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Catarse
Eis-me no auge da evidência, em plena levitação, lado a lado com os meus fantasmas. Vexada por uma insuportabilidade grotesca, tomo sofregamente a palavra e inicio o colóquio: blasfémia, espectros canibais! – acuso-os de comerem da carne que os reveste e de temperarem a minha alma flagelada com o sal. “Santa purificação” alegam eles, salivantes e mordazes, enquanto assisto à consagração da carta na qual o ritual em questão é descrito como “a sagração da moral pura e inócua, e do extermínio de todas as idealizações obscenas e pérfidas que a povoam”. Face a esta decretação ordinária, exalto-me em discurso aberto e suplicante, expondo as atrocidades cometidas ao meu espírito, com a vã esperança que me apliquem a pena capital, em vez de me atirarem de novo à incerteza.
Vede-me, aparições minhas, e dizei-me se não me haveis retirado a humanidade e substituído por uma complexidade submissa à fragilidade da sua própria composição; pois esta criatura mórbida que vos afronta somente existe graças à fome com que me haveis comido a alma, em comunhão com um desejo imenso de transformar o dono em servo. Pois este bicho estranho que se arrasta, que se fragmenta, que cospe a sua existência numa convulsão celestial, alimentou-vos, ignorante, com a fé cega que em vós tinha. E digo cega, não porque a fé verdadeira assim o é, mas sim porque a cegueira era minha…
E aqui me quedo. Abaixo da espécie humana, mas acima de qualquer Homem. Sobrenatural por definição. Num corpo que não o seu, aconchegando a carne aos ossos, estes que ardem como uma mortalha viva, cientes do corpo estranho.
Dizem que o ser humano se tem vindo adaptar, desde do inicio da sua existência, e que continuará a fazê-lo até ao fim. Por isso, considero-me mais humana do que qualquer outro, mesmo sob a forma de uma mutação, porque me moldei às consequências do mundo. Na minha essência, sou um pedaço de argila… apenas necessito de água e de umas mãos que me manipulem a consistência e que me dêem forma, qualquer forma. E se as mãos de que falo são as vossas, então fazei de mim, fazei desta terra molhada, a mais perfeita criação espectral que conseguis fazer, mas não vos olvidais de que não me podereis tirar nunca a vida, pois se o fizerdes, cometereis o suicídio. Não vos esqueceis: sois criações minhas, caprichos meus, parte de mim, do meu âmago, até podeis controlar-me, fazer-me passar pelo maior dos suplícios, todavia, o vosso domínio cessa, aquando da minha morte. Sois tão mortal, quanto eu. Mais até.
Olhai, quando o solo fizer de mim pó, serei una com a terra e existirei para lá da existência, para lá dos meus duelos internos, para lá de todo o tormento. Mas vós… ficareis presos a esse pó. Sereis apenas o rasto de uma demência escondida, logo, na prática, a vossa presença não será mais do que um martírio secreto e o vosso ritual de catarse não passará de um pesadelo, de um espasmo do inconsciente.
E eis-me aqui, assim, perante vós, imortal.
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