Aquele Olhar

Olhou-me… profundamente olhou-me nos olhos de maneira que mesmo a cerca de dez metros de distância congelou-me, fiquei estática, aquele olhar olhou-me de um modo que não me lembro de sentir olhada, um olhar profundo, profundo como o poço sem fundo que se transformou o meu olhar que era penetrado por ele, pelos olhos dele, olhos que não me lembro a cor e não permitiam sequer que eu movimentasse um mínimo dedo, estava petrificada naquilo que via, que sentia e crescia… desmesuradamente crescia enquanto ele a rua descia em minha direcção, eu sentada, sentada numa cadeira da esplanada, congelada, petrificada, totalmente imóvel e absorvida por aquele olhar, profundo, sem fundo e crescente assustadoramente crescente enquanto ele descia em lentos passos em minha direcção, vagarosamente ele caminhava num tempo parado, estático enquanto em mim aumentava, de tamanho aumentava de tal modo que ocupava todos os meus sentidos e naquele tempo era todo meu ar, meu coração disparava em ritmo, em aceleração vertiginosa disparava, enquanto ele, se aproximava, lentamente, vagarosamente lento andava, como se tivesse toda a eternidade para dar aqueles passos e a velocidade do meu batimento cardíaco já se fazia sentir no peito, não só rápido mas cada vez mais forte a cada metro que ele se aproximava e de resto petrificada, nua, despida, violada, fornicada sem pedirem-me sequer licença a alma, enquanto ele continuava a descer, vagarosamente a descer a rua, não existia mais nada senão aquele olhar e meu coração a bater rápido, forte, descompassando e suplicava-lhe alimento para alma através do olhar a ele já perto, muito perto, demasiadamente perto, tão perto que sentia o cheiro de seu corpo no instante que desviou o seu olhar, entra no estabelecimento que eu estou na esplanada, a ferver, quente, sentada, suada, molhada, transtornada, meu marido olha para mim e pergunta se me sentia bem, disse que não, estava incomodada, menti-lhe… disse que era o vento que me incomodava, deixei-lhe com os amigos e entrei, ele estava ao canto oposto a porta e eu não consegui aproximar-me mais, novamente petrificada a desejar que ele novamente me olha-se e com o olhar me chamasse, vi seu rosto mexer ligeiramente, meus joelhos tremeram e medo, desejo, receio e cio se misturaram, apoie-me com a mão a mesa, mão suada, molhada e sentindo a pressão descer vertiginosamente deixei o corpo cair em forma de se sentar na cadeira branca e gelada, eu suava, agora fria suava e nem sequer ousava olhar para aquele olhar que não sei se olhava-me, sentia-me ali para um canto, cansada, molhada, suada, desgastada, trastornada, fraca, frágil, vulnerável e estupidamente dependente, dementemente dependente daquele ar, daquele cheiro e daquele olhar.

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Miércoles, Mayo 14, 2008 - 09:30

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Texto bem escrito em dom da palavra!

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