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A Montanhesa

1
Nos inóspitos lugarejos serranos da Europa Central, compostos por escuros casebres talhados de rochas desafiando a gravidade, a paisagem emudecia o olhar com as cores verdissecas de Outono; das imensas florestas quase desnudas. A serra era cortada por serpenteados caminhos íngremes, atapetados de folhas estrumais, pelas nascentes de frias águas cristalinas, abismando-se nos declives, pelas clareiras pedregosas e, aqui e além, por parcas parcelas de solo que somente suportam o cultivo dos pobres.
Sombreava-a a eterna névoa cinza e asfixiante, subtraindo-lhe o ouro solar e o anil celeste. As noites eram quase sempre vestidas do manto de breu sem ornamentos de Iuz prateada do luar ou de tremeluzentes estrelas.
Outrora, o vento entoava um suave monólogo juvenil, balançando-se nas copas, ritmado, ora pelo trinar das aves, ora, qual ária pastoril, pelos balidos e chocalhos dos rebanhos, ruminando nos cumes e sopés, ora por ambos numa sinfonia demorada e conduzida pela maestria da comunhão dos seres, apenas interrompida pelo uivar agoirento dos lobos e pelo piante esvoaçar das aves nocturnas que assustam os corações.
Às gentes, rudes personagens solitárias, de comportamentos bizarros e supersticiosos, bramia-lhes agora o vento buliçoso, de asas impregnadas dos ribombos dos engenhos da guerra e do fumo acre da destruição.
Diziam estas gentes, presos nas garras da ignorância, numa postura comum aos desbravadores da sobrevivência, que, nos poucos intervalos das tréguas do flagelo, se ouviam, por entre o uivar ainda mais terrifico dos adibes esfomeados e ávidos de carniça, os gemidos acorrentados dos feridos moribundos e se viam deambular os mortos, tiranizados pela violência, sem rumo definido, esperando numa fila imensa de morte um aviso do repouso eterno que tardava ou, ainda, uma réstia de vida neste labirinto de podridão e desespero que os animasse e os fizesse compreender porque a sua miserável existência foi tão abruptamente ceifada, Talvez buscassem razão no insondável prazer dos "senhores da guerra" deleitando-se num êxtase de orgásticas contrac6es de escárnio desprezo, incendiando-lhes o sangue, quase uma orgia carnal, viciando-lhes o ser - droga tolerante, os actos de violência gratuita - enlouquecendo-os com mais dor, raiva, medo, desespero, e a negação da vida consumindo-os
até à própria morte. Dores, raivas, medos, desesperos e negações que geram e parem – quais prostitutas - outros "senhores", num círculo demoníaco do poder conquistado pela irracional força das armas.
Não admira, pois, que enigmas, feitiços, bruxas, adjurações, sinais e marcas, para além da guerra, fossem os terrores desde a nascença destas gentes, falados entredentes e sempre persignados, que, a cada acto da vida, regiam o seu quotidiano.
Raras vezes se aventuravam nos cumes do abixeiro.
Afirmavam convictas as gentes, persignando-se, que nesses cumes, num casebre isolado e em ruínas, vivia a velha "vještica (bruxa)" de quem ninguém sabia a idade e a origem.
Que a viram anos atrás já idosa, desgrenhada, rota e muito alquebrada pelo peso dos anos, suportados pelo cajado nodoso, pastoreando caprinos magros e sujos, mas - rebenzendo-se vezes sem conta - já foi vista desgrenhada, rota e de cajado sim, mas moça esguia bailando em torno dessa vara e sobre si numa alegria fantasiosa de cambalhotas e piruetas acompanhada pelos seus risos juvenis, mas enlouquecidos.
Desses lados do abixeiro, a nortada trazia sons distorcidos e ininteligíveis para o comum dos mortais bem como as tempestades, trovões, o nevoeiro e a neve.
- Que era "obra do Diabo", sim senhor! – mais persignaç6es e muitos "valha-nos Deus!", à mistura. De todos os males a acusavam; más colheitas, a morte das crianças e animais, incêndios, temporais e outras terrificas imputações quejandas.
Bem os inquietava - "Santo Deus" - essa figura, recortada no éter, ao cimo dos montes, quando queda como estátua e de olhar vivo inquirindo os vales, de beleza ignorada e cabelo desgrenhado ao sabor do vento, espiando "agoirenta" as gentes.
Não sabiam - nunca quiseram saber - que, anos antes, quase no principio do conflito, a velha "vještica" tinha encontrado, descia já a tarde no ocaso, na densa cumeada florestal, a pequena figura moribunda de uma jovem, outrora núbil e despreocupada no lar paterno, ensanguentada por estocadas assassinas e estuprada pela arruaça, a ralé que se auto denominava de "Vingadores", que a abandonaram de seguida, semi-saciados e apressados, como inútil fardo retardador da marcha predadora de almas. Tal vingança demente e irracional - os motivos são sempre variados, incoerentemente e escusos , porém, a ténue desculpa dos açougueiros - era já incapaz de torturar mais esse corpo esgotado. Outras vítimas saciariam a fome devoradora de medo e de dor. Outros corpos forneceriam generosamente a cupidez e as valas comuns. Este tinha-se consumido...
A velha "vještica", ao deparar-se com o horror, maldisse, gritando a revolta, os loucos "Senhores da Guerra" e os seus sequazes, debruçou-se sobre o vulto ainda palpitante e gemebundo e afastou-lhe os negros cabelos banhados de sangue da face, agasalhou-a com o seu manto negro desbotado e, servindo-se do fio de água nascente ali próxima, despiu-a dos
farrapos, outrora tecido de brocado, tingidos e colados de sangue e lavou todo o martirizado corpo com vagarosidade premeditada, retirando-lhe coágulos de vermelho seco e a sujidade terrosa. Algum tempo depois, retirando da sua debilidade física a força da raiva sentida, arrastou-a penosamente para junto do jumento, descarregou toda a lenha miúda do transporte que antes resgatara dolorosamente ramo a ramo do solo íngreme, montou-a e incitou o animal ao caminho do seu pobre e ainda distante casebre. 0 jumento, precioso companheiro da velha, talvez compreendendo a delicadeza da carga, progredia lento e seguro no terreno acidentado, seguido esforçadamente pela dona. Ali chegada, a velha arrastou-a uma vez mais e depositou cuidadosamente o delicado fardo sobre o catre revolto de peles curtidas e rotas mantilhas aconchegadas.
Destapou a jovem e, lavando de novo as dilacerações, numa confusão de incisões e contus6es, aplicou-lhes pensos de unguentos antigos, extraídos de plantas medicinais que tão bem conhecida, ligando-os de seguida ao mesmo tempo que entoava um canto lamuriento e arrastado que se confundia mais com uma oração inefável para os humanos que não a Deus.
