Mergulho na dor

Provavelmente, muitos devem ter, pelo menos, ouvido falar de A escolha de Sofia. Obviamente, a primeira imagem que vem a nossas cabeças é a do filme estrelado pela espetacular Meryl Streep. Porém, a história existiu antes, em livro, um grande livro, vale salientar, escrito por William Styron e considerado, na época, o grande lançamento da literatura norte-americana. O romance, que tem muitas páginas, não cansa um minuto e é escrito em um estilo envolvente e detalhista. A história, narrada em primeira pessoa por Stingo, um jovem e talentoso aspirante a escritor que vive no sul dos Estados Unidos e vai viver por um tempo numa pensão, onde conhece Natan Landau e sua namorada Sofia, uma bela polonesa, por quem fica fascinado, vai nos levando a um momento vergonhoso da história: a execução de milhares de judeus pelo regime nazista. Aos poucos, Stingo vai tendo contato com a triste história de Sofia, sobrevivente dos campos de Auschiwitz, que lhe conta os horrores da guerra, a realidade dos campos de concentração e a opressão das pessoas que têm suas vidas afetadas por uma guerra desumana e injusta, muitas vezes, de forma irremediável. Sofia é uma mulher infeliz, que vive uma relação doentia com Natan que, ora é uma pessoa doce, ora se torna violento e a maltrata e espanca. Stingo não entende como Sofia pode suportar essa vida, embora também se sinta envolvido por Natan, que é inteligente e carismático e o estimula a realizar seu sonho de ser escritor. Envolvendo-se com esse casal singular, Stingo amadurece, começa a analisar os efeitos da guerra na vida das pessoas comuns e observa como Sofia, mulher adorável, mas sem nenhum amor-próprio e que parece além de qualquer chance de felicidade, vai, devagar, mergulhando em um abismo do qual, na verdade, não deseja sair, por não se considerar digna de nenhuma felicidade. A escolha de Sofia é um livro denso, que aborda os conflitos entre o bem e o mal, a sociedade e a individualidade, mostrando que um ser humano não pode, mesmo que queira, ficar alheio aos acontecimentos que envolvem sua sociedade e seu país pois, por estar inserido no meio social,  o ser humano é inevitavelmente afetado pelo que ocorre com sua terra e seu povo. O livro também discute até que ponto nós somos capazes de sustentar nossos princípios. Sofia, em um momento crucial, revelará a Stingo um terrível segredo, que a mata de culpa e que permitiu que sobrevivesse. Isso nos fará questionarmos toda a insanidade de uma guerra brutal, que nos atinge muito além dos campos de batalha e de concentração. Muito já pode ter sido escrito sobre a 2.ª Guerra e sobre a execução em massa dos judeus, porém, poucos livros abordam, de forma tão sincera e comovente, as dores que esses acontecimentos provocam no mais íntimo das pessoas.O autor disseca as emoções de Stingo e Sofia com uma sinceridade crua, desprovida de sutilezas, sem maniqueísmo. Sofia não é uma heroína. É uma mulher normal, mostrada em todas as suas fragilidades e que nos mostra, de maneira visceral, que o ser humano é capaz tanto dos sentimentos mais puros, quanto das atitudes menos nobres para poder sobreviver. 

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Miércoles, Abril 27, 2011 - 11:24

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