Atrai-me o medo
Atrai-me o medo, a volúpia,
A dor curta e a angústia
Que passa veloz, a palavra
Egoísta far-me-á justiça,
A inveja e a vaidade,
Veleidade d’carácter, também
Assim com’o fracasso
Antecipado, afligem-me
Ideias de sucesso,
Sonhos falsos que nem
Foram construídos pra mim.
Não passo dum projecto,
Uma espécie de filosofia
Andante, quotidiana, dramática
E incurável, estranha coisa
Essa’onde existiu Homero,
E uma versão do universo,
Que não é bem d’verdade,
Embora a mesma dor breve,
E uma pergunta em aberto,
Ou meu sonho se perdeu,
Ou me perdi eu do sonhado,
Sendo que o sonho sou eu,
E o auditório está vazio,
O mundo continua parado,
Tranquilo como sempre
Existiu, os galos cantam,
Tardia a natureza emudece,
A noite fria prossegue,
É um facto que não surpreende,
Já o constante medo,
Em que paradoxalmente vivo,
Não me causa temor,
É um vício, tem vida, definição
De corpo, qualquer coisa
Indefinida entre eu e eu…
Joel Matos 25 Novembro 20/25
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