Fuga em azul menor (Cassiano Ricardo)
O meu rosto de terra
ficará aqui mesmo
no mar ou no horizonte.
Ficará defronte
à casa onde morei.
Mas o meu rosto azul,
O meu rosto de viagem,
esse, irá pra onde irei.
Todo o mundo físico
que gorjeia lá fora
não me procure agora.
Embarquei numa nuvem
por um vão de janela
dos meus cinco sentidos.
E que adianta a alegria
dizer que estou presente
com o meu rosto de terra
se não estou em casa?
Inútil insistência.
Cortei em mim a cauda
das formas e das cores.
(A abstração é uma forma
de se inventar a ausência)
e estou longe de mim
nesta viagem abstrata
sem horizonte e fim.
Um dia voltarei
qual pássaro marítimo,
numa tarde bem mansa
à hora do sol posto.
Então, loura criança,
Ouvirás o meu ritmo
e me perguntarás:
quem és tu, pobre ser?
Mas, eu vim de tão longe
e tão azul de rosto
que não me podes ver.
A graça de quem mora
no país da ausência
certo consiste nisto:
ficar azul de rosto
pra não poder ser visto.
Cassiano Ricardo, poeta brasileiro.
Submited by
Poesia :
- Inicie sesión para enviar comentarios
- 4573 reads
Add comment
other contents of AjAraujo
| Tema | Título | Respuestas | Lecturas |
Último envío |
Idioma | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Poesia/Dedicada | Auto de Natal | 2 | 6.495 | 12/16/2009 - 02:43 | Portuguese | |
| Poesia/Meditación | Natal: A paz do Menino Deus! | 2 | 8.967 | 12/13/2009 - 11:32 | Portuguese | |
| Poesia/Aforismo | Uma crônica de Natal | 3 | 5.842 | 11/26/2009 - 03:00 | Portuguese | |
| Poesia/Dedicada | Natal: uma prece | 1 | 4.831 | 11/24/2009 - 11:28 | Portuguese | |
| Poesia/Dedicada | Arcas de Natal | 3 | 8.814 | 11/20/2009 - 03:02 | Portuguese | |
| Poesia/Meditación | Queria apenas falar de um Natal... | 3 | 8.953 | 11/15/2009 - 20:54 | Portuguese |






Comentarios
fugas
quem nunca sentiu urgência
de fugir de si próprio?!
Um tema comum ao espírito poético
aqui muito bem trabalhado
neste poema.
Saudações!
Abilio