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William Shakespeare : O Mercador de Veneza – Ato III - Cena I

Cena I

(Veneza. Uma rua. Entram Salânio e Salarino.)

Salânio
Então, que novidades há no Rialto?

Salarino
Ora, corre por lá, sem contestação, que Antônio perdeu nos estreitos um navio com carregamento precioso. Parece que isso se deu no lugar denominado Goodwins, baixio perigoso e fatal, onde está sepultada a carcaça de muitos navios de calado. É o que se comenta, pelo menos, se a comadre Fama for, de fato, mulher de palavra.

Salânio
Desejara que a respeito dessa notícia ela fosse comadre tão mentirosa como as que mastigam gengibre e as que pretendem fazer acreditar aos vizinhos que lastimam a morte do terceiro marido. Mas o certo é que - para cortar a prolixidade e não atravessar a estrada plana da conversação - o certo é que o bom Antônio, o honesto Antônio - Oh! se me ocorresse um qualificativo suficientemente bom para pôr ao lado de seu nome!...

Salarino
Cheguemos logo ao fim.

Salânio
Hem? Que foi o que disseste? Ora, o fim é que ele perdeu um navio.

Salarino
Desejara que isso constituísse o fim das suas perdas.

Salânio
Vou dizer logo "Amém", de medo que o diabo me corte a reza, pois aí vem ele sob a figura de um judeu.

(Entra Shylock.)

Então, Shylock, que há de novo entre os mercadores?

Shylock
Ninguém melhor do que vós, melhor do que vós, sabe da fuga de minha filha.

Salarino
Com efeito. Por minha parte, conheço o alfaiate que aprontou as asas com que ela fugiu.

Salânio
E, por sua parte, Shylock sabia que o pássaro estava emplumado, sendo da natureza deles abandonar o ninho.

Shylock
Isso que ela me fez a condena às penas eternas.

Salarino
É certo, se a sentença for dada pelo diabo.

Shylock
Minha carne, meu próprio sangue rebelar-se desse modo!

Salânio
Deixa disso, velho esqueleto! Rebelar-se em tua idade?

Shylock
Disse que minha filha é sangue de meu sangue e carne de minha carne.

Salarino
Há maior diferença entre tua carne e a dela do que entre ébano e marfim; maior entre o teu sangue e o dela do que entre vinho tinto e do Reno. Mas dize-nos uma coisa: ouviste falar que Antônio sofreu alguma perda no mar?

Shylock
Eis aí mais um mau companheiro de negócios, um sujeito pálido, esbanjador, que mal ousa mostrar a cabeça no Rialto; um mendigo que diariamente vinha todo casquilho para o mercado. Ele que tome cuidado com aquela letra! Tinha o costume de chamar-me de usurário. Ele que tome cuidado com aquela letra! Sempre emprestou dinheiro por cortesia cristã... Ele que tome cuidado com aquela letra!

Salarino
Ora, tenho certeza de que se ele não a resgatar no prazo certo, não haverás de tirar-lhe a carne, pois não? Para que te serviria ela?

Shylock
Para isca de peixe. Se não servir para alimentar coisa alguma, servirá para alimentar minha vingança. Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda.

(Entra um criado.)

Criado
Cavalheiros, meu amo Antônio está em casa e deseja falar com vós ambos.
Salarino
Estávamos à procura dele por toda parte.

(Entra Tubal.)

Salânio
Aí vem vindo outro da mesma tribo; não será possível aparecer mais um para completar o terno, a menos que o próprio diabo se fizesse judeu.

(Saem Salânio, Salarino e o criado.)

Shylock
Então, Tubal? Há notícias de Gênova? Encontraste minha filha?

Tubal
Estive em muitos lugares em que ouvi falar dela, mas nunca lhe pus a vista em cima.

Shylock
É assim mesmo, é assim mesmo. Foi-se um diamante que me custou duzentos ducados em Francforte. Até agora a maldição não havia caído sobre a nossa nação; nunca a senti, senão agora. Dois mil ducados só nessa jóia, além de outras muito mais preciosas, muito mais. Quisera ver minha filha morta diante de mim, com os ducados nas orelhas. Quisera vê-la num caixão fúnebre diante de mim, com os ducados no caixão. Não há notícia deles? Ora, sendo... Só eu sei o que me têm custado essas investigações. Ora, tu... Prejuízo em cima de prejuízo. Foge o ladrão com tanto, e mais tanto para pegarmos o ladrão. E nada de satisfação, nada de vingança. Não há infelicidade além da que me pesa sobre os ombros; não há suspiros, além dos que me saem do peito, nem lágrimas, afora as que eu mesmo derramo.

Tubal
Não; há outras pessoas, também, que sofrem seus reveses. Antônio, segundo me disseram em Gênova...

Shylock
Que houve? Que houve? Que houve? Alguma desgraça?

Tubal
... perdeu um galeão que vinha de Trípoli.

Shylock
Graças a Deus! Graças a Deus! É então verdade? É verdade?

Tubal
Conversei com alguns dos marinheiros que escaparam do naufrágio.

Shylock
Muito obrigado, bom Tubal. Boas notícias, boas noticias. Ah! Ah! Onde? Em Gênova?

Tubal
Vossa filha, segundo ouvi falar, gastou numa noite em Gênova oitenta ducados.

Shylock
Dás-me uma punhalada. Nunca mais voltarei a ver o meu dinheiro. Oitenta ducados de uma só vez! Oitenta ducados!

Tubal
Vieram comigo para Veneza vários credores de Antônio que juram que ele não poderá escapar da falência.

Shylock
Isso me alegra sobremodo. Vou atormentá-lo, torturá-lo... Isso me alegra sobremodo.

Tubal
Um deles me mostrou um anel que vossa filha lhe dera em troca de um macaco.

Shylock
A peste que a carregue! Torturas-me, Tubal. Era a minha turquesa; presente de Lia, quando eu ainda era solteiro. Não a trocaria por uma floresta de macacos.

Tubal
Mas é certeza estar Antônio arruinado.

Shylock
Sim, é certo; é muito certo. Tubal, vai procurar-me logo um beleguim; apraza-o com duas semanas de antecedência. Ficarei com o coração dele, no caso de não pagar, porque, uma vez afastado de Veneza, poderei fazer o negócio que bem entender. Vai, Tubal, e procura-me em nossa sinagoga. Vai, bom Tubal; em nossa sinagoga, Tubal.

(Saem.)

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quinta-feira, maio 7, 2009 - 21:58

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