CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

O Idioma

À Júlia – uma protagonista.
Tenho sede d’amar a humanidade…
Eu ando embriagada… entontecida…
O roxo de meus lábios é saudade
Duns beijos que me deram n’outra vida!
Florbela Espanca
Algo que ontem ouvira na rua fê-la parar, arrebatada. Os sons que nasciam da loja de discos do subúrbio e incorporavam-se à brisa junto ao aroma dos pratos incomuns vendidos nas calçadas fizeram palpitar o adormecido coração. Apesar de nunca ter sido afeiçoada àquele batuque familiar, o tempo apurou-lhe a audição aos ritmos da terra natal. O solo tropical que amparou seus últimos tropeços de menina e primeiros passos de mulher preencheu seus devaneios ao longo do dia.
Mas veio outro entardecer, madrugada e aurora. E a manhã fez-se mais gélida do que de costume, como que para lembrá-la que adotara outra terra como sua, abraçada por outro hemisfério, beijada por outro oceano.  Banhou-se maquinalmente, vestiu-se sem notar com repentina sobriedade e não deu atenção à airosa figura refletida enquanto pintava o rosto. Ainda que nada houvesse de problemático em sua vida e especialmente no cotidiano bem estruturado – uma mulher extraordinária vivendo, indo ao encalço de seus sonhos singulares –, algo abrasava-lhe o peito. Era o ritmo da nação deixada para trás. Não, nada abandonara. Há muito aprendera a lidar com a saudade que a consumia. Que era então este novo “algo” que tanto a molestava?
Rumou ao café do centro, componente agora habitual de sua rotina; alguns anos atrás, quando chegara, seduzida por realizar o desejo antigo que era viver naquela cidade, maravilhava-se ao pensar que poderia ali iniciar seus dias, rodeada por livros, estofados bordô e gente ocupada.  Entretanto, tornava-se pouco a pouco mero estabelecimento que fornecia bebida matinal em troca de dinheiro. Comércio, nunca fantasia.  Hoje fora diferente. Breve taquicardia quando ouvira uma conversação no velho idioma ao qual renunciara. Procurou sôfrega pelos falantes estrangeiros, varrendo com o olhar todas as mesas como se dependesse daquela busca urgente a sua vida; sem sucesso. Rendida à comoção que a lembrança da pátria vinha causando, renunciou ao pedido que acabara de fazer e saiu aflita rua afora. Lembrou-se do parque próximo que também já povoara sua imaginação e sentou-se num banco oculto pelas inúmeras árvores com a avidez de um náufrago que agarra um fragmento de madeira em alto mar.
Por que, meu Deus, aquele sofrimento, dor quase física que parecia rasgar-lhe as entranhas? Enquanto formulava suas questões, tomada de indignação, vinha a seu encontro um tropel de crianças em algazarra. E ao ouvir os primeiros gritos alvoroçados, permitiu-se romper em pranto. Soluçava pelos beijos maternos, pelas bonecas que adornavam o quarto infantil, pelos dias de simplicidade que findaram sem aviso. Soluçava por gradualmente permitir perder quem realmente era. Ela, que sempre encarara o movimento das calçadas, a multidão aglomerada como uma reunião de almas distintas, de histórias variadas e únicas, integrava-se agora à massa cinzenta, caminhando passos tétricos, sem dar-se conta dos que passavam a seu lado – e sem perceber a si mesma. Era apenas a superfície da ferida que insistia em ignorar. Ao vasculhar a mente em busca da razão de sua agonia fremente, teve em mãos mais do que esperava. Eram as singelezas que se acumulavam para não causar emoção, abalos ou prazer em uma caixa lacrada no fundo de seu pensamento. Não compreendia quando e como ocorrera sua renúncia se a emoção, os abalos e o prazer eram a própria vida.
Os pequenos cuja balbúrdia desencadeara pranto passavam agora diante de seus olhos embaçados. Uma das crianças, mais impressionada pelo convulsivo subir e descer de seus ombros do que pela torrente de lágrimas que pingava na roupa, aproximou-se com curiosidade. Ela, sobressaltada ao toque tímido em seu braço, com dificuldade segurou o choro, conteve-se e esboçou um sorriso que não mostrava os dentes. A criança, sentindo-se saudada e tomando aquilo como encorajamento, abraçou-a. O susto provocado pela ação espontânea, sem precedentes ou explicação que não fosse o altruísmo infantil não a permitiu desvencilhar-se dos bracinhos em torno de seu pescoço. Antes que pudesse reagir, juntara-se novamente ao grupo a pequenina figura, brincando e correndo. Isto era parte do que vinha perdendo. O contato com os outros, o afeto, o toque. 
