Sonho dramático de um jovem de vinte anos que quer ser alguém

Em minha memória fazia lembrar um quadro de Renoir, os últimos metros quadrados de quase total natureza, numa cidade quase totalmente industrializada e construída. É uma memória que aparece em minha mente muitas vezes, a minha infância, a minha adolescência, todos os lugares do meu ser, que eu dei por perdidos. Não há muito tempo, se estivermos a falar da definição de tempo criada pelo homem, mas pelo tempo que o meu subconsciente definiu: uma eternidade. Esse local, essa natureza pedida, era o meu abrigo quando a erosão dos meus lugares era mais agressiva, daí agora sonhar constantemente com esse local. Obsessão, lugar para onde eu quero fugir.
Quando me deito, custa a adormecer. Quando adormeço, durmo mas não descanso. Quando o sonho finalmente vem, subo escadas infinitamente. De súbito o infinito deixa de o ser e chego a uma porta. A porta abre-se, a luz cega-me, mas quando finalmente consigo abrir os olhos e retomo a visão, vejo duas mulheres de costas para mim, parcialmente nuas, em frente aos espelhos (daqueles como existem nos teatros, para os actores se prepararem para a peça), não lhes consigo ver a cara, colocam mascaras uma de nariz comprido a outra uma simples mascara veneziana com detalhes a dourado, ambas com a boca descoberta colocam batom vermelho. Aproximam-se uma da outra e num beijo, o batom fica esborratado. Finalmente apercebo-me da composição da sala, os espelhos desapareceram, é uma sala quadrada, e no fundo por detrás das bem constituídas mulheres existe um cortinado vermelho, que vai de uma parede lateral à outra. Elas apressam-se a destapar o cortinado, a passo regular. Quando cortinado é destapado revela-me umas escadas em caracol, mais escadas…só muda o tipo. Subo, a subida é infinita como da primeira vez, mas mais depressa que da primeira vez, deixa de o ser e chego ao que me parece ser, uma fabrica abandonada. Ando de uma lado para o outro, não percebo o local nem tão pouco a razão de ali estar, canso-me de observar o local e de encontrar a razão. Sento-me a um dos cantos, aperto a cabeça entre as pernas e após três lagrimas caídas, levanto a cabeça. O sitio que vejo e diferente, o local provavelmente o mesmo (minha mente). Agora estou num quarto, paredes (sem janelas) e tecto branco, sem nada dentro, chão de madeira. Estou nu e agora o pânico invadiu-me, grito, ninguém me ouve, choro ninguém me acalma, passam-se horas, dias, anos ou secalhar para o relógio do comum dos mortais, uns segundos. Mas começo a falar sozinho, desconheço a minha voz, canto a musica que a minha mãe me cantava para adormecer, em vão, se a finalidade era adormecer não consigo. Por fim, a partida seguinte chegou, vejo um caixote do lado oposto da sala. O caixote está fechado, abro-o, nada lá dentro, o desespero trocou de lugar com a esperança, no piscar de olhos seguinte, vejo um céu azul. Estou no ultimo pedaço de natureza existente, no meu lugar preferido, entre todos os meus lugares. Sou eu, actualmente, deitado na erva. Adormeço e descanso.

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Jueves, Diciembre 17, 2009 - 15:47

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juliocosta

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Parabéns pelo texto Juliocosta.

Um abraço amigo
Angelo

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