LÁPIS DE SER

Que bofetada é este vento de navalhas
com que cada conjuntura barbeia
as rijas barbas do tempo?

Encarquilhada cara dos pensamentos
onde o pulsar do coração semeia
robustas lágrimas no olhar.

Que sopro é este entoar
de uma multidão de insanas vozes
que despenteiam as árvores dos sentimentos?

Pecantes maçãs pelo chão dos pomares do corpo.
Que quedas são estes anoiteceres em solidão?

Que bagaço entreva em nós a sombra
que nos tece a sede que a arde submersa
nos confins de uma espera que nada espera?

Que sóis as manhãs beijam sem sono
para adormecer os luares sem dono
sobre os horizontes da tristeza?

Com que mares a alma se eclipsa
entre saudade e dor?

Por que anseios as mãos se bronzeiam de amar?
Que palavras sente a boca neste silêncio?

Por que explosões
os lábios gritam aquele beijo
que o amor em desespero jorra e chora?

Que invisível será a cor o adeus?
Que veneno envenena a fome de crer?

Que curvas a escuridão esconde
nas rectas que o medo acende em tanto vazio?

Em que poço de águas turvas
a poesia se apinha de louca serpentinas
que se enroscam e se dissimulam no lápis de ser?
.
.
Henrique Fernandes

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Viernes, Enero 16, 2015 - 19:47

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