Quintais

Saudades de certos quintais . . .
Especialmente daquele que continha árvores:
um abacateiro, uma pitangueira e
uma figueira morta, ressecada.
Foi ela o meu primeiro cavalo
de todos que nunca tive.
E sim, como não, também haviam cabanas no bambuzal.
Cada um tinha a sua e, dessa sorte, tornamo-nos
o elo perdido: “Homo Bambu”.

Quintal que em Maio amanhecia branco de geadas.
Eram inevitáveis se o anterior pôr-do-sol fosse alaranjado.
Coisas da Mantiqueira.

Quintal onde em certo tempo plantou-se milho.
Noutro, batatas. Os primeiros, debulhados, foram trocados por pães.
As segundas, fritas, deram-me a primeira (ou única?) sensação de abundância.

Saudade do quintal que continha um certo banco,
lastreado por jovens rebeldes que amavam Níveas
e iam aos cinemas nas tardes de domingos.
Jovens que eram jovens no tempo da Ditadura e
por serem jovens: se hay un gobierno yo soy contra.

Menos um. Direitista danado. Viveu pouco tempo.

Os outros tiveram filhos, dividas, dúvidas
falências, padarias, bons empregos, lojas e sonhos.
Também tiveram labirintites, artrites, tosses,
amarguras, alegrias baratas, cânceres e espinhela caída.
E assim vamo-nos acabando.

Mas a memória daquele quintal insiste em sobreviver.

Submited by

Miércoles, Julio 22, 2009 - 12:55

Poesia :

Sin votos aún

fabiovillela

Imagen de fabiovillela
Desconectado
Título: Moderador Poesia
Last seen: Hace 9 años 16 semanas
Integró: 05/07/2009
Posts:
Points: 6158

Comentarios

Imagen de Conchinha

Re: Quintais

belíssimo poema.
Confesso que até eu tive saudades desse quintal (objectivo do escritor plenamente atingido).

Abraço.

Imagen de MarneDulinski

Re: Quintais

fabiovillela!

Gostei das tuas Reminiscências!
Ótimo!
Marne

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of fabiovillela

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Tristeza A Canção de Alepo 0 8.825 10/01/2016 - 21:17 Portuguese
Poesia/Meditación Nada 0 8.035 07/07/2016 - 15:34 Portuguese
Poesia/Amor As Manhãs 0 7.718 07/02/2016 - 13:49 Portuguese
Poesia/General A Ave de Arribação 0 7.858 06/20/2016 - 17:10 Portuguese
Poesia/Amor BETH e a REVOLUÇÃO DE VERDADE 0 9.853 06/06/2016 - 18:30 Portuguese
Prosas/Otros A Dialética 0 13.766 04/19/2016 - 20:44 Portuguese
Poesia/Desilusión OS FINS 0 8.786 04/17/2016 - 11:28 Portuguese
Poesia/Dedicada O Camareiro 0 11.287 03/16/2016 - 21:28 Portuguese
Poesia/Amor O Fim 1 7.979 03/04/2016 - 21:54 Portuguese
Poesia/Amor Rio, de 451 Janeiros 1 12.719 03/04/2016 - 21:19 Portuguese
Prosas/Otros Rostos e Livros 0 11.866 02/18/2016 - 19:14 Portuguese
Poesia/Amor A Nova Enseada 0 8.069 02/17/2016 - 14:52 Portuguese
Poesia/Amor O Voo de Papillon 0 7.288 02/02/2016 - 17:43 Portuguese
Poesia/Meditación O Avião 0 9.000 01/24/2016 - 15:25 Portuguese
Poesia/Amor Amores e Realejos 0 9.826 01/23/2016 - 15:38 Portuguese
Poesia/Dedicada Os Lusos Poetas 0 8.003 01/17/2016 - 20:16 Portuguese
Poesia/Amor O Voo 0 8.037 01/08/2016 - 17:53 Portuguese
Prosas/Otros Schopenhauer e o Pessimismo Filosófico 0 15.943 01/07/2016 - 19:31 Portuguese
Poesia/Amor Revellion em Copacabana 0 7.515 12/31/2015 - 14:19 Portuguese
Poesia/General Porque é Natal, sejamos Quixotes 0 9.329 12/23/2015 - 17:07 Portuguese
Poesia/General A Cena 0 9.015 12/21/2015 - 12:55 Portuguese
Prosas/Otros Jihadismo: contra os Muçulmanos e contra o Ocidente. 0 13.420 12/20/2015 - 18:17 Portuguese
Poesia/Amor Os Vazios 0 12.233 12/18/2015 - 19:59 Portuguese
Prosas/Otros O impeachment e a Impopularidade Carta aberta ao Senhor Deputado Ivan Valente – Psol. 0 11.179 12/15/2015 - 13:59 Portuguese
Poesia/Amor A Hora 0 12.125 12/12/2015 - 15:54 Portuguese