Cobriu-a de peles; perdera muito sangue a coitada, o toque na sua pele de lírio era gélido de morte. Em expectativa, sentou-se à beira da cama, de olhos fechados em reflexão, mas ouvidos atentos A respiração dorida, agitada e entrecortada e aos delírios abantesmados da sua protegida, movendo-se apenas para refrescar a testa ardente com panos embebidos em água fria. Caberia agora à mão divina, ao tempo e vontade, o viver deste corpo aflautado pelo Mal.
Reflectia a velha "vještica" no passado distante; talvez na sua vergonha e dor de ser a mãe de três dos "Senhores da Guerra"; dois foram traiçoeira e barbaramente assassinados e um outro tão cruel ou mais que os algozes dos seus irmãos, ainda vivente e empedernido de juras vingativas, "povoava" a região de cadáveres e de abadias.
A vergonha do horror praticado exilara-se neste recôndito lugar. A solidão minara-lhe a razão e o sofrimento.
De repente sobressaltou-se... Estremeceu de um frio infernal. 0 pensamento feriu-a como um raio em cepo velho, fazendo-a arder de angústia. Teriam sido os companheiros do seu filho a “mancharem” esta alma? Ergueu os olhos para o negrume fumegado no tecto e apelou silenciosamente ao Criador que esta vida fosse poupada na Sua Santa Bondade.
Recordações sobraçavam turbulentas na mente desperta pelo pensamento tirânico.
Os seus filhos nasceram de um casamento ameno. Casara jovem donzela com um cavaleiro idoso que a respeitava, senhor de esplendoroso cantão cheio de fertilidade e de rurais. 0 cavaleiro era um mediador preferido nos conflitos emergentes das lutas de poder e riqueza. Sóbrio e sábio, conhecedor das artes medicinais, praticava a solicitude e a caridade.
Tentaram sempre educar os filhos no amor, compreensão e piedade pelos desprotegidos da sorte. Porém, os tempos vogavam relutantes sobre os escolhos da raiva incontida e de profundo ódio. Nem os "Senhores da Paz", como o seu esposo, conseguiam fazer regredir estes desvirtuados sentimentos. Tudo se desmoronava em redor; a ordem era a desordem imposta pela tirania; a Lei era letra morta inscrita em velhos alfarrábios ora empilhados em caves ora postos em fogueiras zombeteiras. A fé era um incómodo abandonado à indiferença. No entanto, ela vivera a felicidade recatada do seu canto até que...
Até ao dia em que, chamado a mediar um conflito entre os dois senhores mais poderosos da vizinhança, o seu esposo foi, pela traição, atraído a uma armadilha e esvaído da vida, 0 seu corpo despedaçado foi lançado na ravina do desconhecido - nunca fora recuperado - apenas ténues vestígios da matança. A noticia correu célere e caiu sobre ela qual dardo flamejante corroendo-lhe a carne e o espírito como insectos em cepo velho.
Sempre temeu que a desgraça se abatesse sobre os seus, mas nunca tinha desesperado até a dor sentida a ter feito perder a noção da realidade e a imergiu na abulia.
Nunca se sentira corajosa, talvez nunca o tenha necessitado. Recobrou-a, porém, quando, da boca dos seus filhos, ouviu proferirem juras de vingança. Tentara dissuadi-los, mas em vão - a "voz do sangue a vingar" falara mais alto. incapaz de os demover, chorou de vergonha a cada nova de vitórias destes senhores, que apenas tinham jurado vingar o progenitor, e, das suas atrocidades perpetradas sobre as populações arautizadas em proclamações triunfantes - os hinos da barbaridade...
Um dia deixou, fugindo, após a morte dos filhos mais novos, o adorado cantão, agora palco da miséria, arruinado, despido de gente e estéril. Ablegou-se voluntariamente e procurou na solidão um lenitivo para a dor trespassante das vilezas e morte dos filhos - lançadas irónicas aos seus desejos de paz e felicidade. Refugiou-se neste ermo casebre desolador.
Da guerra apenas lhe chegavam os ecos dos engenhos militares trazidos pelo pertinaz vento alado embatendo nos cumes e, muitas vezes nos seu deambular, a visão dos corpos mutilados jazendo grotescamente abandonados que a faziam condoer no mais intimo do seu ser e rogar a Deus a sua misericórdia, mas não arredá-la do seu trôpego caminho.
Neste dia, a fuga fora-lhe negada. Algo arquitectara esta armadilha, envolvendo-a, de novo, no conflito.
Um gemido mais forte da jovem fê-la voltar ao presente. Recolocou-lhe na testa outros panos húmidos e afagou o seu rosto, ainda exangue, branco de lírio espezinhado - qual açucena dilacerada por cruel tempestade - aqui e além magoado de violáceas contusões.
Perguntou-se quem seria, de onde viera, quem seriam os parentes e se eram vivos ou teriam perecido, também humilhados, às mãos dos algozes. A vítima tinha sido imolada em festim de abjeccionistas, em lugar recôndito, sem outras testemunhas que não os “restantes”.
A noite prolongou-se monótona e extinguiu-se na madrugada fria do próximo dia. A jovem gemia e balbuciava sons desarticulados, sem nexo. Não acordou deste sono pesado, mas a seu corpo espasmava, de tosse convulsionada, manchando os lábios finos de baba sanguinolenta. A velha limpou-lhe cuidadosamente a boca e esfriou-lhe de novo a testa. Uma lágrima seca despontou-lhe no globo ocular, humedecendo-o. Admirou-se; pensava não ter mais lágrimas para derramar, porém, a infelicidade desta criatura comoveu-a.. Só abandonou a vigilância sobre a infeliz para cuidar dos caprinos e do jumento, abriu-lhes a cerca e deixou-os a pastar na erva profusa e orvalhada. Gelada, arrepanhou alguma lenha da pilha à entrada da porta e, entrando no casebre, avivou a lareira deliciando-se com o renovado calor libertado. Colocou sobre as achas a velha chaleira com água e preparou a beberagem de plantas.
Beberricando o chá, afundou-se, de novo imersa, em memórias fugidias e soltou preces silenciosas pedindo-lhe a dádiva desta vida que lhe foi interposta no caminho.
Passaram-se dias a fio e a doente melhorou sensivelmente sem, no entanto, recobrar o conhecimento. 0 sono era, constantemente, quebrado por abstrusos pesadelos. 0 tempo, mais agreste pela aproximação da invernia que se adivinhava, decorria pachorrento. Cada dia, cada hora de um dia, eram fatigantes etapas conturbadas para a velha "vještica" que, entre o constante zelo pela sua protegida, os dividia no tratamento, menos cuidado, dos animais e a busca de provisões de plantas, frutos, agrários e lenha, imprescindíveis à sua subsistência.
Um dia, dos dias infindáveis, a velha senhora procedia à remoção das ligaduras e pensos, quando num abrir breve e fatigado de olhos semicerrados, a jovem balbuciou, quase inaudível:
- "Babuška! Babuška! (avozinha)" - mergulhando, de novo, na inconsciência.

