceu, Marcão.
-Como ela saberia?
-Não posso falar por telefone. Onde podemos nos encontrar?
-Na pracinha perto da escola onde estudamos. Pode ser?
-Pode. Vou já já.

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sexta-feira, agosto 7, 2015 - 19:17

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