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Por Ti Seguirei... (4º episódio)


Embrulhada em tanta melancolia, acabou por adormecer, cerrando os olhos hipnotizados pelo bailado crispado das labaredas da fogueira que lhe tornava a noite mais tépida e confortável.
Zímio agasalhou-a com o manto de lã e assumiu a sua habitual condição de vigília. Os ditames de uma juventude aguerrida e belicosa trouxeram-lhe a escravatura e a impossibilidade de formar família. Sentia por Rubínia - a quem vira crescer - aquilo que supunha ser o equivalente ao amor de pai. Com toda a naturalidade, daria a vida por ela, se tal lhe fosse exigido.
A manhã seguinte arrastava consigo um sol formidável e sorridente. Os temores de Rubínia enfraqueceram com o descanso e desapareceram completamente incineradas por tão excelsa luz matinal.
Todos os dias novos elementos engrossavam o contingente de Alépio. Espalhada a notícia, algumas centenas de astures, uns mais jovens e imaturos outros mais velhos e com experiências diversas de combate, somaram-se à força. E quanto mais numerosa e mesclada de povos diversos, mais disciplina exigia ao seu comandante.
Estranho era o silêncio e a ausência dos Vacceus. Já se encontravam bem perto da fronteira do seu território e nenhum sinal daquelas gentes. Os batedores avançados relatavam ver apenas a população civil. Parecia que a terra havia engolido os homens-de-armas vacceus. Alépio começou a suspeitar de alguma má recepção dos chefes daqueles lugares e deu ordens para que se redobrasse a atenção, ao mesmo tempo que reforçou a vigilância da caravana em movimento e dos acampamentos.
Já com dois dias decorridos e bem entranhados nos domínios vacceus, surgiu uma coluna de guerreiros – cerca de 20 – que confrontou Alépio e os seus. Vinham a cavalo, bem ornamentados e profusos de armas. Ostentavam longos cabelos loiros, algo entrançados, com uma fita a apertá-los ao nível da testa. Tinham uma tez bem marcada pelo calor estival, uns olhos entranhados e pouco expressivos, de estatura mediana, mas robustos.
Um deles adiantou-se: - “Sou Gurri e venho em nome de Erizeu, comandante eleito de todas as tribos vacceias. Estou aqui para vos dar salvo-conduto de passagem entre as nossas fronteiras. Iremos acompanhar-vos até ao marco que divide a nossa da terra dos Arévacos”. Enquanto o dizia, estendeu a mão para saudar o interlocutor.
Alépio respondeu ao cumprimento e retorquiu: -“Sou Alépio, responsável por esta hoste que entregarei ao Grande General. Estamos empenhados em entabular negociações com os vossos líderes e exortá-los a combater os romanos…”. Foi interrompido, pela calma mas forte presença de Gurri: - “Sabemos dos conflitos que assolam a Ibéria, porém, de momento, entendemos ficar neutros. Os futuros acontecimentos e os sagrados druidas ditarão talvez outras decisões. As minhas instruções são bem claras. Prossigamos a jornada; amanhã já vereis os planaltos dos Arévacos. Pelo que sei, também eles aguardam a vossa passagem”.
Retomaram a marcha.
A já estendida expedição percorreu uma boa extensão de chão nesse dia. Gurri e os seus, à frente, imprimiam um ritmo vigoroso, que poucos momentos deixava para conversas ou repouso.
Alépio, sem se dar por satisfeito com os argumentos dos vacceus, decidiu – e porque a cortesia assim também o ditava – providenciar para essa noite um jantar especial, para o qual convidou Gurri e os seus homens mais próximos. Decidiu igualmente que aos seus oficiais presentes se juntariam as respectivas mulheres – mulheres aguerridas que acompanhavam os companheiros na arte da guerra –, bem como Rubínia e, claro está, Zímio. Os autóctones aceitaram e agradeceram.
Escolhido o local do acampamento para essa noite, logo Alépio deu ordens para que se improvisassem mesas e bancos rudimentares para o banquete frugal que se seguiria. Acendeu-se fogueira pujante. Sacrificaram-se 3 cordeiros e um javali incauto, respeitando as libações e as oferendas aos deuses. Rapidamente se montou o estadulho de salgueiro em dois tripés sobre o fogo, para a carne assar lentamente, perfumada pelo tempero. Das carroças dos mantimentos resgataram-se alguns odres de cerveja e o indispensável pão de bolota. Estando a logística do repasto bem encaminhada, Alépio mandou chamar os convivas.
Todos se acomodaram segundo as hierarquias. Alépio fez questão de ter a seu lado Gurri, intercalando depois os seus homens com os daquele. Rubínia e Zimio encontravam-se em semelhante proximidade do comandante, mas da parte oposta.
O jantar começou quente no repasto mas morno no convívio. Os vacceus comiam mudos, mostrando inclusive alguns sinais de desconfiança e agitação miudinha.
Alépio iniciou então os seus planos: tinha quase a certeza que, mesmo que os vacceus tivessem uma sincera vontade de manter a neutralidade, eles já sabiam ou estavam envolvidos de alguma forma nas circunstâncias que marcavam a Ibéria, agora ou talvez no futuro.
- “Gurri como é que o vosso povo suporta a ameaça romana e decide ficar quieto, não apoiando as forças que pretendem manter a Ibéria livre?” Puxou do copo e desviou o olhar para diluir a tensão e dar à questão um tom espontâneo e despreocupado.
O vacceu fitou Alépio, encheu os pulmões e, por breves momentos em que parecia que ia explodir, suspendeu a respiração, expirando depois para tomar uma verbalização calma e equilibrada: - “Da mesma forma que todos vós suportastes a invasão da mãe pátria pelos de Cartago e a subsequente exploração dos nossos recursos, sem que alguém os cá chamasse”. E pegou também no copo. Gurri, apesar de ser sobretudo um formidável “engenho bélico”, demonstrava que tinha arte na política e na diplomacia e que não fora por acaso o escolhido para estar ali em representação dos vacceus.
Alépio retorquiu: “Tens a tua razão Gurri, admito-o. Porém é abissal a diferença entre púnicos e romanos. Os púnicos vieram para a Ibéria porque foram perseguidos e desalojados dos antigos domínios precisamente pelos romanos. De cá querem apenas relações de negócio. O comércio está-lhes no sangue. Não querem dominar pelas armas a nossa terra. Pelo contrário, os romanos são mordazes e insidiosos. Querem tomar os territórios da civilização e tudo e todos conquistar. Se Aníbal não os travar, não demorará muito que todos nós estejamos sob as presas da águia romana. Os vacceus tal como os outros povos da Ibéria serão meros prisioneiros na sua própria terra. Acredita no que te digo”.
Gurri deixou-se inclinar para atrás e ajeitou-se no soberbo roble que lhe servia de encosto. Cerrou os olhos por poucos segundos e depois fixou o olhar no grupo de músicos que, em frente, tangiam as melodias de saudade e de exaltação de antigas façanhas da nação galaica. Aliás, a grande maioria dos presentes prestava mais atenção aos afamados gaiteiros galaicos do que à conversa entre os dois caudilhos.
Após algumas modas mais líricas, a música tornou-se mais marcial e dois guerreiros possantes iniciaram um espectáculo de luta livre, um costume de longa memória nas reuniões festivas celtas.

Continuação de:
http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/33345.html

(Continua…)

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segunda-feira, janeiro 19, 2009 - 10:52

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