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William Shakespeare : A Comédia dos Erros – Ato II - Cena II

Cena II

(Uma praça pública. Entra Antífolo de Siracusa.)

Antífolo de Siracusa
O dinheiro que a Drômio eu tinha dado se acha na hospedaria do Centauro, tendo saído o cuidadoso escravo para me procurar. Pelo meu cálculo e o que disse o hospedeiro, eu não podia ter falado com Drômio depois da hora em que nos separamos no mercado. Mas ei-lo que aí vem.

(Entra Drômio de Siracusa.)

Então, senhor, já está mais calmo vosso humor jocoso? Repeti, por favor, a brincadeira, se gostais de pancada. A hospedaria do Centauro vos é desconhecida? Não vos dei uma bolsa com dinheiro? Vossa patroa me quer ver em casa, para eu jantar com ela? Então, moramos na hospedaria Fênix? Estás louco, para me responderes desse modo?

Drômio de Siracusa
Quando, senhor, vos respondi tal coisa?

Antífolo de Siracusa
Agora mesmo, aqui, há meia hora

Drômio de Siracusa
Não vos falei desde a hora em que ao Centauro me mandastes levar vosso dinheiro.

Antífolo de Siracusa
Afirmaste, vilão, que eu não te havia dado dinheiro algum e me falaste de uma mulher e de eu jantar com ela. Mas penso que na pele tens a prova de quanto me alegrou essa notícia.

Drômio de Siracusa
Fico contente por vos ver alegre. Que quer dizer, senhor, essa pilharia?

Antífolo de Siracusa
Ainda zombas de mim na minha frente? Pensas que é brincadeira? Então toma isto.

(Bate-lhe.)

Drômio de Siracusa
Parai, senhor, por Deus! A brincadeira ficou séria demais. Por que barganha mereci receber essas pancadas?

Antífolo de Siracusa
Porque acontece eu conversar convosco familiarmente e, para distrair-me, vos fazer de meu bobo, vossa audácia vos leva a exorbitar, até quererdes apalhaçar as minhas horas sérias. Quando o sol brilha, as moscas dançam ledas; mas, quando some, logo elas se escondem. Para poderdes discretear comigo será conveniente ver-me o rosto. Assim, pelos meus olhos, a atitude sabereis escolher. Caso contrário, vos meterei pela cabaça o método.

Drômio de Siracusa
Cabaça lhe chamais? Eu preferia ter cabeça, uma vez que deixasses de a malhar. A continuardes desse jeito, vou procurar uma cabaça para forrar com ela a cabeça e não ter de procurar o espírito nas espáduas. Mas, por obséquio, senhor: por que me bateis?

Antífolo de Siracusa
Não sabes a causa?

Drômio de Siracusa
Não sei nada, senhor, a não ser que estou a receber pancada.

Antífolo de Siracusa
Desejas que ta revele?

Drômio de Siracusa
Perfeitamente, senhor, e também o seu porquê, pois dizem todos que não há causa sem porquê.

Antífolo de Siracusa
Pois foi porque te riste à minha custa. Agora vejamos o porquê: porque de novo riste de mim, quando eu falava sério.

Drômio de Siracusa
Quem sova igual já tomou? Coisa assim nunca mais me aconteça, pois os porquês que aduzis são porqueiras sem pés nem cabeça. Obrigado, senhor.

Antífolo de Siracusa
Por que obrigado?

Drômio de Siracusa
Ora, senhor, por essa coisa que me destes por coisa nenhuma.

Antífolo de Siracusa
Na próxima vez me corrigirei, dando-te coisa nenhuma por alguma coisa. Mas dizei-me, senhor: já são horas de jantar?

Drômio de Siracusa
Não, senhor; a carne ainda não ficou como eu estou.

Antífolo de Siracusa
Como assim, senhor? Que é que lhe falta?

Drômio de Siracusa
Ser batida.

Antífolo de Siracusa
Perfeitamente, senhor; com isso ela ficará seca.

Drômio de Siracusa
Nesse caso, peço-vos não provar bocado.

Antífolo de Siracusa
Vossas razões?

Drômio de Siracusa
Para não ficardes colérico outra vez e não tornardes a me bater.

Antífolo de Siracusa
Então, meu senhor, aprendei a gracejar só quando houver ocasião, porque para tudo há tempo certo.

