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Quadro em Quarto de Hotel

Havía vezes, sem razão aparente, que sentía um frio percorrer-lhe o corpo, quase antagonicamente um choque eléctrico que o petrificava. Com medo e só depois de a abraçar, se acalmava nos afagos de cabelo, os beijos nas palmas das mãos como segredos que se escondem na areia.
Tinha o singular perfil do poeta entristecido, da comoção trémula da palavra poupada para as ocasiões importantes. E por isso pouco falava, os olhos muito dizíam e tantas vezes essa atitude, fria e distante para os outros que o não liam, riscava-lhe uma ruga profunda na testa alta como uma cicatriz mal curada.
Depois que a achou, mais medo passou a sentir. De tudo. Até da nostalgia da saudade dela, do cheiro da partida dela, das lágrimas que havería de verter. Tudo por antecipação, que ela não se fora. Ainda.
Que um tempo houve que ela o consolou desse mal por chegar, sorrindo contemplativa a esse menino tão frágil, alisando-lhe no carinho das festas ciciadas o coração engelhado, repuxando nas faces barbudas uma lua crescente, animando-o a descobrir porque ría ela.
Mas tudo parecía um cansaço e um dia cansada de estar triste avisou-o com tristeza da saudade que dele sentiría quando voltasse a ser feliz.
Ele esvaiu-se na lunaridade da sua essência ao deixá-la ir, o rosto voltado para a janela molhada da noite que aparecía.
Ficou assim muito tempo. Muito silêncio.
Não se sentiu nem mais triste nem mais abandonado quando perto dele ela lhe dava a mão e o guiava até ao quarto para fazerem amor. Não se sentiu aliviado por haverem agora verdadeiras e palpáveis razões para sentir a solidão das horas de amor que não aconteceríam mais.
Ficou assim muito tempo. Muito escuro. Muito imóvel.
Veio o sol, o dia cresceu.
Foi quando percebeu que estava encarcerado numa moldura de talha dourada, preso numa tela de tons pastel em que uma mulher se despedía de um homem.

(Dez/07)

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sábado, abril 12, 2008 - 20:23

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SantAna

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Comentários

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Re: Quadro em Quarto de Hotel

Texto bem escrito em dom da palavra!

:-)

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Re: Quadro em Quarto de Hotel

Talvez paixão doentia mas avassaladora. Talvez refrão proeminente em música que se queria singela e curta. Talvez… amor que criou côdea por não saber manter o miolo esclarecido, simples e esperto.
Bjs
"(º0º)"

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