2

O conflito degenerou em genocídio.
Mesmo entre os predadores da mesma estirpe, grassava a traição. Morria-se mais em usurpações de poder que propriamente nos campos de batalha, porque, de tão pejados de morte, os campos rivais acobardavam os confrontos e esgotavam os ávidos senhores dos "interesseiros validos". As tréguas arcavam de medição de forças e suspeita.
Porém, se as forças combatentes já não se digladiavam, esforçavam-se “corajosamente" a espalhar o horror, a pilhagem, a violação e a morte, em suma a tirania, sobre as gentes, sem clarividência de credo, partido, idade, sexo ou posição. Estes campos sofridos de agricultura sobreviventes de antanho, eram, neste tempo de martírio, de cores negra e cinzenta fumegantes, cultivados de putrefacção, juncados de sinistros predadores metódicos de carnificina, sedentos de carne e sangue que pudessem rasgar ou fazer jorrar. Morrer era um favor concedido pelo cansado desprezo da vida. Fugiam as gentes; refugiavam-se na incerteza de longínquas terras povoadas de mais temores.
Nas estradas do exílio arrastavam-se amarfanhados seres pejados dos parcos haveres que, consoante a fadiga galopante, eram deixados sobre o junco amorfo dos que a vida desistia e a morte ávida os acolhia. A fome, o frio e as razias dos salteadores maculavam a enlameada brancura da neve de tons diversos emoldurados, quase sempre, do vermelho coagulado. Os sobreviventes, de afaimado olhar esgazeado, demente, arribavam esgotados às esperançadas vizinhanças ainda de paz, enchendo o grosso dos desalojados ou outras valas comuns, mais cuidadas é certo, mas tão horripilantes, pelos ressequidos cadáveres amontoados em camadas de areia e terra, como as outras. Deixaram, estes sobreviventes, para trás os familiares mortos pelos aliados das guerras - a fome, o frio, os salteadores, os martírios, as execuções em massa, as violações, as torturas e outros actos similares – que pretendem glorificar os loucos e imolar os inocentes, e os bens, que tão parcos eram já supérfluos e extenuantes. Cuidar dos mortos era um esforço vão e surripiador de outras vidas e energias.
Abandonados eram os corpos ora em valas mal cavadas, ora em depressões naturais, ora sobre a mórbida paisagem. As intempéries, os animais, ou outras gentes, por medidas higiénicas, os lançariam em piras funerárias, e se encarregariam de os fazer desaparecer das vistas destas gentes. Apenas o cheiro nauseabundo se preocuparia em os assinalar, já que a ávida fuga pela avara vida os lançava no esquecimento de os assinalar nominal e religiosamente, numa tentativa bem sucedida de entorpecer a razão e o amor.
Os sobreviventes, silenciosos, suplicantes, desconfiados, quase sempre incompreendidos, uivadores quezilentos, rogavam sofrida piedade dos vizinhos, estes forçados hospedeiros preocupados pelo mar de gentes, que, em catadupa, desaguava infinitamente nos seus lugares de esperança pacifica, conspurcando-a com a incómoda guerra que não era deles, e que iria devorar a maior parte das suadas provisões e o risco potencial de os vitimizar pela intenção latente da generalização do conflito.
Entupiam, assim, os desalojados, as vizinhanças com marés de gente suja, doente, martirizada e de espírito infecto. A paz social era, assim, ameaçada para estes vizinhos que, não tendo tomado partido ou parte no litígio avassalador da região. Elevavam-se protestos e avisos preventivos em uníssono; uns, xenófobas, previam o apocalipse; outras, mais caritativas, afirmavam a calamidade, mas todos eram favoráveis à pacificação das nações conflituosas. Ora por economia interesseira ora por altruísmo abnegado das vizinhanças, "exércitos da boa-vontade" foram formados. A indiferença fora fortemente abalada; era premente impor aos "senhores da guerra" a cessação das hostilidades e forçá-los à negociação e ao compromisso, a tréguas duradouras, senão a Paz total. Era urgente confrontá-los com forças coesas e dissuasórias na procura incessante da estabilização e no cumprimento integral dos compromissos assinados, mas nunca antes assumidos na integra ou, useira e vezeiramente, ignorados e quebrados. Assim, tornaram-se atitudes e acções determinadas.
Ousara-se sentar à mesa das negociações os inimigos, outrora "poderosos", hoje meros e falsos pedintes de benesses e prerrogativas, e comprometê-Ios incondicionalmente à exacta observação dos acordos estipulados e transcritos.
Fácil fora destruir; bastava uma simples ordem e todos os engenhos de guerra percutiam a Ária do Caos em marcha grave e ribombante, raiando os limites da pretendida perfeição – Morte e Destruição . Sublime!!!
Missão titânica seria reconstruir.
Aliaram-se "os Senhores da Paz", mandatários que observavam e interpunham as suas forças para a separação, negociada ou forçada, dos litigantes. Porém, terminar estes conflitos é, decerto, urna tarefa árdua e morosa e só a perseverança alimenta o desejo pacificador. Era necessário construir o que nunca fora construído e reconstruir o que fora destruído; as edificações apenas precisariam de mão-de-obra, mas assegurar o regresso dos desalojados, reunir as famílias sobreviventes, cuidar dos órfãos e solitários, providenciar o seu tratamento físico e psíquico, em suma, ensiná-los a reviver, assim corno proteger os ainda nativos, deslocados internamente ou não, separar e integrar antigas vitimas e carrascos numa sociedade mais justa, procedendo judicialmente contra estes últimos, era a luta diária, com poucos avanços e muitos reveses, apadrinhada e declarada pelos "pacificadores".
Os símbolos de azul celeste e branco foram adoptados e arvorados no alto etéreo. Com eles, subiu a vontade férrea e os avisos implícitos dos mandatários da ordem e da paz.
"Cuidai-vos, nefandos predadores! A carniça não sustentará mais a fome do horror e da tirania que gerasteis!".
"Parem a destruição que paristeis!".
E na despedida acalentavam:
"Parti, pacificadores! Rezai e velai pela Paz!"
"Até breve, meus amigos! Pela Paz!".
Contudo, a Justiça tinha-se decidido pela injustiça do esquecimento e do pretensioso arrependimento. Vitrinas e carrascos teriam de conviver numa nova ordem inatingível que preservasse a paz possível. Só que os carrascos nunca largariam de bom grado as mordomias e os ataques esporádicos às gentes continuavam, sangrentos.

