Testo o testamento onde não morri

Dou cor à lâmina que me há-de decapitar
enquanto na torre do castelo
a rainha beija o camaleão.

Dou brilho ao chão que piso com uma pena de canário
Degolado pelo rei certeiro,
apoiado por uma multidão.

Testo o testamento onde não morri.

Inseguro vejo bailar a aia com um freio na face
e um destino feito à medida de sonhos
que nunca quis que lhe pertencessem.

Escondo-me no manto à espera do carrasco
que um dia me segredou a teia da sua vida
com recortados pormenores de malvadez.

Testo o testamento onde não morri.

Sem dó nem piedade todos assistem ao meu fim
quando a lâmina me atravessa a laringe
e a cabeça rola pela madeira enevelhecida.

Deixei os meus bens ao amor da minha vida
mas ela abandonou-me nas palavras ditas
e em promessas infinitas que não cumpriu.

Testo o testamento onde não morri.

Levou-me o coração.
Esqueceu-se dele a meio do caminho.
Fiquei sozinho no leito da morte.

Abro olhos ofegante.
Coração morto que bate.

O rolo preso com a fita continua na gaveta...
(És estrela que brilha em mim)

Foi só pesadelo. Gostas de mim.
Saudade imensa.Não estás.

Mas eu também não morri.

rainbowsky

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Lunes, Abril 12, 2010 - 19:54

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rainbowsky

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Comentarios

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Re: Testo o testamento onde não morri

A magia e a fantasia da tua bela poesia.

Dou cor à lâmina que me há-de decapitar
enquanto na torre do castelo
a rainha beija o camaleão.

Gostei imenso Rain

Abraço
Nuno

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Re: Testo o testamento onde não morri

Felizmente, não passou de um pesadelo.:-)

Tu consegues fazer brilhar a dor e a revolta em poesia!

Beijinho

Carla

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