CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

A Língua na Orelha

Não sei bem se era meus olhos ou as luzes do bar estavam cada vez mais ofuscadas pela fumaça dos cigarros espalhados pelo amplo salão do bar. Minha cabeça começava a rodopiar. Ou eram as pessoas que rodopiavam? Uma ânsia de vomito se apoderou do meu estomago. Acho que foi o Martini ou a caipirinha que ingeri. Uma vontade louca de me deitar, mesmo que fosse ali naquela mesa de bar. Dessa forma não entendi muito bem o que ela queria. Nem mesmo sei como ela era. Não me lembro.
Na tarde daquele dia eu me deparei com uma ansiedade enorme de sair da rotina. Minha cabeça sempre foi voltada para os estudos. Talvez por pressão dos meus pais e por mim mesmo e meu objetivo de ser alguém na vida. Resolvi, então, que naquela noite iria fazer alguma coisa diferente do que estava acostumado a fazer sempre. Levantava-me cedo para estudar. De manha a mente está desocupada e aberta as novas leituras. À tarde eu trabalhava em um serviço para complementar a renda do aluguel e apostilas da faculdade. À noite, quase sempre, ia para a biblioteca complementar os estudos. O resultado desse esforço era sempre estar entre os primeiros da turma. De certa forma tinha lá suas vantagens. Vez ou outra uma gostosinha da sala me procurava para ajudá-la nas atividades. Mas o medo de avançar além das atividades me impedia de ter sucesso com elas.
Foi pensando em fazer algo diferente, mesmo que por um dia, que me impeliu a planejar fazer uma viagem diferente naquele dia. No crepúsculo daquele dia tomei um banho e sai. Literalmente atravessei a cidade e entrei em um movimentado bar. Comprei um maço de cigarros. Já que ia ser um fumante passivo resolvi experimentar como era ser um fumante ativo. Encostei-me no balcão e pedi uma bebida. Olhei as pessoas que jogavam sinuca e outras que conversavam e bebiam sentados nas mesas espalhadas pelo salão. No fundo, um conjunto de jovens afinava os instrumentos musicais para tocar musica ao vivo mais tarde. Foi o que deduzi na hora. Observando esse detalhe nem reparei na bebida que me deram no balcão. Virei goela abaixo e aquilo entrou queimando. Senti uma vertigem e fechei os olhos forcadamente.
Após alguns minutos ali esperando que o efeito da bebida passasse me dirigi a uma mesa e sentei-me. Tentei me comportar como um desses caras que saem todas as noites para esses lugares, mas acho que meu comportamento me denunciava. Eu estava em um ambiente hostil a minha educação familiar. O jeito seria beber mais um pouco. Pedi a uma garçonete que me trouxesse uma caipirinha. Olhei algumas mulheres naquele ambiente. A maioria quase sem roupas. Shorts e mini-saias bem curtas e blusas com decotes mostravam a vulgaridades delas. Tatuagens e pircings revelavam a banalidade do corpo. Essa minha visão nitidamente padronizada de conceitos cristãos poderia muito bem ser questionada se dissesse alguma coisa ali.
Enquanto fumava o segundo maço de cigarros e bebia a caipirinha percebi que meus olhos se turvavam naquela noite. A mistura de sons me deixava confuso. Músicas, gritos e conversas provocavam uma incógnita no ambiente. Alguns casais já dançavam pelo salão afora enquanto outras pessoas chegavam cada vez mais, lotando o ambiente. Perdi-me nas horas e não tinha noção do tempo em que estava ali. Foi nesse instante que ela apareceu.
Sem um pingo de pudor ou reserva ela chegou me abraçando. Quase cai com o peso dela se atirando sobre mim. Não me lembro de tê-la visto, mais ela parecia me conhecer de algum lugar.
_ Você faz que curso mesmo?
_ Biologia – menti. Eu era estudante de direito, mas estava interessado nos procedimentos da Biologia que une um homem e uma mulher. Na verdade, queria muito ver como isso funcionava na prática.
_ Hum!
A língua dela entrou na minha orelha e virei à cabeça para o lado. Acho que ela queria beijar a minha boca e acabou errando. Minha cabeça não estava muito boa. A mistura de Martini e caipirinha não me fazia muito bem. E eu não era acostumado com bebidas. Muito menos com cigarros. Meu estomago estava embrulhando e uma vontade louca de vomitar me dominava.
_ Você teria coragem de deixar sua namorada sozinha em um bar como este?
A pergunta dela me deixou desorientado. Sei lá! Se tivesse uma namorada decente, com certeza, nem pisaria num ambiente daquele. Estaria em um cinema, na praça ou em um clube mais familiar.
_ O meu namorado me deixou aqui e saiu com os amigos para buscar outros colegas. O que faço enquanto ele não chega?
Dessa vez ela acertou. A língua dela adentrou a minha boca e uma mistura de êxtase tomou conta do meu corpo. Senti um calafrio subindo pela espinha. O beijo durou alguns segundos. Caímos no chão. O peso dela se apoiando em mim e minhas pernas bambas não sustentaram a situação. No tombo levamos algumas mesas e cadeiras. As pessoas olharam. Alguns riram, outros nos ajudaram a levantar. Meu estomago não resistiu. Vomitei no salão. Gritos de nojo puderam ser ouvidos longe e pessoas se afastando. Uma garçonete me ajudou ir até o banheiro.
Molhei a cabeça e pude sentir um pequeno alivio. Não sabia como era o rosto da mulher que me beijou. Não conseguia visualizar mais nada naquela noite. Não sei quem estava mais bêbado. Eu ou ela.