3

Os estrondos dos engenhos da morte pararam uma primeira vez em muitos anos.
Nessa noite, pesada de silêncio lúgubre, caída num cochilo cabeceante e fatigado, a velha "vještica" sentiu o estertor vivo da jovem que, abrindo os olhos em terror, afundou-se mais no leito, retesou o corpo, braços em posição de defesa amedrontada, e gritou; um grito profundo de surpresa inconsciente, o regresso da morte à vida e de expulsão de trevas passadas e males vindouros Soergueu-se e tentou fundir-se, em osmose, na parede confinada com o catre, onde se quedou indefesa.
Tentando aquietá-la, a velha dama falou-lhe carinhosamente e, apelidou-a, instintivamente, de "Meu Lírio" e "Meu Anjo", estendeu-lhe as mãos rugosas e trémulas num gesto acolhedor como a uma criança.
- Vem, meu Lírio, não tenhas medo! - encorajou-a a velha senhora.
- "Babuška? Babuška!" - titubeou, entre a interrogação e o espanto
- Vem, meu anjo!
Timidamente, a princípio, afastando o medo, largou-se sôfrega naqueles braços convidativos que a tomaram e embalaram vagarosamente num vaivém ritmado por monólogo cantante. Adormeceu a rapariga, num nanado sono sem pesadelos ou fantasmas, abandonando-se nesse aconchego trémulo, quente e protector. A noite repousou lenta e gélida no leito do sensual amanhecer que acordou preguiçoso, tristonho cinzento, opaco. A velha senhora depositou entorpecida o corpo de menina no catre, tapou-a com os trapos e mantilhas e, tremendo de frio, espevitou a lareira que remoía as brasas dormentes, deitando mais achas à voracidade das chamas vivificantes. Quedou-se, ai, talvez uma *meia hora, aquecendo-se e dispôs os preparativos para a confecção da sua parca primeira refeição do dia.
Parcamente alimentada, saiu a libertar as cabras do cerco na gelada vastidão íngreme, que esgravatariam o espesso manto branco procurando o pobre sustento e renovou a ração de talos cerealíferos secos ao jumento. Atrozes pensamentos ferviam-lhe, de novo acerados, a mente. Recordações pungentes da anterior vivência chegavam em catadupas A memória; 0 marido, os filhos, os netos, os amigos, os feitores, os servos, enfim todo o seu feliz domínio inundado de abundância e paz...
Relembrava a perca dessa felicidade em todo e território onde as disputas, quando geradas, eram eliminadas no acorde e na concórdia. Lembrava a brandura do esposo e o carinho dos filhos e netos. Raiava-se a utopia e a sensatez, o diálogo e o acordo, a paz e o bem-estar, a educação e o lazer. Perderam-se na ilimitada confiança que, traída, os lançou nos antónimos correspondentes.
- Onde estariam eles todos? - pela primeira vez em muitos anos do exílio imposto por si mesma, a família ocupou-lhe o pensamento Lançando-a nesta memória dolorosa.
- Teriam, eles, perecido ou sobrevivido à hecatombe?
A rapariga, na sua semi-inconsciência, tinha-a chamado "babuška", porquê?
Porque teria ela respondido, chamando-a de "Meu Lírio"? Ou ainda de "Meu Anjo"? - muitos porquês, filhos do desespero e da estupefacção, fizeram-na estremecer dolorosamente, emoções acobertadas de frio, e interrogar-se de novo:
E se aquela menina fosse...?
Não, não podia ser! Ou era...?
Exausta, outra imagem a trespassou feroz; a imagem de uma menina de tez de lírio - açucena agarrada ao seu colo, sorrindo zombeteira e travessa. Aquele seu Lírio querido que, quando assustada ou acossada pelos irmãos e amigos, se refugiava no seu regaço de avó, qual portão seguro das investidas infantis e dos ralhos paternos. A avó era a substituta eleita da mãe que perdera ao nascer – o que lhe faziam recordar sempre, ferindo-a, no seu mais íntimo.
Um aflitivo apelo interrompeu-lhe misericordiosamente o fluxo de pensamentos da figura pálida e magra reclinada e amparada à entrada do casebre que tomou a sua ateng3o:
- Gospođa (senhora)...! Gospođa!
Obrigou-se, a velha senhora, a responder-lhe confiadamente e a dirigir-se, tão lesta quanto a força física lhe permitia, para a figura esquálida e murmurou:
- Sim "meu Lírio", a "tua babuška" está aqui!
- E se...? - num último esforço expulsou os demónios, adormecendo a mente.

4

Dois anos se arrastaram penosos sobre os anteriores eventos carregando no seu rasto outros; uns promissores, outros desanimadores, mas que mudaram para sempre a situação politica e geográfica da região. Regressaram as gentes fugidas na esperança de se realojarem nas aldeias e lugarejos de origem e reaverem, assim, os haveres e o modus vivendi de outrora.
0 regresso, quase sempre forçado pelos detentores do poder na ânsia de escravizá-los aos seus domínios - quem, louco, governaria domínios despojados de súbditos? - renovava no espírito das gentes, sobretudo as mais idosas, a realidade jazente do desfilar de horrores e tormentos sofridos no passado, atingindo-as física e emocionalmente. A marcha inversa era cepticamente esperançosa de outros dias pacíficos e prósperos a acreditar-se nas promessas dos senhores sobreviventes.
Porém, chegadas, as gentes apenas engrossavam as fileiras dos deslocados; as terras e haveres há muito deixados ao abandono da salvação garantida tinham sido usurpados na voragem dos senhores, que, como recompensa, os tinham doado aos sectários mais ferrenhos e leais ou consentido a recolocação de outras gentes necessárias a sobrevivência dos feudos.
Assim, miseravelmente mantidos, ocupavam estes, também violentamente arrancados de outros domínios, os campos e casas de outros, pressupostamente ou não, mortos, desaparecidos ou ausentes, num desejo feroz de reterem as parcas benesses injustamente recebidas a que se aferravam cegos de posse. Tornavam-se os novos usufruários violentos e inimigos da vinda dos anteriores proprietários olhando-se de viés, desconfiança, desdém e maldição. Estas situações eram bem prazenteiras às ambições dos antigos carrascos que, numa ampla reviravolta de acção, acolhiam publicamente todas as gentes e propagandeavam a sua magnitude e caridade, mas nos sombrios camarins deste trágico-cómico teatro da vida urdiam mais alianças, tácticas, que espalhavam a discórdia entre as gentes descontentes forçando-as à desunião ou culpabilizando os senhores da paz dos males presentes e vindouros. Tentavam, assim, desviar a atenção popular que sobre si pendia numa tentativa quase conseguida de lançar na bruma do esquecimento a sua barbárie.
Jactavam, estes tiranos, para a população desavinda e esfaimada as “palavras de ordem” de promissores futuros ensaiando acções de duvidosa pacificação e governo. Vangloriavam-se em festas e romarias, onde se distribuía alguma comida e muito álcool, perturbando a razão e a justiça. A pantomina dos tiranos alardeava como se dissessem:
- Vede corno sou um bom soberano!
- Vede como sou magnânimo e piedoso!
- Vede corno me preocupo com o meu povo e como cuido dele!
- Vede os desgraçados que acolhi, alimentei e protegi!
- Vede! Vede! (mil e uma artimanhas de igual tom)!...
Se questionados sobre a sua tirania, defendiam-se e escudavam-se com a necessidade da auto-defesa; se confrontados com a sua vilania comprovada, acirravam os agradecidos sectários e ignorantes súbditos contra outras gentes mais ponderadas, contra os deslocados e contra os senhores da paz, invectivando-os de traidores, usurpadores e malquistos.
Proclamavam, rosnando:
- Vede os vossos inimigos! Eles tirar-vos-ão tudo o que vos doei e que é vosso. Eles vos expulsarão e despojarão das vossas vidas. Se não me protegerdes, não tereis uma mão forte para derrotar estes nefandos inimigos! Por isso, massacres, torturas, violações, eram infames acusações, eram métodos que desconheciam e nunca por si usados. Tudo era urna torpe invenção dos seus detractores.
Se acusados por provas inegáveis, afirmavam, traindo, que a culpa fora dos seus sectários que tinham desobedecido às suas ordens e / ou agido por risco e conta próprios.
Neste demorado vaivém de acusações e jogos de poder, arrastavam-se as resoluções pacificadoras dos “Senhores da Paz", entediando-as em teias viscosas do ignorar ou tardar do seu cumprimento fazendo-as naufragar em atóis de ignorância, do subterfúgio, do assassínio e da ameaça de quebra latente da paz, da ordem e do progresso.