Drômio de Siracusa
Era o que eu ousaria contestar, antes de haverdes ficado tão colérico.

Antífolo de Siracusa
Em que razões vos firmais, senhor?

Drômio de Siracusa
Ora, senhor, em uma razão tão reluzente como a careca reluzente do velho Tempo.

Antífolo de Siracusa
Vamos ouvi-la, então.

Drômio de Siracusa
Quem é calvo por natureza, em tempo nenhum recupera o cabelo.

Antífolo de Siracusa
Não lhe seria possível conseguir isso por meio de um processo de posse absoluta?

Drômio de Siracusa
Sim, protestando pela posse de uma peruca, para ficar de posse dos cabelos de outra pessoa.

Antífolo de Siracusa
Por que motivo o Tempo é tão sovina de cabelo, quando é certo que este cresce com tanta liberalidade?

Drômio de Siracusa
Isso é bênção que ele reserva aos animais; o que ele nega aos homens em cabelo, dá-lhes em inteligência.

Antífolo de Siracusa
E por esse motivo que muita gente é dotada de mais cabelo do que inteligência.

Drômio de Siracusa
Mas não há quem tenha inteligência para perder o cabelo.

Antífolo de Siracusa
Concluíste há pouco que as pessoas de muito cabelo são lorpas destituídos de espírito.

Drômio de Siracusa
Quanto mais lorpa, mais cabelo perde; contudo, perde sempre com alegria.

Antífolo de Siracusa
E a razão disso?

Drômio de Siracusa
São duas as razões, senhor, e ambas de peso.

Antífolo de Siracusa
De peso é que não devem ser.

Drômio de Siracusa
Razões seguras, pelo menos.

Antífolo de Siracusa
Dize quais são elas.

Drômio de Siracusa
A primeira é economizar o dinheiro que deveria gastar com o penteador; a segunda, ficar livre de lhe cair o cabelo na sopa.

Antífolo de Siracusa
Durante todo esse tempo, queríeis provar que não há tempo para tudo.

Drômio de Siracusa
E consegui-o, senhor, a saber: não há tempo para recuperarmos o cabelo perdido pela natureza.

Antífolo de Siracusa
Mas não apresentaste razão substancial do porquê de não haver tempo de recuperá-lo.

Drômio de Siracusa
Então, corrijo em tempo: por ser calvo o Tempo, há de ter até ao fim do mundo seguidores calvos.

Antífolo de Siracusa
Previa que a conclusão ia ser calva. Mas, devagar: quem é que nos está a fazer sinais dali?

(Entram Adriana e Luciana.)

Adriana
Sim, sim, Antífolo, o conspecto franze, lança-me olhar severo. A outras mulheres dedica só blandícias. Tua esposa não sou; não sou Adriana. Houve já tempo em que espontaneamente me juravas que nenhuma palavra te era música aos ouvidos, os olhos coisa alguma te distraía, nada te causava prazer ao tacto, ao paladar comida nenhuma te sabia, senão minha fala, e o conspecto meu, o meu contacto, e o assado que por minha mão te dava. Que aconteceu, querido esposo, para que estranho, assim, ficasses de ti mesmo? Sim, de ti mesmo, disse, pois te encontras afastado de mim, que inseparável sendo de ti, me considero ainda melhor que a melhor parte de ti mesmo. Pois sabe, meu amor: fora mais fácil no mar deitares uma gota de água para, intacta, depois a recolheres, sem adição nenhuma ou qualquer perda, do que sem mim de mim te retirares. Como ficaras no âmago ferido se, quando nada, alguém fosse contar-te que eu era licenciosa e que este corpo a ti, só, consagrado, ora poluído pela bestial luxúria se encontrava? Em tua indignação, não me cuspiras, aos pés não me calcaras, nestas faces não jogaras o nome de marido, não me rasgaras a manchada cute da fronte infiel, e desta mão perjura a aliança nupcial não arrancaras, com a maldição quebrando-a do divórcio? Sei que o farias. Pois então não tardes: a mancha do adultério em mim se alastra; trago no sangue o crime da luxúria, pois se ambos somos um, e prevaricas, na carne trago todo o teu veneno, por teu contágio me tornando impura. Ao nosso leito, pois, sê infiel aliado; só assim serei pura e tu honrado.

