RESIGNAÇÃO
Boa noite, morte.
Estava à tua espera.
Sei que veio buscar-me,
Mas eu não me importo
Se me levarás para seu mundo misterioso.
E se me tiras desse mundo cruel,
Eu não me importo.
Olhe para os meus olhos:
Logo se fecharão para sempre.
Porém, eles não se importam.
Já viram o cúmulo dos horrores,
Mas também as sete maravilhas da vida.
Veja minha boca que mais tarde a calará:
Todavia, ela não se importa.
Já foi amordaçada pela opressão,
Tapada pela covardia
E silenciada pela ignorância.
Também foi livre,
Falou verdades e mentiras,
Cantou, protestou, recitou poemas, assoviou...
Atente para meus ouvidos
Que logo não ouvirão mais nada.
No entanto, não se importam.
Já captaram sons e vozes de todas as espécies.
Ouviram palavras de ordem,
De humilhação, de desaforos...
Mas também ouviram sábios conselhos
E também sussurros arrepiante de soberbas bocas.
Sinta minhas mãos que em instantes
Se cruzarão perenemente:
Entretanto, não se importam.
Já foram calejadas pela ferramenta de construção
E obrigadas a prestar continências.
Mas já tocaram e acariciaram
A pele macia do rosto da morena
E escreveram versos, prosas...
Repare meu corpo que daqui a pouco
Tu o imobilizará para sempre.
Todavia, não se importa.
Já foi cicatrizado pela violência,
Envelhecido e marcado pelo tempo.
Mas também já estremeceu de prazer
E deliciou-se de longos orgasmos.
Vê, D. Morte?
Não me importo de ir contigo.
Vá vivi tudo que tinha direito:
Fui operário, Poeta,
Senti fome, dor,
Amei, odiei,
Fui humilhado, detestado, admirado,
Rí, chorei, pequei...
Vém,
Estou pronto.
Cubra-me com teu manto negro
E envolva-me em teu silêncio mortal,
Por que eu não me importo!
Francisco Piedade
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Ministério da Poesia :
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