CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

O Lago dos Patos

Hoje o lago está um tanto triste.
Durante os últimos meses, este lugar foi para mim como deve ter sido para outras pessoas, uma fonte pura de energia. Todas as manhãs eu estacionava meu carro na rua que o margeia, respirava o sopro da primeira brisa, dava bom dia ao dia, bendizia o sol, agradecia a vida, e ouvia o louvor da natureza na voz dos pardais e bem-te-vis. De alma nova, calmamente dava as cinco voltas ao redor do lago, enquanto declinava os cinco mistérios do terço. Assim começava o meu dia. Andar pode fazer muito bem à saúde do corpo e da alma. O lago para os que o freqüentam, se torna com o passar do tempo um forte referencial.

O lago só subsiste, só permanece e se personaliza por ser o fator de equilíbrio da praça. O lago é estático e só tem vida, só significa, porque giramos em torno dele. O lago só é paz porque de maneira centrífuga despejamos nele nossos sonhos de agora, nossas lembranças do antes e nossas visões do depois. O lago é como um vórtice triturador de nossas dores, angústias e problemas. O lago não interage, mas como um velho sábio, ouve todos os clamores e desabafos sem nada questionar, sem nada responder. O lago nos passa uma idéia cíclica de vida. Do lago emana a brisa que nos refresca, e no lago por um imaterial remoinho, são absorvidos como numa clepsidra, os minutos da nossa vida. O lago é começo e fim em si mesmo. O lago nos alimenta e nos desgasta, nos dá e nos cobra. O lago nos ensina e nos questiona. O lago só se faz presente para as pessoas que o entendem, para os que o decifram e para aqueles que o vêem.

Hoje também, a brisa suave soprou. As brancas garças suavemente pousaram em suas margens a procura do alimento, hoje também eu rezei meu terço e os pássaros entoaram seu louvor, também hoje o sol despejou sobre as águas seus raios de prata. Hoje também é um novo dia.
As pessoas, como sempre, andaram, correram, se cumprimentaram, sorriram, e se inseriram alegres e displicentes nesta paisagem, como conteúdos precípuos deste quadro que meu Deus plasmou.

Mas hoje, é como se o lago não existisse para mim. Hoje o lago é como um quadro sem a assinatura do pintor, porque o banco de cimento sob as sombras das árvores está por algum motivo vazio. Na verdade, durante os últimos meses eu só vim ao lago para olhar o banco de cimento. O banco era a vida do lago e justificava a paisagem. Eu então olhava fixo para o banco de cimento, e pensava: um dia, serei eu quem estará sentado ali...

Ele devia ter por volta de oitenta anos. Nunca falei com ele. Não precisava. Seus cabelos brancos, seus movimentos lentos, o brilho dos seus olhos, aquele sorriso leve e solto, contavam toda uma história. Eu não sabia, mas era responsável por esse velho que me fazia contemplar o lago com sabedoria. Eu tinha por obrigação livrá-lo dos preconceitos que pesam sobre todos os idosos, mas a minha inércia impediu. Por quanto tempo ainda, velho nos lembrará asilo? Hoje o banco está vazio. Dizem que ele morreu de saudades. Dizem que morreu sozinho, sentado ali. O lago hoje deixou de ser, ou talvez, nunca tenha existido para mim. Já não há mais nada para eu fazer aqui. Hoje eu entendi que o lago era um detalhe. Aquele doce velhinho sim, era a vida da paisagem, a personalidade, os sonhos, a visões e as lembranças. Por isso há uma lágrima no canto dos meus olhos. (J.thamiel)

Submited by

quarta-feira, maio 4, 2016 - 11:21

Prosas :

No votes yet

J. Thamiel

imagem de J. Thamiel
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 16 horas 9 minutos
Membro desde: 05/02/2016
Conteúdos:
Pontos: 3395

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of J. Thamiel

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Poesia/Geral O POETA FERIDO 0 51 01/27/2021 - 15:20 Português
Poesia/Geral O REGATO 1 73 01/27/2021 - 15:06 Português
Poesia/Geral P A R A D O X O 1 79 01/27/2021 - 15:04 Português
Poesia/Amor E, NEM CHEGOU A PRIMAVERA... 1 68 01/26/2021 - 19:43 Português
Poesia/Geral ENQUANTO DEUS COCHILA 1 86 01/26/2021 - 18:51 Português
Poesia/Soneto PARA FRENTE 1 59 01/26/2021 - 16:27 Português
Poesia/Fantasia CÉU COM POESIA 1 52 01/26/2021 - 16:18 Português
Poesia/Fantasia A CAIXINHA DO TEMPO 1 59 01/25/2021 - 01:58 Português
Poesia/Geral A CHUVA MOLHA AS ALMAS DISTRAÍDAS 2 115 01/24/2021 - 04:17 Português
Poesia/Geral ACREDITANDO 2 64 01/22/2021 - 11:18 Português
Poesia/Meditação QUANDO SOAR A TROMBETA DO ANJO 5 195 01/20/2021 - 11:34 Português
Poesia/Geral QUEM SE ILUDE, ACEITA A DOR. 4 86 01/19/2021 - 18:56 Português
Poesia/Desilusão AGORA É SAUDADE 1 166 01/18/2021 - 14:19 Português
Poesia/Pensamentos SEGUIMOS O VENTO 3 265 01/17/2021 - 18:49 Português
Poesia/Geral FIAT LUX 2 128 01/16/2021 - 13:54 Português
Poesia/Fantasia OS NEFLINS 0 192 01/16/2021 - 05:01 Português
Poesia/Geral SOMOS POSSÍVEIS E PASSÍVEIS DE ERROS 1 82 01/15/2021 - 15:24 Português
Poesia/Fantasia NÃO ESTOU SOZINHO 2 187 01/12/2021 - 11:25 Português
Poesia/Geral ORGULHOSO COMPLACENTE 0 133 01/10/2021 - 21:33 Português
Poesia/Fantasia MEUS VERSOS TALVEZ TE AGRADEM... 0 134 01/07/2021 - 14:13 Português
Poesia/Pensamentos PHILOSOPHANDO 0 101 01/02/2021 - 11:57 Português
Poesia/Amor TEU ADVENTO 0 174 12/29/2020 - 16:40 Português
Poesia/Geral BOCA DE TRAMELA 0 155 12/29/2020 - 14:24 Português
Poesia/Geral INFINITO 1 150 12/19/2020 - 00:17 Português
Poesia/Fantasia EL PÁJARO 0 129 12/18/2020 - 15:18 Português