5

É neste tempo ainda conturbado que vamos encontrar a jovem montanhesa cuidando de ociosos afazeres necessários à sua sobrevivência e a da velha senhora, pastoreando, colhendo frutos e lenha. A velha senhora cada dia se prostrava mais na melancólica abstrac9o da realidade e definhava de olhar perdido no tempo. Raras vezes mantinha com a sua protegida uma conversa coerente Os monólogos arrastavam-se no evo. A jovem, carinhosamente, com voz doce e meiga, tentava despertá-la desse acordado sono mental com um abraço ou na deposição inquieta da cabeça no regaço da sua "babuška". Por vezes, a velha senhora sorria e afagava os longos cabelos negros e desgrenhados da jovem com a mão trémula e exclamava - "AH! Estás aí" - para logo se afundar no pasmo.
Outras vezes, iniciava urna tagarelice, ouvida atentamente pela sua companheira que nunca a interrompia e, assim, decorriam as horas monótonas e os pachorrentos dias.
A jovem bem se inquietava, a princípio, deixá-la só, porém, a subsistência de ambas dependia disso e obrigavam-na a sair pela manhã. Nessas saídas, urna escondida ânsia de total liberdade, fazia-a ignorar as perigos, errar nos montes, correndo e pulando muito próxima de sedentos abismos reclamando a sua quota de vítimas e cúmplices neste ardor de secreto suicídio. Era, assim, que as gentes a viam e, consequentemente, se persignavam assustadas, em mil fervorosos sinais religiosos e pagãos e maldições. Quando a jovem, ao longe, descortinava estes campónios estacava, indagando-os desafiadora mente muda, altiva, quieta, e, rodopiando subitamente, empreendia a fuga numa desenfreada corrida até ao lugar mais remoto e protector. Não se perturbava facilmente, mas a fuga era-lhe inata e comandada do seu mais íntimo. Já longe, ofegante e exausta, rindo loucamente, regressava ao casebre e aninhava-se junto da velha senhora.
Mas, um dia, o destino, cioso desta aparente despreocupação e pressuposta liberdade, reservou-lhe preocupações e sofrimentos...
A manhã esmorecia na tarde quente desse dia sem história, quando, regressando ao casebre, colhia, despreocupada, flores e plantas. Quedou-se na clareira copada junto ao cristalino riacho que, tão límpido, lhe devolveu a imagem. Sorriu e acenou a si própria, traquina. Sentou-se e iniciou a sua coroação principesca com flores colhidas, mirando amiúde o resultado de tais enfeites. Ajeitou o comprido cabelo negro que se espraiou até aos ombros em cascata. Satisfeita com a transformação em ninfa, levantou-se e, em resolutas voltas e piruetas, qual talentosa bailarina, dançou gargalhando alto e recebendo o eco ritmado e a suave brisa, que se fazia sentir morna, esvoaçando os farrapos que cingiam a jovem e os seus cabelos revoltos. Para além do eco, a brisa trouxe consigo sons indistintos e confusos que, numa súbita pausa, fez parar o voltear em posição dolorosa. Escutou atenta...
Um relincho nervoso e um bater de cascos furioso soaram-lhe muito próximos. Outro relincho aflitivo trouxe-lhe a certeza da presença de algo. Pesadelos reavivaram-se na memória... Fustigadores, horrorizaram-na, e, num gesto instintivo, levou as mãos às cicatrizes do peito. Encetou uma fuga desordenada, arriscando a queda nos abismos, mas desafiando imaginários cavaleiros a perseguirem-na temerariamente. Num declive, lançou-se numa fenda e atocou-se bem no fundo ajeitando a vegetação sobre ela e apagando vestígios. De músculos tensos e convulsionados pelo esforço e pelo medo, fundiu-se no solo, não ousando, sequer, respirar. 0 tempo decorreu incerto...
Passaram-se horas até que se desvaneceram os efeitos do esforço e das emoções e a serenidade voltou sobre ela como um bálsamo retemperador. Lentamente, esgueirou-se do refúgio, ouvido bem atento, regressou para junto do riacho, e iniciou a recolha dos parcos haveres e provisões abandonados.
Outro relincho, dorido e inquieto, fê-la sobressaltar-se de novo, mas, desta vez, aguçou-lhe a curiosidade e venceu o medo. Estes resfolgar e o bater de cascos, agora bem nítidos e próximos, orientaram-na no espesso arvoredo. Irrompendo numa clareira, deparou-se-lhe, imponente, um garrano alvo sem mancha. selado e arreado, de crinas trançadas em cetim de cores branca e azul celeste Ao pressenti-la, tão perto, com upas enfurecidas, raspar de cascos, resfolgar espumado, e investidas ameaçadoras, tentava desencorajá-la a seguir, impedindo-lhe o caminho. Cavaleira experiente que fora, quedou-se dócil e murmurou palavras serenas, o que aquietou, um pouco, o animal. Estendeu a mão, num gesto lento, e chamou-o; hesitante e desconfiado, notando-se o tremor nos flancos, o garrano aproximou-se ainda ameaçador. O cavalo acercou-se e cheirou-a, aceitando, de seguida, o afago no focinho e pescoço. Murmurando incentivos e elogiando-lhe a beleza, a jovem continuou a afagar o cavalo e, passando aos flancos, deparou-os, horrorizada, ensanguentados assim como o lombo e sobre a sela. Inspeccionando, não detectou qualquer ferimento no animal que tenha gerado tanto derrame, apenas pequenos arranhões nas patas e flancos. Após a inspecção, pegou no cabrestante e tentou conduzi-lo para junto do riacho para o lavar desse sangue misturado de pó e suor, recebendo uma recusa determinada.
- Anda cavalinho... Anda, vou-te lavar e tratar. Anda... Vai...
Recebeu nova recusa e, pretendendo afastar-se e ver se o garrano a seguia, este empinou-se, relinchou, qual súplica, e empurrando-a com o focinho, mordiscou-lhe o ombro.
Confusa, questionou:
- Hé! Cavalinho, somos amigos, porque não vens...? Bem... Então, adeus... Vou-me embora! Vens?...
Recebeu novo empurrão e nova mordiscada; em volteio e empino breves, e trotava numa certa direcção como a dizer-lhe: -"Segue-me!" - e, perante a estupefacção da jovem, resfolgava abanando as crinas e balançando a cauda. Cogitou a jovem:
- Que queres, cavalinho? Que te siga? Onde?
E seguiu-o na direcção pretendida pelo animal que, num trote lento, a
guiou no matagal. Alguns metros mais e a visão súbita de um corpo caído, dobrado sobre si, e ensanguentado, a fez estremecer de horror.
- Um cavaleiro! - e dispôs-se a encetar nova fuga.
Porém, a inquietação do garrano e, numa melhor observação, espantada, notou que o cavaleiro não usava armas de qualquer tipo. Vestia vestes de tons variados de azul, entre o celeste e o ferrete. Condoída, e num esforço titânico, para a sua força de jovem, ele era pesado, virou-o de costas; seu peito estava manchado de sangue coagulado e profuso. Arrepiou-se e, num exaustivo afã, com troncos e ramos caídos, ligados entre si por liame, preparou uma maca arreando-a ao garrano. Arrastou, então, o corpo e depositou-o neste leito móvel e improvisado e, incitando o cavalo, encetou o regresso ao casebre.
A "Babuška" - pensou - saberia tratar do cavaleiro...
Não distava muito o casebre , mas, neste terreno irregular, e o estado crítico do paciente, cada passo deveria ser medido com cautela e evitar o balançar violento da maca no seu penoso arrasto do cavaleiro, que ora gemia dolorosamente ora balbuciava palavras incoerentes das quais a jovem só entendeu "Fidelis" que pareceu avivar o andamento do garrano. Chegados ao pátio interior do casebre, a jovem correu para o seu interior e, aninhando-se no regaço da velha senhora, exclamou ofegante:
- Vem "Babuška"! Vem, depressa! Ele precisa de ti... Anda, vem "Babuška"!... – e puxava-lhe pelas mãos...
A velha "vještica" volveu o olhar perdido para a jovem e, com a mão trémula e sobressaltada, afagou-lhe os cabelos:
- Que tens meu "Lírio"? De que foges?
E, perante a insistência teimosa da jovem, levantou-se penosamente, murmurando:
- Pronto! Já vou...
O dia esbatia-se na tarde, mas a luminosidade exterior provocou-lhe a cegueira momentânea e ela interpôs uma mão entre o sol e a vista tentando enxergar, parada no portal.
Reposta, avançou para a maca e tocou o corpo estirado do cavaleiro e, subitamente, para surpresa e susto da jovem, gritou de lancinante angústia e revolta, ao mesmo tempo que, com o seu bordão ameaçava os fantasmas presentes, escorraçando-os:
- Malditos, vermes! Que lhe fizeram, desgraçados! Corja de assassinos... Como ousaram tocar num senhor da Paz"?...
Ajoelhando, chorosa, auscultou a vida daquele corpo jazente e, frenética, vociferou para a atónita jovem, e num apelo feroz, ordenou:
- Depressa, ajuda-me! Ele vive! Essa corja não ceifou esta vida...
Ajuda-me! – tentando soerguer sozinha o cavaleiro e, afagando-lhe a face lívida, limpando-a dos coágulos e sujidade, murmurou para ele:
- Não morras, cavaleiro! Não os deixes vencer-te, aqueles miseráveis.
- Vive, "Senhor da Paz"... - e, gritando para a jovem do novo - Lírio,
ajuda-me a levá-lo para dentro! Vamos tratar dele... Vem...
Cuidadosamente, num esforço titânico, depositaram-no no catre e despiram-lhe as vestes ensanguentadas. As roupas removidos, a ferida no