Antecipando-se à dor que viver plenamente – viver! – poderia causar-lhe, construíra uma mulher que a representasse e colocara-se numa redoma dentro daquele cadáver. 
A canção que ouvira tocar no rádio e esquecera-se de procurar. O conto que nunca enviou para o jornal. A viagem de trem que desistiu de planejar. O doce pelo qual salivou e deixou mercado. As risadas que trancara na garganta. Os carimbos no passaporte que não acumulou. A briga que não comprou. Os vizinhos que mal conhecia. A exposição que não visitou. O trabalho voluntário que não realizou. A pintura que não pendurou no corredor. O perfume que não borrifou naquela noite. A frase em russo que não aprendera. O homem com quem não flertara. O romance a ser lido entregue à poeira da estante. As aulas de culinária que não frequentou. Os idiomas que nunca falados. A fotografia que não colocou no porta-retratos. O telefonema para a família que protelou para as quatro da tarde. A palavra que não buscou no dicionário. O ramalhete de violetas que não comprou para a jarra da cômoda. O batuque da loja de discos que quis ontem esquecer.
Com a súbita e violenta lucidez de quem volta a si, vasculhou a bolsa e com sorte encontrou uma caneta. Ignorando o frio cortante, puxou com pressa as mangas do casaco e após fitar por alguns segundos os braços desnudos, pôs-se a escrever sobre a pele.
Voglio amare. Danser sous la pluie. Eu vou cair e me levantar. Gáire till tú ag gol. Enviar besos a las estrellas. Menulis hidup saya. This is what heroines do. Sum diversis horizon. Ich bin ein Gedicht ohne korrekte Interpretation.
Sob a copa das árvores, não percebeu a mansa chuva que começara a cair. O banco que a livrara dos serenos pingos d’água sufocou-a. Porque começara – e era necessário dar continuidade à limpeza de si. As palavras agora borradas nos braços invadiam-lhe o corpo. Era aquela a sua morada.
Saíra do parque e sem destino alternava corrida e caminhada veloz. As lufadas de vento no rosto eram o primeiro prazer após sua vivência inconsciente. Quando pensava ser a única sob aquilo que tornava-se agora temporal, eis uma silhueta ao fim da rua. Oportunidade de contato rápido com o mundo que redescobria. Um aceno. Uma saudação. Um comentário espirituoso. A fala de um filme antigo. O homem, antecipando-se, gracejou ao tirar um chapéu imaginário feito com as folhas de jornal que cobriam a cabeleira esparsa.  Ela poderia apaixonar-se e em breve amar. Aqueles dois estranhos cruzando-se debaixo do manto da chuva poderiam ser um para o outro mais do que supunham. Mas decidiram que saudar-se era suficiente.
Lembrando os braços rabiscados, quis utilizar-se de todas as línguas do mundo para responder ao gesto bem humorado.  Num ímpeto de expressar-se, ansiosa como quem quer agradar por descobrir estar – sim, era tempo de entregar-se àquele luxo – feliz, golfou um ofegante “bom dia!”. Não fora “good morning!”. Precisava daquelas duas palavras há tanto abandonadas que impediam a regular circulação do sangue no corpo - sangue que coloriu as maçãs do rosto logo após a fala, encontrando caminho desimpedido. Mas verdadeiramente sem obstáculos estava o coração, leve pluma vermelha. O rubor que subia às bochechas era consequência tanto do breve desabafo contido em sua saudação como da atração mútua que tardiamente noticiara. A resposta imprevisível, palavras às quais o homem não conseguia conferir sentido, fê-lo volver e estancar o passo a tempo de ouvir da estranha que ainda encarava-o a ofegante risada feminina dissolvida ao ruído da chuva. Sorriram. Seguiram. Tantos são os Dantes e Beatrices que não trocam mais que cerimônias.
Nem todos os vocábulos de todas as línguas seriam suficientes para descrever aquela alma que reacordava sozinha, tendo a si mesma como testemunha, oculta, mas que pertencia ao mundo inteiro. Ela, a canção de sua terra em outra terra não menos sua. Ela, a comunicação universal. Ela, o idioma secreto que é falado sem perceber.