Antífolo de Siracusa
Falais comigo, mui graciosa dama? Não vos conheço, pois há duas horas que a Éfeso cheguei, tão estrangeiro à cidade como a isso que dissestes. Sou de espírito parco de recursos para entender sequer vossos discursos.

Luciana
Ora, irmão! Pode o mundo mudar tanto? Quando a mana trataste desse modo? Ela mandara te chamar por Drômio...

Antífolo de Siracusa
Por Drômio?

Drômio de Siracusa
Por mim?

Adriana
Por ti... E esta resposta me trouxeste: que ele te esbofeteara e, com seus golpes, dissera não ser dele a minha casa e que eu consorte sua jamais fora.

Antífolo de Siracusa
Conversaste, senhor, com esta senhora? Qual a intenção de toda esta conjura?

Drômio de Siracusa
Eu, senhor? Nunca a vi até este instante.

Antífolo de Siracusa
Mentes, vilão! Que há pouco, no mercado, me transmitiste esse recado mesmo.

Drômio de Siracusa
Eu nunca lhe falei em toda a vida.

Antífolo de Siracusa
Como sabe ela, então o nosso nome? Só se é inspiração.

Adriana
Como desdiz de tanta gravidade desta arte conchavar com vosso escravo e espicaçá-lo a me fazer pirraças! Seja embora eu culpada de tudo isso, não me façais assim tão mau serviço, aumentando com vossa zombaria a imensa dor que a vida me abrevia. De vós não mais me afastarei... Oh! Ride! Sois o olmo, meu marido; eu, vossa vide, cuja fraqueza à vossa força aliada em rijeza tran.sforma-se acendrada. Entre nós não há linha divisória, se não for, tão-somente, a vil escória da turba parasita: erva daninha, musgo e o mais que no tronco cresce asinha, e que, por falta de desbaste e corte, te causa confusão e te dá morte.

Antífolo de Siracusa
Fala comigo; sinto-me abalado... Em sonhos, pois, tê-la-ia desposado? Ou durmo, ainda, e penso ouvir tudo isto, julgando ver o que jamais hei visto? Enquanto certa for esta incerteza, deterei a ilusão com mais firmeza. Ou durmo, ainda, e penso ouvir tudo isto, julgando ver o que jamais hei visto? Enquanto certa for esta incerteza, deterei a ilusão com mais firmeza.

Luciana
Drômio, vai pôr a mesa com os criados.

Drômio de Siracusa
Ó Deus do céu, perdoai os meus pecados! Estamos num país de fadas lindas, de elfos, corujas, de ilusões infindas. Façamos-lhe a vontade; do contrário, nos chupa o sangue espírito nefário.

Luciana
Por que não andas, peste? Vamos, Drômio; não me mudes a casa em manicômio.

Drômio de Siracusa
Fui transformado, mestre? Eu não sou eu?

Antífolo de Siracusa
Foste, sim; eu também já não sou eu.

Drômio de Siracusa
Não valho, como gente, um só pataco.

Antífolo de Siracusa
A forma ainda conservas.

Drômio de Siracusa
De macaco.

Luciana
Se em algo te mudaste, foi em burro.

Drômio de Siracusa
É certo; ela me dá capim e eu zurro. Se habituado eu não fosse a levar sela, saberia também o nome dela.

Adriana
Basta! Basta! Não mais hei de portar-me como uma tola, que a mão leva aos olhos para chorar, enquanto o amo e o criado de minha dor se riem. Já está pronto, senhor, nosso jantar. Drômio, de guarda ficarás no portão. Hoje, marido, jantaremos em cima; hei de obrigar-vos a me contar as vossas peraltices. Ouve, malandro: caso alguém procure teu patrão, dize que ele jantou fora. Veda a todos a entrada. Mana, vamos. Drômio, tu ficarás como porteiro.

Antífolo de Siracusa (à parte)
Isto é céu, terra, ou inferno verdadeiro? Durmo ou velo? Sou louco ou tenho juízo? Meu nome ela repete com um sorriso. Pouco importa; vejamos se isto dura; com ela embarcarei nesta aventura.

Drômio de Siracusa
Mestre, é força que eu faça de porteiro?

Adriana
Se queres conservar o coco inteiro.

Luciana
Vamos, Antífolo; o jantar primeiro.

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quinta-feira, maio 7, 2009 - 23:18

Poesia Consagrada :

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