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O fantasma da velha escola - 3

No dia seguinte, José Afonso voltou a provocar Alfredinho:
-Vamos, homem, aceite o desafio. Pense bem, nós vamos juntos. Eu vou filmar você e todo mundo vai saber que a história do fantasma da velha escola não passa de lenda urbana.
Pela primeira vez, Alfredinho pareceu pensar seriamente na ideia. Ele podia estar pensando na chance de deixar de ser o CDF boboca, o nerd que vivia com o nariz enfiado nos livros e se tornar o corajoso, o que tinha coragem de ir a um lugar abandonado e supostamente mal-assombrado para provar que fantasmas não existiam. Olhando bem para José Afonso, ele falou com uma firmeza que ninguém ouvira antes:
-Pois bem, vamos.
José Afonso, contendo a vontade de zombar do palerma que caíra na armadilha que Marcão e ele haviam preparado, disse:
-Ótimo, você não vai se arrepender. Vamos fazer um filme e tanto. 
-Como vamos iluminar a escola? É óbvio que a eletricidade foi cortada.
-Eu vou levar uma lanterna. Não se preocupe, pensei em tudo.
"Pensei em tudo mesmo, seu paspalho. " José Afonso pensou.
Quando tocou o intervalo, José Afonso falou com Marcão:
-O tonto topou.
-Então, vamos preparar tudo.
Os dois riam e riam, não vendo Lilith, que os espiava de longe. Ela vira José Afonso conversando com Alfredinho e, ainda que não pudesse ouvir o que haviam falado devido à distância, adivinhara sobre o que fora pela expressão vitoriosa no rosto de José Afonso. Os olhos escuros da menina adquiriram uma expressão pesarosa de quem previa acontecimentos indesejados.
À noite, José Afonso saiu às escondidas de sua casa e foi à casa de Marcão. Ligou o celular e Marcão atendeu.
-Marcão, estou aqui, como combinamos.
-Já vou.
Marcão saiu. Usava um casaco com capuz para ocultar o rosto. José Afonso perguntou:
-Fez direito a maquiagem?
-Claro, rapaz. Veja. desceu o capuz.
O rapaz usara tintas branca e preta para dar ao rosto a aparência de uma caveira. José Afonso fez o sinal do polegar para cima.
-Horrível, meu!
-Tem que ser, ou senão ele não morrerá de medo. E a câmera?
-Está aqui, escondida debaixo do meu agasalho. Agora, vamos pegar o paspalho.
Enquanto andavam, Marcão sentiu um frio estranho na espinha, o que o colocou em alerta. Por que estava sentindo aquilo? Não entendeu, principalmente depois que lhe ocorreu o inexplicável pensamento de que os destinos de José Afonso e Alfredinho estavam ligados ao dele. Afastou a ideia de sua cabeça, consciente de que precisava prestar bastante atenção para que a brincadeira desse certo.
Quando estavam perto da casa de Alfredinho, Marcão foi se esconder atrás de um muro e José Afonso ligou seu celular.
-Alô, Alfredinho? É o José Afonso. Pode vir?
-Claro. Espere.
Esperaram um pouco. Alfredinho abriu o portão, saindo. José Afonso perguntou:
-Está pronto?
-Mais do que pronto. Veja, tenho uma lanterna.
-Vamos.
Foram andando e, sem que Alfredinho visse, José Afonso fez um sinal para Marcão, que foi seguindo a uma certa distância. Alfredinho esfregou as mãos e parou de andar por uns segundos.
-Que foi?
-Frio.
-Não está tão frio assim, ora!
-Mas houve outra coisa.
-Que coisa?
-Sinto que estamos sendo seguidos.
José Afonso olhou para trás, fingindo que verificava. "Diabos, ele sentiu que o Marcão está atrás de nós?".
-Não há ninguém. Vamos.
Finalmente, alcançaram a escola. José Afonso disse:
-Chegamos. Agora, vamos subir o muro. Você consegue?
