Último Dia
Amanhã é o meu último dia.
Mesmo que fique no jornal que me acolheu no último ano e dois meses, será o fim de um ciclo. Passarei de estagiária jornalista à jornalista que foi estagiária.
Não. Nada mudará realmente. Apenas o cartãozinho que diz “PRESS”, que passará de verde a vermelho e cujo preço quadruplicará.
Mas não sei se fico nesta velhinha Aurora a quem tanto me afeiçoei. Neste jornaleco bissemanário, que de tão familiar às vezes irrita.
Cá dentro somos todos uma família, a começar pelos directores: dois irmãos que não podiam ser mais diferentes… especiais…
Na recepção temos um senhor e um rapaz. Idades extremas. Ensinam-se um ao outro. O mais velho está a aprender os computadores, e aprende rápido. Tem uma escrivaninha daquelas altas das escolas primárias de antigamente e passa lá os recibos. Nunca se senta.
O mais novo tem secretária, computador e Messenger. Aprende muito com o mais velho, nada tão específico como os computadores, mas muitas coisas que, provavelmente, lhe servirão para a vida.
Mais lá dentro temos os impressores. Fazem de tudo um pouco. Um deles até pagina desporto e publicidade. Está na casa há 40 anos. O outro gosta de conversar e apanha as gralhas todas que deixamos passar.
São os dois muito diferentes: um mais extrovertido, outro menos, ambos muito informados, dos poucos que, neste jornal, lêem jornais.
Depois há outro senhor que tanto passa textos daqueles correspondentes que ainda escrevem à mão, como dobra as folhas de jornal, como cola endereços nos envelopes e bandas que os vão embrulhar. É a pessoa mais discreta de todo o jornal. Fala muito pouco, com um sorriso simpático.
Cá em cima, fora o chefe, somos quatro. O jornalista, despassarado, esquece sempre alguma coisa, se não for no texto, é em casa. Mas é bom no que faz.
A paginadora, a única moça do jornal além de mim, irrita-se facilmente, principalmente com o jornalista. Já lhe disse: “Ainda vais morrer disso”, mas todas as semanas é a mesma coisa: o seu nome do meio é “Stresse”. Gosta de mim, ela. Digo-o porque mete sempre a “cunha” ao chefe para os meus textos irem para as melhores páginas…
Temos ainda outro paginador, que se encarrega das páginas regionais e religiosas. Houve tempos em que escreveu. Poucos gostam deles, à excepção de mim. É complicado. Muito solitário, algo de que, desde o início, me apercebi. Tentei dar-lhe atenção, que ele abraçou. Normalmente é a ele que recorro quando tenho dúvidas de Português, não há gramática que o bata! Tenho pena: alguém com tanto potencial que se entregou à monotonia. Ele podia ser tudo… escolheu ser dedicado.
Todos nós, à excepção do jornalista, dos da recepção e dos chefes, nos juntamos lá em baixo, às terças e quintas, para expedir o jornal. Cerca de cinco mil exemplares. A mim cabe-me o papel de intercalar as capas e de os pôr, depois de dobrados, nos envelopes para o estrangeiro. Cada um tem a sua tarefa. Somos como uma fábrica.
A nós junta-se um antigo funcionário da casa, já reformado, que nos vem ajudar e passar o tempo. São momentos bem passados. Talvez daqueles em que aprendi mais, ouvindo histórias da velhinha Aurora, e não só, de tempos que a mim parecem uma eternidade, mas que eles contam com o sorriso da juventude a crescer-lhes nos olhos…
Aqui, do meu gabinete, observo-os, já com a saudade a apertar-me a garganta, com medo de ficar órfã desta família… amanhã…
Acima de tudo não quero voltar a fazer parte do meio milhão...
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Comentarios
Re: Último Dia
Não conheço teu jornal, mas uma coisa aprendi na vida para se ganhar alguma coisa tem que se perder outras. Ganhaste um gabinete, mas não queres perder o passado de estagiária o tempo se foi. Agora é hora de sentar no gabinete. Parabens mostras que é uma pessoa sensível.
Re: Último Dia
O velho Aurorinha que me dá um brilhozinho discreto nos olhos sempre que por lá passo... (Tento aproveitar cada instante quando subitamente alguém abre a sua porta peculiar e secreta do mundo dos Jornais, e sonho com o seu mundo lá dentro)
Ai! Esse velho Aurorinha.....
Re: Último Dia
Fiquei.
Quando quiseres, faço-te uma visita guiada, mas devo avisar que a Aurora não é só velhinha na idade...
Re: Último Dia
Senti o meu coração apertar com a tua saudade, com a nostalgia q noto sentires... senti tudo o q sentiste ao escrever este texto, senti até o friozinho do teu medo... e como critica penso q é o suficiente.
Qd alguém sente o q a gente sentiu (ou pelo menos pensa q sim) conseguimos aquilo que nos propusemos qd começamos a escrever, passamos a nossa mensagem.
Fantástico... e deixa-te q te diga q como escritora me identifico contigo msm sem te conhecer.
Beijo grande e mts felicidades
Re: Último Dia
Fiquei sem palavras...
Recomendo-te a leitura dos textos do Mosquito Quantico, são sentimentais de outra forma, muito envolventes e não acabas de os ler sem um sorriso.
Obrigada
Re: Último Dia
Gostei do texto e do cenário que pintaste, parece que o Aurora é um sitio decente para se trabalhar, um daqueles oásis onde as pessoa são ainda pessoas e há consideração por aquilo que se faz… É bonito saber que isso ainda existe…
Estou a torcer por ti e para que recebas boas noticias…
Re: Último Dia
Gostei muito de seu texto, traduz uma saudade recente do ontem para o hoje. Lindo mesmo, parabens.