Por Ti Seguirei... (7º episódio)


Deitada, aproveitou para recuperar o fôlego e o ânimo. Mesmo abalada pelo embate encaixado, de pronto respondeu: - “Nem penses, vacceu, que me vencerás com jogadas assim, tão fúteis e miseráveis. Terás de te aplicar bem mais!”
Urtize ruboresceu e sentiu os músculos a dilatarem-se. Por sua vontade, cortava a língua viperina àquela insolente. Não fossem as ordens do chefe e ela aprenderia como um vacceu trata qualquer rebelde que não se resigna à sua insignificância. Contudo, como previra Gurri, a maturidade sobrepôs-se à fúria e Urtize, enquanto apertava firme o punho da sua arma, avisou a adversária – “Assim o quiseste. Vou acabar com isto sem demora. Vejamos que tom vermelho te corre nas veias”. Apontou o vértice da lâmina ao ombro descoberto da mulher e fez o gesto para o descer e embeber levemente na pele macia. Imediatamente, Rubínea rodou o corpo no sentido do braço retido e, com a energia do movimento, muniu a perna esquerda para desferir um violento pontapé por trás do joelho que equilibrava a verticalidade do algoz. Urtize avançou um pouco, cambaleante, procurando manter-se de pé. Ainda a vacilar sem prumo, foi obrigado a soltar o braço de Rubínea, que não perdeu o ensejo para lhe aplicar um segundo pontapé, no baixo dorso, suficiente para o atirar por terra. Na queda desamparada, o vacceu deixou escapar a espada da mão.
Rubínea mostrara que a tenacidade compensa. Leve e elástica como um gato, saíra de uma situação difícil e tinha agora o combate nas suas mãos, com o oponente tombado pelo chão e desarmado. Porém, decidiu que não colheria os louros de forma tão fácil. Recolheu a espada de Urtize, aproximou-se e incitou-o: - “És um grande guerreiro mas subestimaste-me. Levanta-te, mereces uma segunda oportunidade porque tiveste comiseração por mim. Sejamos justos um com o outro”. E devolveu-lhe a espada. O vacceu fez uma vénia de admiração. Dissipou-se o rancor. Iria lutar mas já estava conquistado. Colocou-se em posição de combate.
A assistência estava rendida perante tamanhas façanhas. Zímio exalava um sorriso que nunca nele se tinha visto, Alépio mexia-se irrequieto e Gurri mantinha-se sereno mas de olho franzido.
-“Prepara-te velha raposa, aproxima-se o momento em que conhecerás a derrota perante uma mulher. Qualquer oráculo favorecido pela bondade dos deuses, ter-te-ia revelado que este dia chegaria! Aplica-te!” A espada cortou o ar em busca da outra. Urtize recebeu-a solenemente, retribuindo da mesma forma, cada vez mais empenhado e a puxar pelo melhor das suas capacidades. De permeio aos ataques produzidos por Rubínea, tentava recorrer às suas habilidades favoritas. Venceria com arte. Porém, todos os seus golpes eram defendidos ou contrariados. Na verdade, se os anos não lhe tinham tirado a genica, tinham todavia reduzido os reflexos e a facilidade de movimentos, sobretudo nos membros inferiores. Rubínea também já se tinha apercebido disso e, por outro lado, sabia que pela força não o venceria. Urtize só cairia se abalado nos seus pontos mais fracos: alguma lentidão e a pronunciada fragilidade de estabilidade nas mudanças de posicionamento do corpo, durante os movimentos da peleja.
Na arena improvisada, o solo fustigado pela firmeza dos pés em movimento e da aplicação de forças e tensões, parecia um mar de sedimentos com grossas marés de rebos arrancados e as ervas – como algas – afogadas nos nevoeiros de poeiras, levantadas pelo reboliço da contenda. Mais acima, as lâminas brilhavam encarniçadas, sucedendo-se os momentos em que se antevia um término do duelo, para logo se recuperar o balanço da refrega.
Rubínea, ciente de algum cansaço que já se abatera sobre ambos, mas sobretudo sobre Urtize, começou a engendrar um esquema para atrair o adversário à teia da aranha. Se rapidamente o pensou, imediatamente colocou a estratégia em prática.
