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GLOSAS VII

7

Só o nome de Maria
Inconstancia quer dizer;
A mulher, que, assim se chama,
Ingrata sempre ha de ser.

GLOSA

É desatino, é loucura
No mundo haver quem pretenda
Que até dos nomes dependa
A condição meiga, ou dura:
Mas, bem que esta conjectura
Tem visos de errada, e fria,
Eu não sei que antipathia,
Que desgosto, que aversão
Desperta em meu coração
«Só o nome de Maria !»

Jámais o numen vendado
Alcançou de mim victoria,
Jámais fundei minha gloria
Na posse de um puro agrado:
Mas se por força de fado
Chegar um dia a querer,
Ninguem me verá morrer
Pelo nome de Maria,
Pois se por « mar » principía,
«Inconstancia quer dizer.»

Licio, de quem longos annos
A crespa cerviz humilham,
E em cujo aspecto já brilham
A montões os desenganos:
Diz — que é causa de mil damnos,
Que mil discordias derrama,
Que é furia pelo que inflamma,
Que é crocodilo no pranto,
Serêa na voz, no canto
«A mulher, que assim se chama.»

Vós pois, que as aras beijaes,
E a quem eu meus votos nego,
Vós, que insanas leis de um cego
Tão cegamente adoraes:
Se não quereis de vãos ais
Os ares subtis encher,
Vêde a quem ides render
Vossa interna idolatria,
Que toda a que fôr Maria
«Ingrata sempre ha de ser.»

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segunda-feira, setembro 21, 2009 - 00:58

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Bocage

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