Madalena
Madalena, 03:03, Vale de Cambra, 6/2/2011..
Era uma vez, uma pobre menina duma aldeia, morena de olhos muito verdes, cabelo de preto garrido e solto pela aragem do vento, lábios carnudos, traços certos duma face embelezada pela pureza da floresta.Vagueava por dentro da densa e sombria floresta, repleta de lendas e boatos, de que lá viviam bruxas que enfeitiçavam as pessoas de modo a extraíres-lhe a alma para a vender ao Diabo ao preço da chuva. Mas o espírito selvagem de Madalena não temia tais "supostas" invenções das classes mais idosas desta aldeia de seu nome, Talhadas, que é bafejada pelos ares da serra.
Irrompia de forma arrogante pela escuridão assustadora que pintava o quadro bucólico em tons florestais, eram noites e noites lá perdidas por Madalena a passear, dançava, cantava, corria, fazia mil e uma coisas, ditava mil e uma leis num ambiente assombroso o suficiente para viciar o organismo desta terna jovem na sua vil magia.Num certo crepúsculo Madalena desafiou a sorte e fez-se a caminho e depara-se com a majestosa entrada, o portal fantasmagórico para este circo de aparições e ilusões, com o coração a bombear entusiasmo, Lena, como era carinhosamente tratada pelos entes mais chegados, entra, entra sem medo e aí, é envolta numa espiral de fantasia, cultura do oculto num culto que se não for bem gerido por levar o santo sepulcro.
Durante 7 dias e 7 noites, Lena não apareceu à rústica casa de seus pais, António e Maria. A apreensão assolou esta localidade, todos os dias o nome da jovem pródiga era pronunciado nas buscas pela aldeia, mas sem qualquer tipo de sucesso, havia um temor surdo e sem expressão mas que mastigava lentamente o âmago dos incessantes homens que toda a noite, iluminados por candelabros, faziam do corpo a camisa para encontrar Madalena. A lenda alevantou-se, especulava-se sobre a possessão da menina pelas sórdidas bruxas peritas em espalhar o choro e agonia por onde se pavoneiam.
Decidiram então penetrar na "Floresta Maldita, temerosos e com a caixão torácica devorada pelo medo, desbravaram mato em série, eram aranhas, abelhas, mosquitos, morcegos, cobras e ratos, todos eles a fazer as honras do que ainda estava para vir, andaram, andaram, e num momento, ficaram gélidos, petrificados, lívidos, fora de si, ao verem a sua filha, de olhos brancos,leves cortes na cara, pulso sem arritmia, lábios que eram carnudos totalmente cosidos, sentada num tronco de onde escorria um visco espesso, roxo e nauseabundo.Madalena tinha sido vendida aos demónios como ritual de sacrifício.Os locais, indignados, combateram com a velha bruxa, horas, dias, semanas, e a pobre Madalena ia desfalecendo, mas num acto de loucura e desespero, António trocou a sua alma com a da sua filha, ludibriando as hostes diabólicas, libertando Madalena da maldição, numa espécie de exorcismo paterno.
António morreu, mas a maldição morreu com ele, a floresta voltou a brotar viçosos frutos e sementes, animais alados e deslumbrantes calcorreavam nos campos sem limite.Madalena nunca mais voltou à floresta, traumatizada, afectada pela experiência mórbida da qual por um triz saiu viva, mas perdendo mesmo assim a vida do seu querido pai.
Foi uma lição, que por mais selvagem que seja o nosso interior, a voz do bom senso tende a ser activa e boa conselheira.Há que ouvi-la e interpretá-la da melhor maneira para não sermos apanhados em situações de grande aperto...
Esta história foi me relatada pela Madalena, depois de anos em que se recusava liminarmente em contar a verdade, tal era o medo de represálias demoníacas.Agora Madalena vive sobre a égide da paz e da arte, combate e refuta todas as formas de possessão, porque diz ela, a melhor possessão possível para o ser humano prende-se com aquela em que a entrega à outra pessoa se torna uma simbiose perfeita: O Amor!
Autor: Rui Castro
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