Começou por investir contra Urtize com golpes consecutivos, rijos e céleres, obrigando-o a recuar até ao limite da área de luta. Depois, revelando-se fisicamente desgastada com o assalto, deixou-se dominar pelos movimentos do vacceu, dando-lhe mostras de grande dificuldade em suster os impactos da arma. Este exercício estimulou Urtize, que uma vez mais ficou iludido com a ideia de uma vitória próxima e fácil. Começou a facilitar na defesa e a emaranhar-se na rede estendida por Rubínea. A dada altura, quando aquela já parecia abraçada à desistência, acanhada e com a espada quase a saltar-lhe das mãos, Urtize decidiu que o melhor – e para não cair no ridículo anterior – era atordoar a mulher com uma pancada forte na cabeça. Se a mulher perdesse por momentos os sentidos, estaria sentenciada. Preparou o golpe e quando lhe pareceu surgir a oportunidade não se fez rogado. Rubínea, no seu papel de debilidade afrouxou a defesa, deixando o braço da espada descaído. A cabeça estava exposta e Urtize, bruscamente, precipitou-se para a frente para lhe atingir o capacete com uma espadeirada, rodando o pulso para lhe acertar com um dos lados não cortantes da lâmina. Como que renascida, o diabo da mulher baixou-se e passou felina rente ao seu flanco e por debaixo dos braços que já desciam fundidos à espada tensa e pesada. Sentiu um toque frio na perna, ficou imóvel e olhou para trás. Rubínea estava nas suas costas, mas quieta e expectante. Porque não aproveitava para acabar com ele?! Rodou e interpelou-a: - “Não me digas que me queres dar uma terceira oportunidade? Vá lá, isso já é demasiado vexame. Poupa-me e não brinques comigo.” Estranhou que a oponente continuasse parada, apenas a contemplá-lo. Procurou algo em si, algum motivo, mas nada percebeu. Foi então que colocou a mão na lateral da perna e sentiu uma lentura quente na loriga. Olhou com mais cuidado: sangrava! No movimento evasivo, Rubínea deixou a espada roçar ao de leve na coxa de Urtize, abrindo-lhe a costura da derrota - que todavia sararia facilmente. Rubínea acabava de fazer o impensável: vencera o duelo!!!!
O sangue corria agora pela perna de Urtize à vista de todos. Ouviu-se uma enorme exclamação generalizada, seguida de um silêncio de incredulidade para depois explodirem os aplausos e os alaridos de glória e vivas à vencedora e vencido e ao magnífico combate que concederam. Brindes e mais brindes, gritos e risos… correrias! A bolha de pressão estourara e estavam todos aliviados e alegres.
Quando pousaram Rubínea - levada em cortejo triunfante entre os presentes -, esta dirigiu-se primeiro a Urtize, prostrado e algo envergonhado, sentado num tronco de um lenho tombado, colocou-lhe a mão no ombro e confortou-o: -“Urtize és sem dúvida um grande guerreiro. E nobre, tão nobre como só a honra dos melhores o permite. A partir de agora tenho-te por amigo, se quiseres aceitar a minha amizade. Perdoa-me a ferida que te provoquei, mas só assim aceitarias a derrota”.
Dirigiu-se depois a Gurri, que se encontrava próximo: -“Se todos os teus guerreiros forem como Urtize, tens um exército temível. E se todos os Vacceus forem como ele, então são um povo justo e virtuoso, digno da amizade de outros povos; da amizade do meu povo”.
Ainda a tentar perceber o que se tinha passado e o que isso significava, Gurri articulou algumas palavras: - “Sim, tens razão em tudo o que proferiste. E, a partir de agora, a minha sorte, boa ou má, estará também nas tuas mãos. Cumprirei o pacto que contigo formulei. Diz o que pretendes saber de mim e quais os teus desígnios para os dias que se seguem”. Pegou no copo em forma de vaso cerâmico por onde bebia e acompanhou o brinde à campeã.
- “Tenho os meus planos. No entanto, dependem muito do que tiveres para me dizer sobre os acontecimentos passados e os reflexos que provocaram nas regiões anexas aos montes Pirenaicos e à presença dos romanos, bem como o destino dado aos prisioneiros. Seja o que for, continuarei na minha demanda”.
Depois de um sorriso jovial, Rubínea continuou: -“Mas isso fica para amanhã! Hoje e agora que já nos entendemos, divertimo-nos e terminamos este belo repasto oferecido pelo nosso bom Alépio! Chega-te Urtize, brinda comigo, amigo!”
A alegria afagou todos os rostos e o banquete transformou-se numa verdadeira festa.

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/36201.html)

(continua…)

Andarilhus “(º0º)”
XXVII : I : MMIX

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Miércoles, Enero 28, 2009 - 11:07

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