peito reabriu e o sangue jorrou de novo. A respiração débil e agitada, motivada pela perda de sangue, indiciava a urgência de estancar aquele fluxo sanguíneo. Os pulmões seriam congestionados e comprimidos pelo ar exterior, e a embolia surgiria mortal a qualquer momento. 0 cavaleiro apresentava a cor lívida e exangue e antevia-se, nas pálpebras semicerradas, as pupilas dilatadas. Delírios febris agitavam o seu corpo. Com compressas e pressão sobre a ferida, a velha "vještica" estancou o sangue. Aquecendo água e juntando-lhe folhas secas do plantas com propriedade medicinal, tão suas conhecidas, preparou uma infusão que adictivou a emplastros e lavaram ambas o tronco do cavaleiro retirando-lhe os coágulos e a sujidade colados.
Depois, prepararam uma ceia frugal e, durante a refeição, a jovem, impulsionada pela dúvida que fervilhava nos seu íntimo, inquiriu a velha senhora:
- "Babuška"! Que é um "Senhor da Paz"? Guerreiros?
- Sim! - retorquiu a velha senhora - os "Senhores da Paz" são cavaleiros que não fazem guerras. Eles interpõem-se entre as "Senhores da Guerra" separando as campos e mediando as tréguas e conflitos.
E, como exemplo, narrou a sua origem, quem fora, de onde viera, quem eram seu marido e seus filhos e porque se exilara. A jovem ouviu-a atentamente sem ousar interrompê-la.
- E tu meu "Lírio"? Nunca saberás quem és e donde vieste? Conseguirás, algum dia, explorar as sombras da tua mente e rasgar esse negro véu quo te oculta a passado?
Um silêncio sepulcral inundou a casebre. Num doloroso esforço mental, a jovem tentou recordar-se do si; o nome, a família, os lugares... . Mas em vão. 0 seu segredo continuava impenetrável... Sobrevieram as lágrimas.
- Não "Babuška"! Não me lembro de nada... - finalizou a jovem soluçando.
A velha senhora afagou a face da jovem e, maneando a cabeça num sinal de compreensão, acalmou a jovem:
- Não chores, "meu Lírio"! Não te atormentes à toa... Serás, simplesmente, o "meu Lírio"... A menina doce e afável que faz companhia a esta velha tonta...
Um gemido mais audível do ferido interrompeu-lhes o curso dos pensamentos; em estado crítico e febril, o cavaleiro digladiava-se com a morte.
- Nada mais posso fazer por ele! - afirmou a "vještica" - Mas... Tu sim minha doce Lírio. Desce ao povoado o procura a ajuda dos seus pares ou onde eles se encontrarem.
- Não! "Babuška"! Não!!! - gritou aterrada a jovem - Eles odeiam-nos! Não "Babuška"! Não irei... - rebelou-se angustiada a jovem.
- Tens de ir "meu Lírio" se queremos que ele sobreviva. Terás de descer ao povoado... É necessário que ele sobreviva...
- Não irei! - teimou a jovem
- A bala está alojada no seu peito. Ele piora a olhos vistos. Se não for assistido por um médico, ele ,morrerá decerto. A sua vida está agora nas tuas mãos, meu Lírio.
- Não posso... – retorquiu a jovem, e fugiu para o exterior...
Pouco tempo depois, ouviu-se um bater de cascos e um grito de incitamento. A jovem vencera o asco e o medo e partira, galopando.
- Que Deus te acompanhe e proteja, meu Lírio! Traz ajuda depressa ou este cavaleiro morrerá - murmurou a velha senhora - Trota, célere... Mais que a Morte... A Morte espreita agoirenta e ávida...
A noite cerrou-se escura e enevoada.
Amazona e garrano lançararn-se temerariamente nos declives descendentes adivinhando mais o percurso que vendo. Na negritude da noite, os fantasmas perseguiram-nos, ainda benévolos, e por entre as árvores, uivavam indicando o sinuoso carmino e apressando a marcha. Tomara que não se humanizassem, malévolos. Diriam os mais afoitos que o vento soprava agreste, outros mais temerosos, que as abantesmas batiam as asas por entre os espectros do arvoredo.
Lírio sentia-se perdida nesta aventura nunca antes vivida. A masmorra nocturna envolvente prendia-a no medo, aterrorizando-a.
- Vamos "Fidelis" - incitou a jovem – Coragem!... - incentivou a amazona numa tentativa de esconjurar o terror. - YahI Yah! Vamos!...
Cerca de urna hora depois, a jovem avistou a povoação e, cansada assim como o garrano que, embora robusto, vacilava num trote fatigado, espumando e suando abundantemente, esporeou a montada quase exausta. Ao entrar na praça central, deserta em hora tardia, despertou a curiosidade o súbito bater de cascos a galope e, alguns residentes das casas em redor, espreitaram entre curiosos e incomodados. Alguns, mais afoitos, depararam incrédulos com as figuras recortadas da amazona desgrenhada e coberta de trapos e do cavalo resfolgando na serni-penurnbra das luzes amarelo-frouxo das candeias que trespassavam a noite exterior.
Sustendo a marcha, a amazona, numa voz forte e impessoal, gritando,
interpelou os presentes:
- Dizei-me onde encontrar os "Senhores da Paz!
Alguém, de entre o aglomerado curioso das gentes, gritou:
- A "vještica"!.. . Ela é a "vještica!...
E os invectivos irromperam brutais de entre a massa populosa alastrando-se como chama devoradora. As pedras fluíram e atingiram amazona e garrano, que se empinou. A amazona vacilou, mas manteve-se montada à custa da sua vontade de sobrevivência e raiva e, perante a populaça em motim e armada de varapaus e forcados, esporeou o garrano galopando em brida. A arruaça perseguia-os ululante. A cavalgada alucinante rompeu o cerco de ódio.
Quase liberta do cerco, à amazona depara-se o vulto choroso de uma criança estatelada no solo, que a arruaça abandonou precipitada, e, por milagre, não a espezinhara.
Porém interpunha-se no caminho de fuga da amazona que, mesmo em pânico, discerniu suster a acossada cavalgada, desmontar desabrida e socorrê-la.
A criança, num gesto instintivo, agarrou-se frenética ao seu pescoço.
Estacaram, os arruaceiros, estupefactos, mas ainda hostis, balançando os sentimentos entre o medo da "bruxa", a sua indecisão perante a sua atitude e a sua sede de presumida vingança. A visão da jovem em atitude de
desafio, corno fera acossada e progenitora, esfarrapada, desgrenhada, sangrando, segurando, protectora o menino contra si, era devastadora para os corações ignorantes.
A populaça recuou e, num momento, abriu alas a um jovem mancebo de porte distinto, acompanhado de uma senhoria e criados, que afastaram as gentes, pela demonstração de força armada, controlando-os. 0 casal dirigiu-se à amazona, que parecia ir desfalecer a todo o momento; a jovem fidalga tomou dos seus braços a já aquietada criança e, inquirindo a multidão com o olhar, descortinou a mãe a quem chamou e lhe entregou o rebento. Seu jovem esposo, amparava a amazona e reiniciaram a marcha inversa até ao solar sobranceiro da praça. Um criado segurou as rédeas do nervoso garrano e conduziu-o seguindo o cortejo. Silenciaram-se as gentes.
O fidalgo ordenou:
- Ide para vossas casas... Esta jovem está sob minha protecção!
Não ousaram contestar e regressaram, lentamente, cabisbaixos para as casas.. Até o ladrar dos cães se desvaneceu pouco a pouco. O silêncio e a calma reinaram, de novo, no povoado.
Já perto da entrada do solar, a amazona desfaleceu à emoção e aos ferimentos e foi levada em braços pelo jovem fidalgo para o interior onde, num quarto, e sobre um dossel, a depositou gentilmente. A testa da jovem apresentava um golpe sanguinolento e violáceo. A sua face estava coberta de fios de sangue que escorreram do ferimento.
Chamadas as criadas, a jovem esposa do fidalgo comandou os preparativos para as ablações necessárias e o tratamento da amazona. Despiram-Ihe os farrapos e iniciaram a tarefa de cuidar desta pobre jovem vitrina da ignorância e malvadez dessa gente, também eles vítimas, desnorteadas e fanaticamente crédulas e vingativas.
No meio das ablações, a amazona acordou da sua letargia, e aflita, tentou evitar as atenções e levantar-se, dizendo:
- Tenho de ir... – mas impedida e exausta, rogou à fidalga - Por favor, deixai-me ir, senhora... É urgente Por favor, senhora... Tenho de ir...
Esta vã tentativa de se levantar prostrou-a de novo e os soluços começaram. Com eles vieram as lágrimas.
- Tenho de ir... É urgente que encontre os "Senhores da Paz”. Obrigado por tudo, mas tenho de ir...
- Ficai Senhora! - disse a jovem esposa - eu enviarei alguém contactar os "Senhores da Paz". Descansai agora... Peço-vos – e, dirigindo-se a alguém que se aproximava da entrada, ordenou - Vai! Monta o alazão mais veloz e diz - lhes que me venham visitar o mais urgente possível. Ide, peço-vos, rápido...
- Sim, Senhora! Voarei... - e o criado saiu correndo.
Pouco tempo depois ouviu-se um novo cavalgar a afastar-se na direcção do Sul.
- Que calamidade se avizinhava para os "Senhores da Paz" acorressem urgentemente? – cogitou a jovem fidalga - Quem era a desconhecida amazona e porque lhe chamariam as gentes "viještica"?
O amanhã muito próximo, traria as respostas, boas ou más, e que Deus os ajudasse a todos!
Saiu do quarto e juntou-se no salão a seu jovem esposo, que a beijou, e repousaram, sentados e enlaçados, sobre um sofá, neste imponente salão do solar, calados, pensativos e expectantes...

