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DéJà vu

Jorge tinha desde sempre a estranha sensação de já ter vivido aquela situação, aquele instante, que já tinha dito isto e posto aquilo.
As repetições eram uma constante a cada momento da sua vida. E não lhe apareciam só como uma espécie de pressentimento ou fruto de um qualquer sexto sentido revelador. Surgiam-lhe nas mais variadas situações, como se no espaço curto de uma vida, estivesse condenado a repetir pessoas, lugares, coisas, e não lhe tivesse sido dada a hipótese de o entender, ou pelo menos perceber o porquê desse constante retorno.
Umas vezes acontecia de sonhos antigos e mesmo alguns pesadelos se tornarem realidade, e em outras ocasiões um reviver de sentimentos, emoções ou actos.
Era assim também com as mulheres que tinha amado ao longo dos anos.
As paixões da juventude reapareciam-lhe do nada, transformadas em mulheres maduras, redescobrindo nelas os mesmos olhares, os mesmos gestos, as mesmas características de personalidade. Porém, o tempo que mediava entre um tempo e outro, havia-lhe dado a capacidade de curar as mazelas, de se distanciar da cegueira de outros tempos. De não se entregar de forma tão impensada ao amor como o havia feito no passado.
Encontrava-as de forma perfeitamente fortuita. Uma porque tinha acabado de ser colocada na sua repartição, outra porque descobriu o seu blog na Internet, outra ainda porque era afinal prima de quem menos esperava.
Convivia bem com isso, não deixava no entanto de se questionar sobre a estranha razão desses acontecimentos, como se alguém sempre o colocasse à prova, fosse isso obra daquilo que lhe era transcendente, fosse ele a razão da sua própria transcendência.
Havia chegado a uma altura da sua vida em que a verdade era uma só e os seus anseios plurais.
Capaz de se casar finalmente, ter filhos, constituir um lar. Capaz de amar para o resto dos seus dias uma mulher.
Quarenta translações pareciam-lhe um número redondo. Tão redondo como um círculo.
Depois de tantos anos partilhando o seu mundo com quatro gatos, tinha a estranha certeza de que chegara o momento. Tinha disso absoluta certeza.
Faltavam-lhe no entanto algumas respostas.

Uma das que mais procurava era como pulga. Na orelha de cada momento, no olhar atento em redor. Era parte de uma ânsia que não sabia explicar, como se um destino que lhe fora traçado se cumprisse por repetição.
Coisa estranha que lhe fazia secar a boca, bater forte de coração no peito.
Perguntava-se quem era para além de todas as certezas. Perguntava-se porque estranho concílio de deuses, se sentia a espaços etéreo, como que pairando sobre as coisas, como se o amanhã desconhecido fosse hoje, pelo simples facto de já ter acontecido.
Jorge queria saber entre outras coisas, uma coisa simples. A hora da sua morte.
Só isso.
Um dia, num daqueles dias em que lhe parecia estar o tempo acertado, e que cada segundo era um novo segundo, um acontecimento tomou lugar primeiro nos acontecimentos desse dia. Recebeu uma carta que mudaria para sempre a estranha história da sua vida.
Dizia assim:

Excelentíssimo Senhor,

Venho por este meio, incumbido dos mais respeitosos cumprimentos, e por delegação de Sua Senhoria, o Marquês de Edas, comunicar a Vossa Excelência a oportunidade de celebração do Equinócio da Primavera, a realizar em dia certo nesta translação, pelos desígnios da sagrada ordem elíptica, nos jardins do palácio de Vila Verde.
Recitarão poemas os mais afamados poetas da Corte, entre os quais, minha Senhoria espera, brilhe a graça e o engenho de Vª Excelência.
Meu Senhor, certo de que será honrado com sua imprescindível presença, coloca ao serviço de Vª Excelência uma carruagem para o transportar ao palácio.

Seu criado,

Por Sua Senhoria o Marquês de Edas

(assinatura ilegível…)

Olhou o registo da carta depois de a ter lido. 17 de Março de 1857.

