As Filhas do Sapateiro VI (O Sapateiro)

O Sapateiro

O infeliz, vagueava sem razão aparente de caminhar por aqueles caminhos de vida premiados apenas pelo pó e pela escuridão em que o coração não intui na direcção a tomar. Sentia que o trilho da direita o iria levar ao mesmo trilho da esquerda. Sentou-se no chão e ficou parado como a pedra onde estava sentado e chorou como quem chora e grita com o mesmo poder aflito de quem quer derrubar o mundo com as próprias mãos. Sempre amou as suas filhas da mesma forma e agora o amor que tinha por uma erguia-se ao amor que sentira pelas outras. Deprimido, sentia-se num incapaz como um vagabundo que vagueia na sua própria existência e percebe que a sua vida vale menos que nada sem os outros.

Abraçado à sua depressão existencial, procurou dentro do farnel a agulha com que sempre brilhou no rigor da sua profissão, e, decidido num acto de submissão dirige o olhar ao céu pedindo pela última vez a Deus que olhasse pelos seus. A mão preparava já o momento certo e o olhar encobria o local indicado para cravar a afiada agulha quando os seus sentidos acordaram noutra direcção.

Mesmo à sua frente, estava um rasto dirigido ao rio e entoando um som abafado parecido com um animal selvagem. Deixou-se estar. Agora os pensamentos vagueavam entre a razão e o medo de ser morto por um animal qualquer. O som parecia-lhe conhecido! Não se tratava de um animal e não ouvia este som há muitos anos. Levantou-se e correu em direcção ao rio procurando descobrir a origem do som.

Com toda a clareza as suas preces foram atendidas, e o seu coração foi remetido ao auge da protecção daqueles seres pequeninos presenteados a seus pés.
O sapateiro rejuvenescia dia após dia a olhos vistos pelo sol, pela lua, pelo rio e pelas águas que nele corriam. Os seus netos cresciam fortes e astuciosos entre histórias inventadas numas certas, noutras erradas. Porém os anos passaram pelo sapateiro feliz e a morte encantou-o numa noite em que pescava para o sustento dos seus. Adormeceu enquanto esperava a entrada do peixe na rede, e não acordou.

(continua)

Carla Bordalo

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Jueves, Marzo 18, 2010 - 11:36

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E o infeliz do sapateiro, chegou ao fim da caminhada, da cruzada.

Mas felizmente a história continua!

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