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Monólogo da Senhora dos Vocábulos Altivos
Ah, mundo irrequieto e despojado de nobreza,
Por que trocastes o cetro das palavras
Pelo grunhido da pressa e o murmúrio da vulgaridade?
Outrora, a linguagem era tapete estendido
Para o pensamento passar em glória.
Cada vocábulo, uma relíquia;
Cada frase, um relicário.
Lembro-me do tempo em que até os silêncios tinham títulos,
E os adjetivos curvavam-se antes de servir ao substantivo.
Hoje, corre-se ao dizer, tropeça-se no falar,
E se arranca do verbo o véu da reverência.
Mas eu persisto.
Ergo minha voz como quem acende um candelabro
Em meio a uma noite de neologismos selvagens.
Pois ainda creio que há beleza no elevado,
Que há dignidade na escolha precisa,
E que o pensamento merece ser vestido
Com mais que trapos ocasionais.
Sim, chamem-me arcaica, anacrônica ou altiva
Aceito todos esses títulos como medalhas.
Pois onde o mundo vê excesso, vejo forma.
Onde vê rebuscamento, vejo escultura.
E quando tudo ruir,
Serei a última a pronunciar com voz firme:
'Ainda resta linguagem'.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense
Obs. Dizem que ela habita bibliotecas esquecidas e corredores onde o silêncio respira com reverência. Veste-se com tecidos antigos e leva um caderno de couro onde escreve, com pena e tinta, as palavras que julga dignas de permanecer. Seus olhos veem o mundo como um palácio em ruínas, mas sua língua, ainda assim, insiste em tratá-lo como realeza.
www.odairpoetacacerense.blogspot.com
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