Um Medo de Morte
Mal posso com o peso da vida,
cangaço atroz que me despedaça,
carrego-o errante em vã desdita,
tentando acreditar que ela passa.
E passa, passa, ela vai,
deixo-a ir sempre á minha frente,
não sou homem que não vai,
mais além do que aquilo que sente.
Tenho vertigens ao viver,
sou peso morto que balança inerte,
na grande preguiça de ser,
o copo cheio que nunca verte.
Já pensei nisso, já contemplei,
o fim avizinha-se-me prazenteiro,
mas não posso, não sei,
dar aquele final passo derradeiro!
E por isso persisto, vivo, avanço,
aguento, de sorriso velado,
a indesejada vida da qual não me canso,
de dizer que dela estou cansado.
Eu escorrego sorrateiro pela borda d'água,
eu imploro, ajoelho-me, rogo a vontade de morrer,
quis o destino que me esvaneça nesta mágoa.
Quando é que este coração maldito pára de bater?
Sou assim, Atlas covarde que sustem,
o fardo surrado desta vivência, deste ser.
Sou como sou, palhaço triste que tem,
até preguiça ou medo de morrer.
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