Alfredinho tentou, mas não conseguiu. José Afonso se ajoelhou, colocando as palmas das mãos para cima.
-Vamos, eu lhe ajudo.
Alfredinho colocou o pé e José Afonso o ergueu, ajudando-o a subir enquanto pensava:" Esse idiota não serve para nada mesmo."
Logo, Alfredinho pulou o muro e José Afonso fez um sinal para Marcão para que se aproximasse. José Afonso subiu e pulou o muro e, reunindo-se a Alfredinho, acendeu uma lanterna e pegou a câmera enquanto Alfredinho acendeu a própria lanterna.
-Pronto?perguntou.
-Sim.
-Vamos à parte leste. Dizem que é onde fica a escada de onde a menina caiu.
-Certo.
Marcão escutou os passos deles se afastando e subiu o muro. Porém, quando pulou, caiu de mau jeito, torcendo o pé. Tapou a boca para não gritar de dor.
-Ai, eu não vou poder assustar o paspalho! resmungou, sentando no chão de pedra.
José Afonso e Alfredinho foram ao lugar onde ficava a escada, que não era muito grande.
-Vamos subir.
As lanternas iluminavam a escuridão.
-A escada tem corrimão. Só alguém muito descuidado cairia dela, Zé Afonso.
Haviam chegado ao primeiro andar. Viram que havia várias salas fechadas. José Afonso filmava. Esperava que Marcão estivesse aguardando no fim da escada. Viu que Alfredinho parecia sentir calafrios. 
-Que foi?
-Você não sente, Zé Afonso?
-Sinto o quê?
-O frio.
-Não, não sinto frio nenhum".
"Que cara fraco, meu Deus! É friorento e não sabe pular um muro!"
-Aliás, Alfredinho, aqui não há nada.
-Então, vamos descer.
-Você desce primeiro. Eu vou ficar mais um pouco. Desça e me espere embaixo.
-Certo. Por que vai ficar mais um pouco? 
-Quero filmar mais. Isso vai render um vídeo e tanto. Por acaso, está com medo de ficar só?
-Eu não, vou descendo.
-Desça com cuidado.
"Já estou imaginando os gritos que o tonto vai dar."
Alfredinho desceu e ficou esperando, mãos se esfregando com força. Achava aquele frio estranho. Ele nunca fora friorento e estava sentindo frio como se estivesse doente. Ficou andando em círculos, esperando por José Afonso. Por que ele não descia? Foi andando mais e escutou barulhos como se fossem gemidos. Apurou os ouvidos e tremeu. Seria o fantasma da menina?
"Não, os gemidos são masculinos. E parecem os de alguém que se machucou. São gemidos de gente viva, não parecem de fantasma."
Caminhou na direção deles e viu um vulto sentado, segurando o pé e gemendo. Aproximou-se.
-Zé Afonso, eu torci o pé!
Alfredinho reconheceu a voz de Marcão.
-Marcão, o que você está fazendo aqui?
-Alfredinho?!
Alfredinho pegou a lanterna e iluminou o rosto de Marcão. Ao ver a maquiagem do colega, adivinhou tudo e a surpresa deu lugar a uma raiva imensa.
-Seu cachorro safado!Você e o Zé Afonso queriam me pregar uma peça, não é? Trouxeram a câmera para me filmar levando um susto e espalhar o vídeo na Internet! Tudo só para me humilhar!
-Alfredinho, torci o pé. Por favor, me ajude.
-Por que eu deveria? Você e o Zé Afonso não valem nada, são dois nojentos!
-Cadê ele, aliás?
-Ficou lá em cima! Acho que está estranhando porque não me ouviu gritar de medo do fantasma fajuto do amigo dele!
-Vamos chamá-lo e ir embora. Ajude-me.
Hesitante, Alfredinho ajudou Marcão, oferecendo o ombro para ele se apoiar.
-Credo, você pesa, fantasma!
-Por favor, Alfredinho, não acha que já fui bem castigado?