Submited by

quarta-feira, julho 24, 2013 - 03:17

Prosas :

No votes yet

Mariana Cardoso Carvalho

imagem de Mariana Cardoso Carvalho
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 6 anos 8 semanas
Membro desde: 07/19/2013
Conteúdos:
Pontos: 115

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of Mariana Cardoso Carvalho

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Poesia/Amor Amo-te, Antônio 2 483 07/27/2013 - 06:18 Português
Poesia/Soneto Transcendência 0 438 07/25/2013 - 04:17 Português
Poesia/Fantasia Vênus 0 367 07/25/2013 - 04:15 Português
Prosas/Tristeza Veraneio em vírgulas 0 623 07/24/2013 - 03:18 Português
Prosas/Saudade O Idioma 0 829 07/24/2013 - 03:17 Português
Prosas/Pensamentos Guardanapo 0 599 07/24/2013 - 03:14 Português
Prosas/Pensamentos A Poetisa Eleita 0 436 07/24/2013 - 03:13 Português
Poesia/Geral Minas, vagarosa 0 484 07/24/2013 - 02:21 Português
Videos/Poesia Sinto Saudades 0 1.285 07/24/2013 - 02:13 Português
Poesia/Dedicado Ao Repouso 0 542 07/24/2013 - 02:12 Português
Poesia/Desilusão Marianne Dashwood 0 416 07/24/2013 - 02:11 Português
Críticas/Livros Romanceiro da Inconfidência - Cecília Meireles 0 649 07/24/2013 - 02:09 Português
Críticas/Livros Trocando Olhares - Florbela Espanca 0 753 07/24/2013 - 02:08 Português
Críticas/Livros Karen Jow Fowler 0 598 07/24/2013 - 02:07 Português
Críticas/Livros Reparação - Ian McEwan 0 707 07/24/2013 - 02:06 Português
Críticas/Livros Razão e Sensibilidade - Jane Austen 0 558 07/24/2013 - 02:05 Português
Críticas/Livros Persuasão - Jane Austen 0 577 07/24/2013 - 02:05 Português
Críticas/Livros Pequena Abelha - Chris Leave 0 793 07/24/2013 - 02:04 Português
Críticas/Livros Os Sonhos de Mariana - Paulo R. dos Santos 0 717 07/24/2013 - 01:01 Português
Críticas/Livros Orgulho e Preconceito - Jane Austen 0 641 07/24/2013 - 01:01 Português
Críticas/Livros O Senhor das Moscas - William Golding 0 750 07/24/2013 - 00:59 Português
Críticas/Livros Mulherzinhas - Louisa May Alcott 0 887 07/24/2013 - 00:57 Português
Críticas/Livros Mansfield Park - Jane Austen 0 549 07/24/2013 - 00:55 Português
Críticas/Livros Jane Eyre - Charlotte Brontë 0 474 07/24/2013 - 00:53 Português
Críticas/Livros Felicidade Clandestina - Clarice Lispector 0 573 07/24/2013 - 00:52 Português