O selo antigo, com a efígie de D. Maria II não enganava, bem como o carimbo de correios. Mas só podia ser brincadeira de alguém. De um amigo possivelmente interessado em gozar com a sua estranha sina, a sua sorte.
E onde se situaria o tal palácio de Vila Verde? Seria apenas um nome arranjado, surgido da imaginação do farsante?
Pelo sim pelo não resolveu investigar. Deslocou-se até à biblioteca municipal disposto a tirar a limpo a história. A do palácio pelo menos.
Assim que entrou pela porta antiga do edifício teve de imediato uma sensação de déjà vu. O porteiro iria dizer: - A Biblioteca encerra ás 17 horas, tenha em atenção esse facto…
E disse.
Jorge não precisou de muito tempo porém, entre uma busca na internet e um livro de época, encontrou rapidamente o que procurava. O palácio de Vila Verde havia sido mandado construir na primeira metade do século XVIII e manteve-se durante várias gerações na posse dos Edas, sendo a família de origem francesa. Constatou até o curioso facto de ter sido parcialmente destruído, aquando das guerras napoleónicas na península, decorria a primeira década do século XIX.
Mais tarde reconstruído e hoje transformado em centro cultural, distava a apenas quarenta quilómetros do local onde se encontrava.
Requisitou o livro disposto a aprofundar nessa noite os conhecimentos sobre aquele lugar e os que lá viveram, quase esquecido do motivo que o levou a iniciar aquela investigação.
Descobriu que o Marquês de Edas havia sido um homem influente ao seu tempo, um mecenas e um homem de cultura, que se rodeava de pintores e poetas, tendo ele próprio escrito algumas obras de ficção, nomeadamente contos, algo libertinos para a altura.
A sua figura, que descobriu em desenhos e retratos da época era assaz curiosa, um daqueles rostos que não se esquece, pelas feições afiadas e uma barba muito peculiar.
Tomou, na noite desse dia 17 de Março de 2007, a decisão de visitar o palácio no dia seguinte. Estávamos a três dias do Equinócio da Primavera.

Chegou cedo.
Ainda antes de as portas se abrirem, o que lhe deu tempo para espreitar o espaço, os jardins bem tratados, o conjunto de edifícios que o compunham.
Tratava-se de um local agradável, que misturava com graciosidade o antigo e o contemporâneo, enlaçando-se presente e passado numa comunhão de sentidos e propostas.
Havia ateliers para as mais diversas artes, da escultura à pintura, do teatro, à escrita, e depressa o palácio se fez de gente naquele inicio de manhã solarenga, homens e mulheres, jovens e velhos irmanados por sede de cultura e conhecimento.
Jorge sentiu-se bem ali.
Num dos espaços dedicados à história da casa, descobriu um quadro de corpo inteiro do seu conhecido Marquês de Edas.
Segurava um livro na mão esquerda, enquanto a outra mão, eloquente e altiva, riscava no ar todo o ênfase do seu recitar, estando representadas por trás de si, um conjunto de figuras simbolizando os saberes, as artes e misteres.
Um facto chamou a sua atenção logo que os seus olhos desceram da tela para a legenda na base da obra.
- Marquês de Edas – 1817-1857-
A data da morte daquela figura tão forte e cativante, era coincidente com a data da carta que recebera.
Numa primeira reflexão riu-se de pensar em alguém seu conhecido que lhe criara aquela trama para se divertir ou fazer com que se divertisse, mas logo depois se deixou cair em conjecturas, pois o tal Marquês, curiosamente, morrera com a mesma idade que tinha agora…
Regressou a casa envolvido de tantas certezas como da falta delas. Antes de se deitar e fechar as cortinas daquele dia de descobertas, olhou mais uma vez o envelope pousado sobre a mesa-de-cabeceira, cheirou-o como se andasse à procura de uma pista, poisou-o depois sobre o peito, e nem a luz apagou.

