APÓLOGOS XXIV

24

O papagaio e a gallinha

Loquaz pagagaio
Seccava a goela,
Soltando mil gritos
A uma janella.

Olhou para a rua
Por onde vagava
Gallinha de pôpa
Que depinicava:

Na lingua das aves
Co'um ar superior
Lhe deu estes chascos
O vão palrador:

«Devéras, visinha,
Que pódes campar,
Co'a prenda galante
De cacarejar!

«Deixando ironias,
Sempre és cousa pouca,
Não tens outro chiste
Senão essa touca.

«Depois de defunta
Só causas prazer;
Para te comerem
Te dão de comer.

«Eu em alma, e corpo
Sou ave excellente;
Não pasmas de ouvir-me
Fallar como a gente?»

«Não pasmo (responde
Dos gallos a amiga)
Villão, carioca,
Mordaz de uma figa.

«Da lingua, que allegas,
Basofia concebes ?
Que importa que a falles,
Se não a percebes ?

«Com isto te abates
No meu parecer;
Os tolos só dizem
O que ouvem dizer.»

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Sunday, October 11, 2009 - 16:55

Poesia Consagrada :

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