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sr. Jones.

Eu sei, sr. Jones, na vida tem aquela capoeira seca...basta um palito de fósforo e só restam as cinzas a dissiparem-se no vento, mas, creia sr. Jones -- você... formado em Glasgow, conhecedor de vários países e civilizações, poliglota e o escambau, teórico e filósofo -- você nunca soube o que é amassar barro com os pés, você nunca soube sobre as mãos calejadas dum batedor de tijolo numa olaria sob um sol de 40 graus, muito menos sobre o ciclo da piracema nos rios; você nunca cultivou uma hortaliça nem uma flor, enfim, de que lhe adianta cultuar ícones literários na praticidade e ciclo vitais?... de que lhe adianta me dizer que já cafungou e fumou um monte de baseado com um bando de intelectuais, se a maior loucura é viajar com os pés no chão e sentir o cheiro da fauna e da flora e indignar-se com os suor dos que encaram a vida de frente? Veja, sr. Jones, eu mal falo o português e, no entanto, convido-o a um banho de cachoeira para espantar os espíritos imundos; convido-o a uma viagem sem a metalinguagem de quem caminha de muletas ao entendimento do que é a vida. Ora, sr. Jones, você me diz que New York é o epicentro do mundo e que Londres e Paris são o berço das novas atitudes e conceitos sobre a insatisfação da mesmice, ou do pensamento dormente acerca dos novos raiares do modelo imposto pela civilização tecnológica. Ora, sr. Jones, vivo na América do Sul, numa city próxima a Sampa e, em Sampa, o mundo, as culturas passam por aqui, por isso não me trate como sub-raça e menos inteligente porque tenho menos horas de voo e nunca viajei de avião. Lembre-se: sou um cidadão comum, iletrado, que apenas prefere fazer parte da roda viva como a formiguinha capaz de carregar uma folha com dez vezes o seu peso. Se o teu fardo, sr. Jones, é o de criar metáforas e teses a respeito dos porquês, o meu é o de processar em meu intelecto quão invasor sou na maravilhosa natureza e conteúdo material de um grão de areia, ou de um pigmento pulsante na tela reveladora de mundos abstratos que crio e recrio com os pés no chão. Nada se perde, tudo se transforma. Aí, sr. Jones, desculpe a minha ignorância, mas o que é a vida pro senhor?

***Rehgge, em pensares filosóficos

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sexta-feira, dezembro 27, 2019 - 01:19

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