Estava cada vez mais próximo o dia da anunciada celebração. Não que pensasse muito nisso, mas o que é facto é que toda aquela teia de significações que os últimos dias tinham provocado, criaram em Jorge uma ponta de ansiedade, mais não fosse na procura da solução para aquela espécie de mistério em que o tinham envolvido.
Assim pensava.
Na véspera do dia em que metade do dia é exactamente igual á noite, que no hemisfério norte acontece a 20 de Março e no hemisfério sul a 22 de Setembro, recebeu nova mensagem, desta vez em mão.
Foi um velho senhor, que nunca havia visto por aquelas bandas. De barba grisalha que quase lhe escondeu os olhos pequenos de luz. Entregou-a mão na mão e sumiu.
Dizia assim:

Excelentíssimo Senhor

Meu senhor, o Marquês de Edas, pede penhorado a Vossa Excelência que amanhã, durante a celebração do equinócio, tenha vossa Excelência a bondade de recitar o poema que lhe envia junto, na certeza de que o engenho e a infinita inspiração da vossa grandeza, transformarão em trovas simples versos que lhe envia.
Esteja vossa Excelência nos passos de sua morada no dia combinado, pelo soar das sete badaladas. Uma carruagem o transportará até ao palácio de Vila Verde.

Jorge adorava poesia. Lia com paixão todos os grandes autores portugueses, dos clássicos aos contemporâneos e já editara até um livro: “memórias do amanhã”, do qual vendeu, entre amigos, colegas e desconhecidos, 56 livros, nem mais um.
A expectativa estava ao rubro. E se fosse uma daquelas coisas de programa de televisão, em que de repente alguém se vê no meio de um live-show, meio aparvalhado, incapaz de esboçar o que quer que seja?
-Um soco no nariz do apresentador, passou-lhe pela cabeça…
O poema era fantástico. Parecia que cada verso se unia ao outro não só por rima mas por ritmo, por intrínsecas razões que só a poesia conhece.
Leu-o mais uma vez, até que as pálpebras se descuidaram fechando sem aviso as janelas dos olhos.

O despertador estremeceu o quarto. Era daqueles antigos, em que um batente irritante faz soar um gongo estridente.
Maquiavélico. Só que já estava acordado.
Acordado de véspera.
Tomou um banho relaxante, vestiu-se e sentou-se á mesa para a refeição matinal. Comeu o seu prato preferido.
Colocou o poema que lhe foi entregue dentro do livro que falava dos Edas, desceu as escadas e surgiu na rua. Logo que o fez e pisou a calçada, sentiu uma picada num pé. Como se a rua estivesse electrificada.
Olhou em redor, e num repente, numa fracção mínima, pareceu-lhe que o tempo parou.
Parou no passo do homem que atravessava a estrada, no voo do pássaro, no pregão da vendedeira.
Parou sem aviso, mas logo no momento seguinte, que pareceu eterno, um vento igual lhe desviou os cabelos e lhe fez esvoaçar os olhos.
Uma carruagem com quatro cavalos parou junto de si. Dois brancos e dois pretos, aparelhados de forma intercalada.
No xadrez daquele momento, Jorge aceitou o desafio e entrou pela porta que lhe foi aberta pelo cocheiro. Um homem de barbas grisalhas com olhos pequenos de luz.
A viagem não demorou muito tempo, aliás não demorou, porque o pensamento de Jorge estava já à frente, no destino imaginado, na surpresa da chegada.
Foi o mesmo homem que lhe abriu a porta.
O palácio não era o mesmo. Era mais belo. Os jardins ainda mais exuberantes.
Havia várias carruagens de onde saiam pessoas em trajes de época. Foi quando se olhou. Vestia as mesmas vestes, cingia-se dos mesmos folhos fartos, dos mesmos doirados em meia branca e sapato fino.
Algo dentro de si lhe dizia para viver cada momento sem questionar, que a busca de uma vida inteira talvez estivesse próxima por inesperada junção dos tempos.
Entrou como se conhecesse os cantos à casa. As conversas ecoavam em gargalhadas, em alegria contagiante.
A música por todo o lado.
Assim que desaguou no vasto salão, de entre as dezenas de rostos que figuravam festivos, um se prendeu aos seus olhos.
De mulher.