Rompeu a manhã violentamente quente e coberta de ondas sufocantes. A amazona dormitava solta quando foi bruscamente acordada pelo tropel de muitas cavalgaduras entrando no pátio lajeado do solar.
Perdida, em leito aconchegado de cetim, olhou confusa em seu redor.
Inquieta, semi-vestida de tule verde e branco entrelaçados. Os seus farrapos tinham-se volatilizado como, de um dia para outro, de montanhesa rude transformou-se numa bela princesa, Levantou-se dorida, mas, por gaiatice da sua jovem idade, mirou-se ao espelho e espantou-se.
- Seria ela, ali reflectida?
A imagem , por breves instantes, confirmou-lhe a verdade, mas interrompeu-a quando a porta do quarto se abriu e uma jovem entrou e a saudou, efusiva, beijando-a duplamente nas faces:
- Descansou bem, Lírio? – e, perante um aceno afirmativo, prosseguiu
- Os "Senhores da Paz" chegaram e esperam-na no salão grande. Mas não nos apressemos escusadamente. São cavalheiros e sabem esperar pelas damas. – gargalhou, piscando, travessa, seus olhos de jade.
Do seu guarda-roupa a jovem esposa dispôs à escolha da amazona vários trajes, dos mais femininos aos mais másculos, como um fato de montar, que despertou, de imediato, a preferência da amazona. Escolheu, assim, um fato castanho claro, uma camisa folhada de cetim rosa, e botas de couro castanho, um chapéu de feltro da mesma cor, empenado, e um pingalim. Nas botas, as esporas prateadas tiniram a cada passo. Ajudada pela jovem dama, penteou seu cabelo negro, que se espraiavam nas costas até aos rins, agora não desgrenhado, arrepanhou-o numa trança única, que lhe caía sobre o lado esquerdo, arrematado por urna fita de cetim verde-escuro.
Coloriu as faces pálidas com um pouco de creme rosado, negando qualquer outro embelezamento.
- Está linda, Lírio! – afirmou a jovem anfitriã - Vamos descer e oferecer aos cavaleiros, que nos aguardam, sequiosos, as nossas belezas - gargalhou, matreira, piscando um olho a Lírio, - Vamos, Lírio!..
Deram as mãos, como se irmãs fossem, - eram já - guiou-a por corredores e escadarias do enorme solar e introduziram-se, sem anúncio, no salão onde os cavaleiros, de vestes de azul-céu e ferrete, se encontravam conversando. Ao ouvi-las entrar, levantaram-se respeitosamente, cumprimentando-as, com inclinações ostensivas.
Com eles estava o anfitrião, também vestido de igual, que tomou a mão de Lírio, osculando-a, e a apresentou aos restantes cavaleiros. Depois, todos se sentaram à mesa onde desjejuaram rápido, em detrimento das iguarias postas.
- Apresento-vos, senhores, Lírio, de quem já conhecem parte da história que aqui vos trouxe. De seguida, iniciaremos a campanha para resgatar o nosso bom amigo lovan. Os preparativos já estão terminados, apenas nos resta iniciar a marcha.
Um dos cavaleiros, erguendo os olhos ao céu, afirmou peremptório:
- lovan, viva! Vamos!
E todos os cavaleiros e damas presentes lançaram uma oração muda, mas sentida.