Caminharam devagar, com Marcão se apoiando em Alfredinho, o qual o xingava com os piores nomes.
-Alfredinho, não judia!
Pararam ao escutar um grito de puro terror.
-Ahhhhhhhh!
Entreolharam-se. Fora José Afonso que gritara.
-Meu Deus, Alfredinho, o José Afonso gritou!
Logo em seguida, escutaram o barulho de um corpo caindo e, por um minuto, não conseguiram dizer nada.
-Marcão, o Zé Afonso caiu da escada! Temos que ver como ele está!
Não puderam fazê-lo. Um medo paralisante fizera seus pés se colarem ao chão.
-Alfredinho, será que foi o fantasma da menina que o fez cair?
Alfredinho só conseguia pensar em Lilith. Ela havia dito que ele não fosse lá, mas ele fora. Agora, José Afonso podia estar morto.
-Alfredinho, vamos embora!
-E José Afonso?
-Se ele morreu, que podemos fazer? E o fantasma pode estar lá, à nossa espera!
-Mas e se ele estiver vivo?
-Ele não pode ter sobrevivido! Vamos!
Embora Alfredinho soubesse que deviam ver se José Afonso estava vivo, o medo do que pudessem encontrar foi maior e ele concordou.
-Tem razão, vamos.
Marcão, apoiado em Alfredinho, começou a sentir algo muito diferente do medo imenso: remorso. Sabia que José Afonso podia estar vivo e precisando de ajuda, mas estava abandonando o amigo. Imaginou-o estendido no chão após rolar pela escada, sozinho e desamparado, sem poder pedir ajuda enquanto agonizava, ou morto.
Andaram e, ao chegarem ao muro, Alfredinho precisou ajudar Marcão. Fê-lo, mas reclamando:
-Você pesa demais, Marcão!
Depois, Alfredinho, após muita dificuldade, conseguiu subir o muro e, depois de descer, ajudou Marcão, que lhe pediu que o ajudasse a voltar para casa.
-Por que eu deveria depois do que você e o Zé Afonso tentaram?
-Por favor, Alfredinho.
Com má vontade, Alfredinho amparou Marcão e foram andando até a casa. Marcão abriu o portão de sua casa e entrou.
-Obrigado.
-O que dirá a seu pai sobre o pé torcido?
-Não sei.
-Os pais do Zé Afonso vão sofrer com o desaparecimento dele.
-Vão sim. O que vamos fazer? 
-Não sei.
-E se chamarmos a polícia?
-Todos saberão que fugimos e o abandonamos, Alfredinho. É isso que você quer que aconteça?
-Ele é seu amigo, Marcão, seu melhor amigo.
Os olhos de Marcão se encheram de lágrimas. 
-E pensa que eu não estou pensando nisso? Que na hora que meu amigo precisou de mim, eu fugi como um covarde? Eu não fui capaz de ajudar o meu amigo! Vou me odiar pelo resto da minha vida!soluçou.
Pela primeira vez, Alfredinho pensou que ele também fora covarde e sentiu um nó na garganta. Disse:
-Vou para casa.afastou-se sem olhar para trás, cheio de medo e remorso.
"Coitado do José Afonso. Quis armar para cima de mim e se estrepou. E eu fui pior do que ele. Deixei-o sozinho sem saber se ele está vivo ou morto."
Andou com passos tímidos, sabendo que estava sozinho na rua numa hora perigosa.
"Por que eu topei? De todas as coisas idiotas que já fiz ou farei, nenhuma será pior do que esta! A Lilith me avisou! Se ela avisou, é porque ela sabe o que há naquela escola!"
Conseguiu chegar a sua casa e entrou. Sua mãe dormia. Entrou em seu quarto, pensando que nunca mais teria coragem de se olhar num espelho.
"Sou um monte de merda, não valho nada! Sou covarde, sou fraco!"
Deitou-se, exaurido. Adormeceu rapidamente.

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quarta-feira, agosto 5, 2015 - 14:26

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