Amou-a numa milésima, amou-a mil vezes. Sentiu uma pontada no peito, um milhão que fossem.
Era belíssima, de cabelos em cacho escorrendo sobre uns ombros perfeitos, de cintura curvilínea e pernas delicadas que só adivinhou, pois o vestido longo não as deixava visíveis aos olhares.
Só seus.
A deusa dirigiu-se a si em passos leves. Tomou-lhe as mãos e disse-lhe:
- O meu marido espera por si.
Pareceu-lhe que há muito tempo.
Mas a revelação de que aquela mulher era casada não o fez baquear um momento que fosse. O amor desconhece afinal barreiras e não há grilhetas que prendam o coração de quem ama.
Conseguiu no entanto dizer:
- Estou muito feliz de a conhecer.
A Diva falou novamente pelos olhos, anuindo como se o soubesse desde sempre.
Sentia-se perfeitamente integrado naquele ambiente, como se não existisse passado ou futuro. Só um presente revelador a cada instante.
Angélica, que só assim se podia chamar uma mulher de formas tão celestiais, conduziu-o até ao atelier, onde de imediato reconheceu o seu anfitrião, na sua figura elegante, no ar etéreo do seu rosto pálido.
Na sua frente havia um cavalete tapado por um pano longo. O Marquês de Edas pediu a Jorge que o soltasse, ao que este respondeu com um gesto decidido.
Uma tela estava agora exposta aos olhares dos três, imediatamente identificada pelo viajante do tempo, pois era a mesma que havia visto dias antes na sua visita ao palácio.
Cento e cinquenta anos separavam aquele momento.
O Marquês olhando aquele homem que trazia ainda debaixo do braço o mesmo livro aconchegado, perguntou-lhe:
- Que achou do meu soneto?
- Maravilhoso. – Respondeu aquele que também era poeta.
Deslocaram-se para os jardins exteriores.
Jorge foi apresentado à plateia por Angélica, como cavaleiro e arauto de um novo advento. Fez-se silêncio para ser escutado o poema que trouxera.

Dizia assim.

MIL

Foram mil os pedaços de tempo
Que recortei do azul de teus olhos
Flores que larguei das mãos ao vento
Por não poderem viver em molhos

Foram mil as horas e as razões
Certezas puras do teu bem-querer
Janelas abertas nas emoções
Que guardarei depois do meu viver

E se hoje te canto em verso sonhado
Mil palavras guardo ainda no peito
De sorriso aberto ao teu afago

No mar em sobressalto do teu leito
Nas mil razões para te ter amado
Em nenhuma eu encontro defeito

Marquês de Edas

As palmas ecoaram fortes naquele jardim, o sol estava no seu ponto máximo de brilho, de esplendor.
O olhar de Jorge cruzou-se num eterno segundo com o do criador daquele poema. Notou-lhe distintamente um sorriso nos lábios. Depois viu-o tombar inanimado na relva, fulminado por um ataque de coração, o mesmo coração transbordante de amor por uma mulher que antes cantava exuberante pela voz de Jorge.
Sentiu-se ele próprio entrar num cone de luz, que ao fechar dos olhos se tornava ainda mais intensa. Tomado por um extraordinário bem-estar, sabendo todas as respostas, sem nada para perguntar.

No hospital central de S. Marcos há um corpo gelado há dias, que ninguém veio ainda reclamar. Junto dele, dentro de um saco plástico devidamente etiquetado um livro e uma folha amarelecida pelo tempo.

É um poema. Alguém o quer recitar?

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segunda-feira, dezembro 8, 2008 - 00:02

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Re: DéJà vu

Olá José,

É nos contos que és Mestre. Cada conto teu prende o leitor do início ao fim sem que nos seja permitida uma paragem, tal é a sofreguidão do leitor em beber a tua escrita.

Aqui encontrei um conto e um soneto. Mais rico ficou o conto.

Leria esse poema sim! dá-se a vida por momentos sublimes de felicidade :-)

Belo!

Bjs

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