6

Pouco tempo depois, montados os animais de montaria, a coluna de socorro iniciou a marcha, primeiro em vivo galope, mas, pouco a pouco, num trote lento a até a passo devido à escalada íngremes sinuosa dos montes nortenhos. Fora as ordens e incitamentos aos animais, a comitiva percorreu todo o trajecto demoradamente silenciosa. Poucos eram os intervalos de paragem e descanso. Havia um frémito de urgência cautelosa, pairando no ar. 0 termo decorreu moroso, difícil, nervoso e cansativo, mas, por fim, alguém exclamou:
- 0 casebre!... lovan vive!
Junto ao casebre, flutuava ao vento nordestino, num mastro improvisado, e num galho de árvore ao alto, urna flâmula azul celeste.
A visão daquela flâmula e incentivados pelo grito animador, a comitiva apressou o passo e avançou célere e de esperança renascida.
À entrada do casebre, apoiada no seu nodoso bordão, estava a velha viještica, acenando-lhes. A jovem amazona desmontou a correu para ela, abraçando-a, e, num olhar implorativo, interrogou-a:
- Sim, meu Lírio! 0 cavaleiro vive - e, dirigindo-se à comitiva, ordenou:
- Vinde, depressa! Ele precisa de vós...
E, estirado, encontraram o doente febril, exausto, lívido, delirante a
agitado. A infecção e a febre dominavam aquele corpo robusto, apesar dos cuidados primários prestado pela velha senhora.
0 cavaleiro sobrevivia, quiçá, graças à sua tenacidade de vida e à sua resistência física. Neste cenário, o médico ordenou todos os presentes que se retirassem e iniciou os preparativos para uma operação urgente.
Mover o doente, naquele estado deplorável, seria matá-lo. Assim, arriscou-se, de imediato, a uma intervenção cirúrgica em ambiente adverso.
0 projéctil tinha-se alojado no tórax tendo perfurado os pulmões e no iminente risco de cortar a aorta. Fora um milagre ter sobrevivido tanto tempo.
A operação decorreu lenta e apreensiva. No se falava nas imediações, receando despertar maus espíritos, e os únicos sons eram os provenientes do vento, os do balançar das árvores, os do balir dos animais e os do piar das aves. Em suma, sinais da vida que decorre natural, afastando a morte.
De súbito, em tempo indeterminado, o cirurgião reapareceu à entrada do casebre, antes improvisada sala de operações, serenando os ânimos e pedindo Fé.
- lovan vive... Todos os cuidados lhe foram prestados e a bala retirada. Aguardemos... - e num murmúrio:
- Se essa for a vontade de Deus!
Os presentes pareceram secundá-lo nessa prece silenciosa.
E mais tempo decorreu inexoravelmente ainda mais lento e precioso.
Ao cair da tarde, os preparativos de acampamento da comitiva estavam prontos, as montadas descansadas, pastoreando no campo, assim como as bestas de carga. Preparavam-se os cavaleiros e para passarem a noite nesse monte bravio em que o sono não chegaria decerto ou, se sobreviesse, seria exausto e preocupado. A noite estava límpida, as estrelas brilhavam e o luar iluminava o lugar espalhando as sombras da quietude...
Lírio repousava exausta em cama improvisada sob a tenda montada.
Apenas o medico, os cavaleiros e a idosa dama velavam, sem descanso, o paciente.
Este piorava a olhos vistos, a perda de sangue tinha sido copiosa, o cavaleiro estava exangue; Lírio acordou na madrugada com os sussurros de angústia intervalados de novos preparativos médicos.
Falava-se de transfusão directa de sangue dos presentes para o doente - método arriscado para o dador e o doente, os corações teriam de estar em sintonia completa – a exaustão grassava... Até que, uma voz sumida, ressoou atrás de todos:
- Ele terá o meu sangue... – e perante o espanto de todos, voz mais alta e enérgica soou – Será o meu sangue!
O médico, perante a hesitação e quase renúncia da dádiva, apoiou incisivo, contrariando quaisquer outras perguntas ou negação:
- Lírio, tem razão. Ela descansou e é a mais jovem de todos!
Puxou-se um catre desmontável para perto do leito do paciente,
elevaram-no mais alto e nele deitaram cuidadosamente Lírio, que, fazendo jus ao seu nome, apresentava a tez pálida e fria.
Do braço da jovem jorrou vida para o corpo do cavaleiro... Seus corações batiam em uníssono.
Terminada a tarefa, saíram e deixaram Lírio a repousar lado a lado com o cavaleiro inerte, mas respirando mais aliviado e compassado.
Exaustos, também da longa noite, médico, idosa e cavaleiros recolheram aos aposentos montados em tenda. E mais tempo decorreu...

7

Iovan recuperava na inconsciência bem-vinda dos medicamentos até a um doloroso e incerto despertar e contínua prostração em torpor. Seu espírito vagueava entre a linha ténue da vida e morte.
De repente, algo dentro de si, o fez abrir os olhos e estufar o ambiente onde se encontrava. Nenhuma ideia possível depois do ataque que fora vítima. E seu olhar percorria tenso e inquiridor, meio desperto, o ambiente até que embateu na figura feminina deitada no catre a seu lado... Linda, pensou, mas tão pálida, quem seria?
Tentou erguer-se e lancinantemente desfaleceu sobre a cama. Ai! – murmurou – isto dói...
Tentou, mais calmo, recuperar a respiração arfante. O seu peito parecia emparedado em feixes de dor.
Para se abstrair dessa dor, passeou o olhar na jovem, sem pudor algum, delineando-lhe as linhas do rosto e corpo lentamente como se absorvesse cada traço.
O seu olhar insistente fez despertar a jovem que corou...

Nota do autor:
O restante deste capítulo foi omitido pelo autor, assim como o todo o capítulo seguinte, por os achar desnecessários à história.

9

E o cavaleiro, montado no seu cavalo branco, partiu sem se voltar, omitindo as emoções.
Lírio, qual estátua no cimo do monte, acompanhou com o olhar a figura de Iovan até esta se perder no horizonte.
Apenas a sua mão direita esboçou um gesto de adeus e a sua mão esquerda repousou sobre o ventre liso. Seus lábios tremeram num sussurro:
- Adeus, Iovan, meu irmão de sangue... Levas o meu em ti e eu...
O resto do pensamento encerrou-se em si e não foi mais transmitido
aos seus lábios, agora finos e cerrados.

FIM

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quinta-feira, março 7, 2013 - 22:25

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