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Arrábida

Bem cá em cima, encostado num banco de cimento mal feito, muito peculiar, absorvo na degustação de um copo de vinho, uma aragem de Verão encorpada e leve que me eleva os sentidos na imagem que recebo, à meia-luz de um Sol que se afastou.
Sei que é branco, gizado em U saliente para fora à moda de quinhentos, e engalanado na guarda de uma vegetação mediterrânica, que mal distingo, mas que lembro o seu maravilhoso verde hirsuto de azeitona.
A garrafa, erecta, e já entornada no laço do seu gargalo, faz-me companhia. Está morno na boca, na saliva; quente na pele contra o semblante do fumo do cigarro. Deixo-me ir, desistente. No copo ainda preso na vontade dos lábios, reviro o olhar para o abismo, e lá no fundo, movem-se no mar sereno aguarelas espelhadas do céu quase nocturno em tonalidades símias de cio. Soltam-se-me as inibições do rigor da celebração que ali ao lado decorre, entre a camisa desbragada nas calças; a gravata alarga-se na camisa aberta ao peito, desajeitada. Oh, como me gosto assim desimpedido: louco.
O vento dança, travesso, e como eu gira a mulher que se debruça sobre o promontório bem junto ao muro velho, levantando subtilmente a saia de um vestido que também sei ser branco, adornado de sombras abstractas de flores delineadas a preto forte, em linhas muito simples e finas. Vacila no meu olhar, fixamente, teimosamente, como um cendal sem pressa.
O assombro da natureza multiplica-se no meu mugir de boi, com essa mulher que se entrega para trás nos seus cabelos muito compridos, quando a brisa a sobe e penetra num gemido mudo, encolhendo-se, e só a minha mão fechada, agora chegada sobre o casaco atirado ao lado, sente a força desse som de ilusões. Os olhos estão fechados. Pressinto-os. E os meus, agora com mais brutalidade, percorrem-na nos pés nus cruelmente doces no osso elegantemente desenhado, onde estes se estendem numa vertigem contínua de sopros de carne firme sem fim, curvando as pequenas saliências bem pronunciadas em belos vales torneados que desaguam na bacia oculta, como se fosse a de Petra, mas, já sem o perdão da imaginação do que para lá existe desse monte húmido entre fendas.

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segunda-feira, agosto 9, 2010 - 17:25

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Jorgelupus

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