Submited by

quinta-feira, janeiro 7, 2010 - 14:09

Prosas :

No votes yet

Odairjsilva

imagem de Odairjsilva
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 1 dia 2 horas
Membro desde: 04/07/2009
Conteúdos:
Pontos: 4322

Comentários

imagem de RobertoEstevesdaFonseca

Re: A Língua na Orelha

O beijo é algo tão divino que deve ser muito triste não se saber por quem fomos beijados.

Ótimo texto.

Um abraço,
REF

imagem de Gisa

Re: A Língua na Orelha

Que noite terrível vc conta em tão elaborado texto! Parabéns!

imagem de Librisscriptaest

Re: A Língua na Orelha

Gostei muito Odair!
A sua escrita prende o leitor, permite ver os cenários das personagens pelos seus olhos, visualizando cada detalhe mas sem travar a imaginação, despertando gradualmente o interesse pelo movimento e conhecimento do universo pessoal de cada interveniente na história!
Beijinho em si!
Inês Dunas

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of Odairjsilva

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Poesia/Meditação O Misterioso Homem na Praça Barão 0 11 06/01/2020 - 20:21 Português
Poesia/Amor Som da alegria 0 21 06/01/2020 - 20:19 Português
Poesia/Amor Poemas ao teu olhar 0 14 05/29/2020 - 22:23 Português
Poesia/Amor A canção do crepúsculo 0 12 05/27/2020 - 20:06 Português
Poesia/Tristeza Lágrimas da realidade 0 15 05/25/2020 - 21:34 Português
Poesia/Amor Do fundo do coração 0 13 05/25/2020 - 20:49 Português
Poesia/Tristeza Será que ela vai perceber a dor deste meu coração? 1 118 05/23/2020 - 12:35 Português
Poesia/Paixão O sorriso que vem do coração 0 22 05/21/2020 - 20:26 Português
Poesia/Paixão O sorriso que vem do coração 0 25 05/21/2020 - 20:23 Português
Poesia/Pensamentos O silêncio da reflexão 0 43 05/19/2020 - 20:46 Português
Poesia/Pensamentos O dizer do silêncio 0 72 05/14/2020 - 00:05 Português
Poesia/Meditação O sol também se levanta 0 53 05/12/2020 - 21:01 Português
Poesia/Tristeza Se você pudesse me amar 0 54 05/11/2020 - 20:38 Português
Poesia/Paixão A flor do meu jardim 0 48 05/08/2020 - 16:54 Português
Poesia/Amor Madrugada 0 58 05/07/2020 - 21:54 Português
Poesia/Amor Você é incrível 0 91 05/04/2020 - 22:01 Português
Poesia/Canção Seja poesia 0 77 05/04/2020 - 21:16 Português
Poesia/Amor Inevitável sentimento 0 100 05/03/2020 - 15:37 Português
Poesia/Meditação A vitória através da fé 0 112 05/01/2020 - 20:04 Português
Poesia/Pensamentos A admiração na imaginação 0 48 04/30/2020 - 14:28 Português
Poesia/Tristeza No mesmo caminho 0 52 04/28/2020 - 16:24 Português
Poesia/Amor As palavras que jamais te falarei 0 48 04/27/2020 - 14:24 Português
Poesia/Meditação Não tenho medo do silêncio 0 557 04/21/2020 - 16:50 Português
Poesia/Amor Você é mais do que os olhos podem ver 1 105 04/19/2020 - 15:42 Português
Poesia/Paixão Quero ter os seus olhos junto a mim 0 316 04/14/2020 - 18:56 Português